Com pandemia, rendimento médio mensal do brasileiro cai 3,4% e chega ao menor valor desde 2012, diz IBGE

Valor médio da maioria dos tipos de rendimento teve queda em 2020 na comparação com 2019. Desemprego fez aumentar a proporção de pessoas que dependem de outras fontes de renda no país e diminuiu o peso da renda do trabalho no orçamento familiar

Por Daniel Silveira, g1 — Rio de Janeiro

Os efeitos provocados pela pandemia da Covid-19 na economia brasileira levaram à uma queda generalizada da renda no país. Dados divulgados nesta sexta-feira (19) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o rendimento médio mensal do brasileiro teve queda recorde em 2020 e atingiu o menor valor desde 2012.

De acordo com o levantamento, o rendimento mensal médio real de todas as fontes no país passou de R$ 2.292 em 2019 para R$ 2.213 - valor mais baixo desde 2013, quando era estimado em R$ 2.250 (já descontada a inflação do período). Este recuo corresponde a uma queda de 3,4%, a mais intensa da série histórica da pesquisa iniciada em 2012.

Rendimento médio mensal real recebido de todas as fontes registrou queda recorde na passagem de 2019 para 2020 — Foto: Economia/g1

A queda foi generalizada entre a maioria das fontes que compõem a renda do brasileiro. O recuo mais intenso foi observado entre as chamadas “outras fontes”, que incluem aposentadoria, pensão e aluguéis.

As exceções foram observadas entre o rendimento habitualmente recebido do trabalho, devido a um efeito estatístico, e entre os chamados “outros rendimentos”, que registraram salto recorde devido ao auxílio emergencial, criado pelo governo para socorrer a população mais vulnerável diante da crise sanitária.

Desemprego recorde e auxílio emergencial impactaram diretamente nas fontes de renda do brasileiro em 2020 — Foto: Economia/g1

De acordo com o IBGE, o rendimento médio mensal real habitualmente recebido de todos aumentou na comparação com 2019 em razão da saída de 8,1 milhões de pessoas do mercado de trabalho – a maioria delas recebia rendimentos mais baixos, contribuindo com a elevação dessa média. Tanto que o rendimento efetivamente recebido de todos os trabalhos teve queda no período.

Diferenças regionais

A queda no rendimento médio mensal real de todas as fontes ocorreu na maioria das regiões do país. No Sudeste (-4,7%) e no Sul (-4,3%) o recuo foi mais intenso que a média nacional. No Centro-Oeste (-3,3%) ela foi equivalente à do país. A região Norte, por sua vez, registrou estabilidade do indicador, enquanto no Nordeste ele apresentou aumento de 1%.

O rendimento médio proveniente de outras fontes, por sua vez, caiu em todas as grandes regiões, tendo sido mais intensa que a média nacional no Centro-Oeste (-21%) e no Sudeste (-19,6%). No Sul (13,2%), Norte (-8,7%) e Nordeste (-5,4%) o recuo foi menos intenso.

Já o rendimento médio habitual do trabalho também apresentou aumento regionalmente. No Norte (4,5%) e Nordeste (7,6%) ele foi acima da média nacional, enquanto Sudeste (2,8%) e Centro-Oeste (3,2%) registraram expansão levemente menor que a geral do país. No Sul (0,3%), porém, ficou praticamente estável.

O impacto do auxílio emergencial, por sua vez, impactou de maneira distinta a média dos outros rendimentos entre as regiões do país. Norte e Nordeste tiveram ganhos expressivos, de 47,8% e 55,0%, respectivamente, enquanto no Centro-Oeste o aumento foi de apenas 0,6%. Já nas Regiões Sudeste e Sul esse tipo de rendimento teve queda respectiva de 16,5% e 5,0%.

Desemprego recorde reduz peso da renda do trabalho

O desemprego recorde provocado pela pandemia fez com que, em 2020, o país registrasse a menor proporção de pessoas com renda proveniente do trabalho. O contingente de brasileiros que tiveram rendimento efetivo do trabalho correspondeu a 38,7% da população.


Antes, menor proporção de pessoas nesta condição havia sido registrada em 2017, quando ficou em 42%. O recorde havia sido registrado em 2014, quando correspondeu a 43,7% da população residente no país.

Em contrapartida, a proporção de pessoas com renda proveniente de outras fontes e de outros rendimentos bateu recorde. O aumento mais expressivo ocorreu na proporção de pessoas com outros rendimentos que saltou de 7,8% em 2019 para 14,3% em 2020. Esse aumento ocorreu devido a abrangência do auxílio emergencial no país.

"A tendência de aumento do peso do rendimento de outras fontes e redução da parcela correspondente ao rendimento do trabalho, observada entre 2019 e 2020, ocorreu em todas as Grandes Regiões", destacou o IBGE.

Regionalmente, a Região Sul permanecia com o maior percentual de pessoas com rendimento habitualmente recebido de todos os trabalhos (46,0%). A Região Nordeste, por outro lado, registrava o menor percentual de pessoas com rendimento recebido de todos os trabalhos (32,3%) em 2020 e o maior percentual daquelas que recebiam de outras fontes (32,8%).

Da mesma forma, o desemprego provocou uma mudança na composição do rendimento domiciliar per capita no país. O rendimento proveniente do trabalho perdeu peso no orçamento das famílias brasileiras.

Desemprego diante da pandemia faz o rendimento do trabalho perder peso na composição da renda domiciliar per capita do país — Foto: Economia/g1

Em 2020, o rendimento de todos os trabalhos compunha 72,8% do rendimento médio mensal real domiciliar per capita, menor proporção da série histórica da pesquisa. Em contrapartida, as proporções provenientes de outras fontes (27,2%) e de outros rendimentos (7,2%) alcançaram o maior patamar da série.

“Houve uma combinação de fatores. O mercado de trabalho sofreu bastante com a pandemia. Por causa do distanciamento social, alguns setores que dependiam de movimentação de pessoas, como o setor de serviços, foram ainda mais afetados. O trabalho em si perdeu espaço. Isso explica a perda da participação do rendimento de todos os trabalhos", apontou a analista do IBGE, Alessandra Scalioni.

Também devido ao impacto do auxílio emergencial, o peso dos outros rendimentos na renda domiciliar mais que dobrou na comparação com 2019, quando era de 4,4%.

"De 2019 para 2020, o auxílio emergencial e o desemprego mudaram o perfil do rendimento domiciliar. A proporção de domicílios com pessoas recebendo outros programas sociais saltou de 0,7% para 23,7%, aumentando em todas as regiões, sobretudo no Norte (0,5% para 32,2%) e Nordeste (0,8% para 34,0%)", destacou o IBGE.

Em termos de contingente, o número de pessoas com outros rendimentos (que inclui o Auxílio Emergencial) quase dobrou de 2019 para 2020, passando de 16,4 milhões para 30,2 milhões.

"Pela primeira vez na série, esse grupo superou o das pessoas que recebiam aposentadoria e pensão (26,2 milhões ou 12,4%), se tornando a principal categoria na composição dos rendimentos de outras fontes", destacou o IBGE.

Em seguida, vinham aluguel e arrendamento (1,3%) e pensão alimentícia, doação ou mesada de não morador (1,7%).

No Norte (17,5%), Nordeste (19,7%) e Centro-Oeste (12,1%), o percentual dos que recebiam outros rendimentos superou o dos que recebiam de outras fontes que não o trabalho.

A analista da pesquisa, Alessandra Scalioni, ressalvou, no entanto, que "o rendimento do trabalho continua sendo a principal fonte de renda dos domicílios” no país.

Regionalmente, porém, o Nordeste foi a primeira grande região do país, em toda a série da pesquisa, a registrar um percentual de pessoas com rendimento de trabalho (32,3%) inferior ao das pessoas que recebiam rendimento de outras fontes (32,8%).

O instituto enfatizou que, por outro lado, caiu a proporção de domicílios que recebiam o Bolsa Família (de 14,3% para 7,2%), "pois parte dos beneficiários passou a receber o Auxílio Emergencial". Já a proporção de domicílios que recebiam BPC-LOAS passou de 3,5% para 3,1% no período.

Além disso, o IBGE destacou, também, que pela primeira vez, desde 2012, o grupo dos outros rendimentos superou o das pessoas que recebiam aposentadoria e pensão (12,4%).

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