O Nordeste no coração do Brasil

A identidade de Brasília é uma fusão de muitas outras. Entre elas, a nordestina, que é mantida pulsante na capital por artistas, vindos de lá ou herdeiros de quem chegou antes. Eles cantam, escrevem, desenham e rimam a arte daquele estado

Correio Braziliense

Brasília é feita de gente que emprestou suas histórias para criar outra. Há mais de 60 anos, migrantes de todo o Brasil chegaram ao cerrado para a construção da capital. Com eles, trouxeram diferentes sotaques, músicas próprias, temperos e aromas específicos. Trabalhadores que deixaram a terra física sem abandonar a essência que os ligavam ao solo em que nasceram. Para amenizar a distância, doaram seus hábitos e cultura a uma cidade que não ainda não tinha identidade.

Passadas tantas décadas, os rastros de ares vindos de fora, que levantaram a poeira vermelha no centro do Brasil, deixaram marcas indeléveis no território representado graficamente por um quadradinho. Nele, cabe gente de todo lugar. Dos fundadores aos que vieram depois, há os que, até hoje, fazem de tudo para resgatar e manter as características da terra natal. É justamente isso que transforma a capital do país em um lugar particular, de essência única, nascida da mistura de outras.

Entre os que aceitaram o convite de Juscelino Kubitschek, muitos eram nordestinos, que carregavam só uma mala de sonhos e de tradição. Eles trouxeram na bagagem um vocabulário charmoso e um jeito típico de contar as próprias histórias: cantando, desenhando ou escrevendo os poemas de cordel.

Segundo os últimos dados, divulgados em 2014 na Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios do Distrito Federal (PDAD), Brasília se tornou o lar de mais de 735 mil nascidos no Nordeste. São muitos os relatos de pessoas que mudaram de endereço mas não deixaram as raízes para trás. Alguns deles mantêm a cultura nordestina vibrante por aqui por meio da música, da literatura e das artes. Se não fazem, inspiram artistas brasilienses a fazerem. Se não é feito aqui, recebemos de braços abertos exposições, mostras, shows, e até moda, que trazem um pouco do Nordeste até o Planalto Central.

(foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press) 

Histórias esculpidas em madeira

Com finalidade de dar forma ao imaginário nordestino, a técnica de origem chinesa, que transforma madeira em personagens, chegou ao Brasil e encantou os amantes da literatura poética em forma de cordel. Porém, a xilogravura ganhou tamanha notoriedade e admiração, que alcançou o mundo das artes plásticas eruditas. A modalidade artística extrapolou os limites dos varais cordelistas e agora integra museus e galerias de todo o mundo, enriquecendo-as com tradicionalidade e referências genuinamente brasileiras.

Brasília recebeu, recentemente, a exposição A Xilogravura popular: xilógrafos, poetas e cantadores. Segundo uma das curadoras da mostra, Edna Pontes, a capital federal foi escolhida para ser a primeira sede da exposição por sua “localização geográfica privilegiada e por abrigar uma população nordestina expressiva”, explica. Mais de 2.500 pessoas por dia admiraram os mais de 300 exemplares expostos no Museu Nacional, durante os meses de janeiro e fevereiro. Agora, os desenhos viraram um catálogo.

Entre os artistas brasileiros mais famosos que se apropriaram da técnica, estão os ilustradores de literatura. Valdério Costa, 52 anos, é natural do Rio Grande do Norte e começou a entrar no mundo da xilogravura por causa do amor pela ilustração. O gravador veio morar na capital federal ainda criança com a família e encontrou na xilogravura uma forma de preservar suas origens. Formado em artes plásticas pela Universidade de Brasília, o professor da Secretaria de Educação do Distrito Federal utiliza a arte para valorizar a cultura nordestina e para repassar a tradição para os alunos.

Durante as aulas, Valdério ensina crianças, jovens e adultos a desenhar, a produzir as matrizes e a imprimir. “Sempre tento transmitir o quanto a nossa identidade cultural é rica e que devemos nos valorizar, porque, muitas vezes, damos mais atenção à produção artística de outros países”, considera. A receptividade, especialmente das crianças, é muito grande. O estranhamento inicial logo é substituído por um processo de identificação e admiração.

“O que eu passo para os estudantes é o que vejo como o verdadeiro Brasil, tentando unir o popular com a alta qualidade do erudito. A importância da cultura produzida pelo povo é atemporal”, considera. Brasília também inspira suas obras. O artista escolheu o Congresso Nacional e os azulejos de Athos Bulcão para representá-los em formato de xilogravura, ilustrando o sincretismo que o artista deseja refletir em seus trabalhos. Uma característica, aliás, que lhe rendeu o prêmio Culturas Populares 2017, do Ministério da Cultura, na categoria Mestres.

Sobre a técnica, não tem segredo. O que torna as impressões e matrizes tão singulares é o olhar de quem as produz. Como explica o professor de xilogravura do Departamento de Artes da Universidade de Brasília (UnB) Luiz Gallina Neto, a madeira é a principal ferramenta de criação, no entanto, é o desenho que conta a história. “A gravura brasileira é de peso e tem uma repercussão internacional muito grande por conta da tradição”, garante o especialista.

(foto: Ed Alves/CB/D.A Press) 

O artista plástico paulistano, que veio para Brasília em 1969, também trabalha com xilogravuras de paisagens brasilienses. Gallina mistura as imagens do cerrado com as características urbanas do DF para construir suas matrizes e impressões, retratando a beleza do modernismo da capital. Além do preto no branco, tradicional da xilogravura nordestina, o artista explora novas formas de imprimir gravura colorida.

Além das narrativas épicas dos cordelistas, o método também é utilizado para ilustrar manifestações de outros artistas. Marco Antônio Fabro, 74, encontrou no gravador holandês Maurits Cornelis Escher inspiração para começar a trabalhar com a xilogravura. Nascido em uma pequena cidade de Minas Gerais, foi apenas quando se mudou para a capital para estudar que o engenheiro químico conheceu como funcionava o processo e passou a se interessar mais pelo assunto.

Depois da aposentadoria, morando em Brasília, decidiu dedicar-se à arte. Ele procurou o Departamento de Artes da UnB para aprimorar as habilidades. “É um trabalho que eu admiro. Os grandes gravadores, responsáveis por tamanha notoriedade adquirida pela técnica, são oriundos da literatura de cordel”, relata.

O que Marco Antônio encontrou nas salas de aula foram orientações para desenvolver o método que exige produção de qualidade em todas as etapas. Primeiro o gravador elabora o desenho e utiliza utensílios (facas e goivas) para reproduzi-lo em uma superfície de madeira, que servirá como um carimbo. Depois, com auxílio de uma escova ou um rolo, espalha a tinta pela superfície em relevo do desenho e, por fim, usa uma prensa para revelar a imagem no papel.

Para que o resultado final seja satisfatório, é fundamental dominar com maestria todas as diferentes etapas do processo e levar em conta que o desenho impresso será o contrário do entalhado em madeira. 

Arte no varal

Em Portugal, era comum os poetas pendurarem suas obras em cordas para divulgá-las nas ruas e em feiras. Assim, no século 17, surgiu o nome “cordel”, termo que começou a ser usado no Brasil a partir da década de 1970. Tradicionalmente nordestina, com estrofes de seis versos e rimas, essa literatura exposta em corda tornou-se símbolo da cultura que conta a saga, as aventuras, as crenças e as descrenças do povo que nasce no Nordeste brasileiro. “Mais do que literatura, o cordel era um suporte para divulgar desde ficção até notícias”, explica Bruna Paiva de Lucena, professora da Secretaria de Educação e pesquisadora do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília (UnB).

Ela considera o cordel mais que uma forma literária, é uma estética. “Ele está presente na literatura, na xilogravura, na música”, explica a professora. Marca presença em diversas regiões do Brasil e nos mais diferentes meios artísticos de novelas globais a músicas de RAP, o cordel mantém sua influência.

Popular pelas histórias ritmadas, o cordel também era um meio de informação, sendo muitas vezes usado como jornal quando a tradição desembarcou por aqui. Hoje, é material didático em escolas. 

Edmilson Santinni, cordelista e escritor, conta que aprendeu a ler com o avô, que era contador de histórias de cordel em Pernambuco. “Ele não era escritor, mas decorava as histórias e compartilhava com os outros”, relembra Edmilson.

Foi quando se mudou para o Sudeste que Edmilson explorou mais esse tipo de literatura. “Comecei a fazer teatro e vi que tinha muitas ligações com o cordel”, explica. Atualmente, ele tem o projeto Teatro em Cordel, no Rio de Janeiro, onde encena narrativas de autoria própria, contando lendas, apresentando pessoas famosas, entre outros temas. “O cordel se completa com a oralidade”, considera.

Com as novas tecnologias, muitos acreditaram que essa literatura tão tradicional pudesse ser extinta. Para Edmilson, isso é difícil de acontecer. “A internet nos ajudou, por exemplo”, fala o cordelista. A rede é usada como forma de divulgar e conectar o trabalho dos escritores.

Com sede no Rio de Janeiro, a Academia Brasileira de Literatura de Cordel mantém viva a tradição nordestina. A instituição organiza as cordeltecas, que são bibliotecas especializadas em reunir esse tipo de literatura, além de trabalhar com órgãos públicos e escolas para tornar a cultura das rimas ainda mais acessível. Afinal, apesar de ser considerada Patrimônio Cultural Brasileiro, pelo Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional, em 2018, manter a literatura de cordel viva é uma tarefa complicada: “Faltam incentivos governamentais”, pondera Edmilson.

Mesmo sendo um meio tradicionalmente masculino — tanto pelos temas como pela autoria —, muitas mulheres têm publicado cordéis e mudado as temáticas das histórias. Lilia Diniz, cordelista e escritora natural do Maranhão, é uma delas. A nordestina, que escolheu Brasília para viver, reconta lendas e tradições folclóricas com novas perspectivas das personagens femininas.

Lilia propõe uma nova leitura do que já é conhecido. Uma diferente maneira de falar do que já se cansou de ouvir. Uma delas, por exemplo, é a lenda que relata a maldição que recairia sobre qualquer moça que namorasse um padre. Como penitência, ela seria transformada em monstro: uma mula sem cabeça. Mas, recentemente, a artista recontou o pecado dessa união com a proposta de um novo olhar: “A culpada da história é a mulher, mas cadê a responsabilidade do padre?”, questiona Lilia.

Assim como Edmilson, ela aprendeu a ler com o cordel, mas só foi escrever tempos depois. Lilia começou a experimentar com rimas no teatro de rua. A cordelista publicou sua primeira obra em 2012, e, desde então, tem feito vários trabalhos, que expõe Brasil afora, além de participar de projetos culturais com grupos de outros artistas.

Instituto Orgulho de Ser Nordestino

Em Brasília, o jornalista Affonso Gomes coordena o Instituto Orgulho de Ser Nordestino. A organização visa promover a cultura nordestina na capital. Funcionando há mais de 15 anos, o instituto proporciona aos artistas do Nordeste um ambiente propício a exporem suas obras na capital federal. Um dos eventos, o Mix Cultural, que acontece a cada dois meses, tem como alvo atrair pessoas de todas as idades para curtir forró da serra, cantoria com viola, repente e teatro. “Queremos atrair o público jovem também, que está mais distante da cultura tradicional”, explica Affonso. Desde as primeiras atividades do Instituto, ele percebeu um aumento na quantidade de artistas nordestinos que se apresentam em Brasília.

Para saber mais:
Pelo site: orgulhodesernordestino.org
Pelo WhastApp: 61 99999 6662

(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

Estilo nordestino

“Foi na época em que eu estava produzindo meu trabalho de conclusão de curso que me senti mais em contato com as minhas raízes”, conta a brasiliense Louise Caetano, 24. O trabalho precisava contar uma história que representasse a designer e ela optou por ilustrar a importância da literatura de cordel para a cultura nordestina.

Louise aprofundou os estudos sobre algo que era muito presente em sua vida. Neta de nordestinos, passou boa parte das férias no Piauí e no Rio Grande do Norte com a família. A coleção “Cajuína” foi criada para transmitir, por meio das peças de moda-praia, toda a riqueza cultural da região de onde vieram seus ancestrais.

A opção por seguir o modelo de slow fashion (movimento de atemporalidade que não segue os padrões de produção em massa da indústria) — poucas peças, todas produzidas manualmente — foi mantida, porém, a ideia de utilizar a técnica da xilogravura para estampar os tecidos precisou ser alterada.

Por conta das particularidades do tipo de tecido utilizado, a estampa foi impressa e desenhada no computador. No entanto, Louise procurou reproduzir ao máximo as particularidades da arte, inclusive os rastros que a madeira costuma deixar. A obra do artista J Borges, o famoso cordelista pernambucano, foi a principal inspiração de Louise. “A coleção mudou muito a minha visão do que quero trabalhar e da imagem que quero transmitir”, relata.

(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press) 

De repente, a rima

A poesia nordestina também vive em forma de música. O repente — habilidade de manter as rimas e a criatividade sob os termos do improviso, tem espaço em festivais de Brasília e encanta apreciadores da cultura popular brasileira. Normalmente em duplas, os cantadores obedecem às orientações das mais de 30 modalidades, com estruturas pré-definidas no que tange às métricas e às melodias.

A Lei nº 12.198, de 2010, é responsável por regulamentar a profissão de repentista como profissão artística. Segundo a Casa do Cantador, cerca de 30 artistas exercem a função no Distrito Federal, alguns vindos do Nordeste e outros que nasceram na capital federal e apreciam o modo de contar histórias com melodias.

Um dos cantadores que mora em Brasília, Valdenor de Almeida, 54, começou a rimar ainda criança, brincando com os colegas e vizinhos em Pombal, na Paraíba. Segundo o repentista, na época e na cidade em que cresceu, a prática tinha muito destaque, especialmente nos programas de rádio. Tempos em que os cantadores eram ídolos. A brincadeira evoluiu depois que o paraibano aprendeu a tocar viola, instrumento quase inseparável. “Não podemos deixar de lado as nossas raízes. A cultura regional representa a nossa identidade e faço por manifestação pessoal, porque acredito que isso me faz ser alguém”, defende.

Ao se mudar para Brasília, 29 anos atrás, Valdenor encontrou colegas cantadores que o ajudam a manter essa parte da história dele sempre viva. O professor da Secretaria do Distrito Federal foi coordenador da Casa do Cantador, de Ceilândia entre 1995 e 1998. O local, criado em 1986, é palco de diversas manifestações artísticas e recebe visitantes de diferentes estados do país para suas atividades. Ali, também estão reunidas obras literárias, incluindo as de cordel.

Durante os festivais (ainda sem data para 2019) em que há competição entre os cantadores, os requisitos são claros — a criatividade e o respeito à modalidade são primordiais. As sílabas poéticas devem ser criadas ali mesmo, no improviso. A língua portuguesa também é um valor importante. “Algumas licenças poéticas são aceitáveis, mas devemos seguir as normas de português”, conta Valdenor de Almeida. 

*Estagiárias sob a supervisão de Flávia Duarte

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