NOVO POPULISMO. BREVE HISTÓRIA DE UMA MIXÓRDIA IDEOLÓGICA


Dos Estados Unidos de Donald Trump à Itália de Salvini, do Brasil de Jair Bolsonaro, o novo protagonista no mundo das ideologias políticas é o populismo. As ideias sobre as quais ele se assenta, no entanto, estão longe de ser novas: seu espectro ronda pelos meandros da história há séculos.

Por: Equipe Oásis

Tomemos três exemplos de lideranças políticas que mais recentemente ascenderam ao poder em seus países: o presidente americano Donald Trump (o da política da “America First”), o líder do Partido Trabalhista inglês Jeremy Corbyn (cuja última campanha eleitoral teve mais de 90 comícios que pareciam mega shows de rock and roll), o presidente filipino Rodrigo Duterte (o da quase oficialização em seu país de esquadrões da morte treinados para a execução sumária de bandidos e traficantes). Apesar de seus diferentes estilos de liderança e ideologias, os três foram descritos por analistas políticos como populistas. Só isso já bastaria para percebermos o tamanho da barafunda ideológica e conceitual, destituída de qualquer laivo filosófico real, que caracteriza o populismo dos nossos tempos.


Esse movimento sem cara nem coroa, no entanto, é considerado em ascensão nos últimos anos – especialmente na direita europeia e nos Estados Unidos, onde ajudou a eleger Trump. Na Itália, os partidos populistas Movimento Cinco Estrelas e a Liga anti-imigrantes se destacaram na última eleição, em 2018, – o resultado mais recente deste tipo no continente europeu. No Brasil, tanto ex-presidentes de esquerda, como Luiz Inácio Lula da Silva, quanto o atual presidente Jair Bolsonaro, já foram chamados de populistas. No caso de Lula, evidenciando uma flagrante confusão entre popularidade e populismo, já que o ex-presidente é e sempre foi um político popular cuja atuação nunca apresentou os traços fascistoides que são uma das características do populismo.

Diferença abissal entre ser popular e ser populista

Para melhor entendermos isso, convém primeiro saber o que é populismo. A resposta muda segundo se remeta a pergunta a um historiador ou a um politólogo, ou aos próprios políticos. Estes últimos, dependendo do quanto se sintam gratificados ou insultados aos serem chamados de “populistas”, colhem, aqui e ali, as respostas que lhes são mais cômodas e convenientes.

Para os historiadores, o populismo propriamente dito é aquele que nasceu na Rússia na segunda metade do século 19. O narodnicestvo (de narod, “povo” em russo) era um movimento de jovens estudantes e intelectuais (os narodniki, “populistas”) que queriam “marchar em direção ao povo”. Para tanto, abriam escolas nas aldeias de uma Rússia ainda feudal, buscando difundir entre os camponeses a ideia de que eram sempre explorados e espoliados pelos governantes e pelos fazendeiros proprietários das terras. Esses populistas russo faziam do povo uma ideia romântica e viam os camponeses como uma grande força revolucionária que precisava apenas ser despertada para derrubar o regime tzarista.

Estavam enganados, porque a revolução foi feita afinal pelos operários das fábricas. Mas alguns desses populistas à la russa, pretendendo dar uma mãozinha à história, passaram da teoria à prática e, em 1881, organizaram o assassinato do tzar Alexandre II e de toda a sua família.

Para os politólogos, diferentemente, o populismo é uma categoria de confins vagos e fugidios, que muda segundo as épocas e os contextos, e a respeito do valor dos seus valores de base nem todos concordam. A Enciclopédia do Pensamento Político, da Editora Laterza (Itália), assim define o populismo: “Postura política favorável ao povo, identificada com as camadas socioeconômicas mais humildes”. O populismo, nessa ótica, considera o povo como depositário de todas as virtudes políticas e sociais. Seus líderes costumam adular o povo e afirmam querer “defendê-lo das manobras maquiavélicas das camadas sociais dominantes. Fazem isso lançando propostas políticas aptas a gratificar os desejos de ascensão do povo, contrapondo-o às elites. Vem disso a desconfiança dos populistas em relação aos técnicos e especialistas formados, acusando-os de estarem a serviço das elites e dos famigerados “poderes fortes”.


Capa da revista cubana Carteles, de 1933

Os populismos não são todos iguais

Quando se estuda a história da política, saber estabelecer as diferenças constitui uma verdadeira chave-mestra. O termo populismo, exatamente por ser vago, assumiu desde o século 19 nuances das cores mais diversas. Os historiadores do pensamento político desde então tentam catalogar essas diferentes tipologias.

O populismo moderno surgiu no final do século 19, quando se difundiu no mundo ocidental o termo antipolítica: primeiro, no sentido de “contrário à política”, depois no de aversão à “tecnocracia”, em todos os setores. Mas a verdade é que muitíssimos líderes, em todas as épocas e de todas as orientações ideológicas, foram inspirados pelo consenso popular baseado na hostilidade em relação as elites. O populismo, neste sentido, é transversal.

1) O nacionalpopulismo é um mix de nacionalismo e militarismo que engloba toda a gama dos movimentos que os europeus chamam de “negros”, dos fascismos ao nazismo. Inclui (embora nem todos estejam de acordo) também o peronismo do argentino Juan Domingo Perón (1895-1974), que no mundo dividido da Guerra fria não queria ser nem capitalista nem comunista, mas acabou por se tornar apenas conservador e autoritário.

2) O populismo revolucionário, que tende ao “vermelho”, mas é também autoritário e nacionalista. Os seus antepassados são os jacobinos de Robespierre, conhecido como o “advogado do povo” que, na França revolucionária, inventou o Terror e os famigerados “tribunais do povo” onde eram processados sumariamente, condenados e guilhotinados os “inimigos do povo”. Nos últimos cem anos, a cara do populismo revolucionário totalitário foi o estalinismo russo e, para os seus inimigos e detratores, o castrismo cubano e o chavismo venezuelano referente ao presidente Hugo Chavez (1954-2013).

3) Por fim, a terceira grande vertente é o populismo democrático, que teve início no final do século 19 com o efêmero People’s Party norte-americano, pluralista no interior, mas nacionalista e isolacionista em matéria de política externa. O People’s Party fincava suas bases entre os agricultores da América profunda, enquanto os seus inimigos e opositores o faziam no capitalismo industrial e financeiro e nas elites progressistas. Quando, hoje, nos Estados Unidos e no mundo todo, politólogos definem como “populista” o atual presidente Donald Trump e seu moto “America First”, eles estão pensando naquele remoto “partido do povo”, surgido há mais de cem anos.



Os populistas são antidemocráticos? 

Se o populismo se baseia sobre a vontade do povo, por que hoje tantos se preocupam com o seu atual avanço? No fundo, a democracia não é um “governo do povo”?

Isso acontece porque o populismo, como está bem demonstrado pela história, é plebiscitário.

A democracia moderna, aquela da Constituição da grande maioria dos países modernos, sobretudo no Ocidente, é representativa: prevê que o povo exerça a sua soberania, mas através de representantes eleitos em parlamento para promulgar as leis. Trata-se da velha “democracia liberal”, nascida para tutelar também as oposições. No entanto, se existe alguma coisa em comum entre todos os populismos desde a sua origem, é exatamente a alergia à democracia liberal, considerada uma típica expressão da elite.

O populismo, com efeito, tende para a “ditadura da maioria”: o seu ideal é a democracia direta, que exprime a vontade popular sem intermediações. Mais ou menos como acontecia na Grécia Antiga, dizem os populistas de hoje, com a diferença de que, no lugar da Assembleia grega, existem a rede eletrônica e os referendos propositivos.

Mas… as coisas funcionavam mesmo dessa forma na Grécia Antiga? Não exatamente. A assembleia grega que se reunia na agorá (praça pública) nos tempos de Péricles (século 5 antes de Cristo) não representava todos os atenienses, mas apenas os cidadãos livres (a maioria da população era escrava ou estrangeira) e do sexo masculino: cerca de 40 mil para uma população total de cerca 300 mil em toda a Ática (o território cuja capital era Atenas). E apenas 6 mil daqueles 40 mil, quase todos aristocratas, participavam das assembleias. Portanto, uma parcela muito restrita de “povo”.

Segundo alguns historiadores, no entanto, a verdade é que Péricles encarnava o modelo perfeito do demagogo, o líder-tipo dos populistas modernos: o “condutor” (agogos em grego antigo) do povo (demos). O filósofo Aristóteles tinham horror aos demagogos, considerando-os a causa de todos os males exatamente porque impõem a hegemonia das camadas populares (populismo) em detrimento dos demais componentes minoritários da sociedade. Desde a antiguidade, portanto, a lista dos demagogos que escalaram a montanha do poder usando o descontentamento em relação às elites – em geral tornando-se, eles próprios demagogos, uma elite) – é muito longa.

A propaganda como arma de poder

Para obter e conservar o poder, a política desde sempre usa os instrumentos da propaganda. Péricles fez largo uso do dinheiro público para comprar consensos, para embelezar Atenas e financiar mega espetáculos teatrais que exaltavam os valores atenienses. Graças à sua propaganda traduzida em enormes obras feitas de mármore é que tivemos o Parthenon, cujas ruínas ainda hoje podem ser admiradas. César e Napoleão também foram mestres na criação de consenso popular ao redor de suas figuras, da mesma forma que os vários totalitarismos dos séculos 19 e 20, e até os dias de hoje, fizeram e fazem uso da propaganda como uma máquina de consenso baseada na censura e no controle da informação.

Um dos pontos pacíficos do populismo é, por sinal, a ideia de que são as elites que controlam a informação para manter o povo na ignorância e, assim sendo, dominá-lo melhor.

É exatamente sobre essa ideia que se baseia as obsessivas referência de Donald Trump às fake news. O populista do século 21, de resto, não usa os instrumentos da informação baseada na verificação dos fatos e dos dados informados, e no confronto da mesma notícia com outras fontes, mas sim os meios da pós-informação: notícias totalmente falsas ou apenas verossímeis, não verificadas, até mesmo quando poderiam sê-lo facilmente. São as falsas notícias que confirmam e alimentam preconceitos, reforçam os medos e criam nas mentes mais desavisadas uma visão distorcida da realidade.

Segundo importante estudo publicado em 2016 pela revista científica Nature, assinado por Adam Kucharski, epidemiologista da London School of Hygiene & Tropical Medicine, as fake news se propagam na web seguindo esquemas comparáveis aos das epidemias. Da mesma forma como uma doença pode evoluir e se modificar no seio de uma população, a pseudonotícia (imagem, vídeo ou texto) é reforçada ou enfraquecida segundo o contexto através do qual ela circula. Este é o mundo paralelo da pós-verdade: um mundo onde fazer com que a mensagem chegue ao justo destinatário é mais importante que fazer chegar ao destinatário uma mensagem justa. Um mundo feito sob medida para o populismo, no qual afirmar conta mais que demonstrar e provar.

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