Para equipe econômica, troca de farpas entre Maia e Bolsonaro é 'apocalipse'

Técnicos teriam ficado estarrecidos com a briga. Liderança do PSL diz que 'está faltando suco de maracujá' aos dois

Gabriela Valente e Natália Portinari
O Globo

Bolsonaro, Maia e o ministro da Economia, Paulo Guedes 
Foto: CAROLINA ANTUNES / AFP

BRASÍLIA - A elevação do tom na discussão entre o presidente da Câmara dos Deputados e o presidente Jair Bolsonaro foi descrita dentro da equipe econômica como "o Apocalipse". De acordo com fontes ouvidas pelo GLOBO, os técnicos ficaram estarrecidos com a briga, que já teve impacto na reforma da previdência. Internamente, o ministro da Economia, Paulo Guedes, tenta atuar para tentar reconstruir a relação entre os dois para não prejudicar ainda mais o projeto fundamental para a economia do país. No entanto, seu poder de conciliação pode ser limitado.

Guedes tem um bom relacionamento com Maia. E é considerado uma peça central do governo onde está todo o apoio tanto do mercado financeiro quanto do setor produtivo. Enquanto isso, dois secretários do ministro se manifestaram neste sábado por meio do Twitter. Nenhum deles defendeu Maia na questão e até colocaram combustível na briga.

O secretário da Previdência, Rogério Marinho, afirmou que a reforma não pode ser apenas um projeto do governo federal. E disse que a classe política deve cuidar do assunto.

“A nova previdência não é pauta apenas do Governo é pauta do País e como tal precisa ser encarada. O parlamento brasileiro mais uma vez fará sua parte para retomarmos o crescimento e devolvermos o Brasil para os seus legítimos donos o povo”, escreveu o secretário em seu perfil.

Já o secretário da Receita Federal, Marcos Cintra, chegou a criticar diretamente o presidente da Câmara. Retrucou a fala de Maia sobre o governo ser um “deserto de ideias”. No entanto, ele não percebeu que o próprio deputado tinha feito a ressalva que a equipe de Guedes é exceção.

"O deputado Rodrigo Maia afirma que o governo é um 'deserto de ideias'. Não aceito esta imputação. O Ministério da Economia sob Paulo Guedes tem sido um turbilhão renovador no país. Que me desculpe o amigo Rodrigo Maia, mas ficar calado significa aceitar esta injusta afirmação", afirmou Cintra.

Em seguida, o economista Pedro Nery, que ajudou a equipe de Guedes na formulação da reforma da previdência, rebateu e disse que Maia afirmou que há uma “ilha de governo com o Paulo Guedes”.

Antes dessa crítica, Cintra defendeu a reforma. Disse que a “brutal” queda na Bolsa de quase 6% na sexta-feira mostra que a economia e o povo não suportarão o fracasso nas reformas estruturais como a previdenciária e tributária. 

“Os políticos patriotas devem se unir, superar brigas pessoais e trabalhar pelo Brasil. O povo não vai tolerar fracassos”, declarou o secretário.

'Falta suco de maracujá', diz líder do PSL

O líder do PSL na Câmara dos Deputados, Delegado Waldir (GO), diz que vai recomendar à assessoria de Rodrigo Maia (DEM-RJ) e Jair Bolsonaro uma dose de suco de maracujá e camomila para apaziguar os ânimos após o embate nos últimos dias.

- Está faltando suco de maracujá, camomila. São chefes de dois poderes travando essa guerra de farpas, e isso não é bom para o país. Não fica bem. A melhor ferramenta é o diálogo, o Brasil não precisa de extremismo, nem do presidente nem de Rodrigo Maia (presidente da Câmara) - diz Waldir.

Após se afastar da articulação pela reforma da Previdência na última semana, Rodrigo Maia (DEM-RJ) disse ao GLOBO que cabe ao presidente Jair Bolsonaro a tarefa de construir a base governista. O presidente da Câmara promete comandar a votação, mas reclama dos ataques que vem sofrendo nas redes sociais partindo de aliados de Bolsonaro.

Segundo Waldir, o governo "não tem base" no Congresso e conta apenas com os 54 deputados do partido para apoiar suas propostas, o que deveria ser corrigido pelos responsáveis no governo pela interlocução política. Hoje, são o general Santos Cruz (Secretaria de Governo) e Onyx Lorenzoni (Casa Civil), que Waldir não cita nominalmente.

- Cada pessoa tem uma missão. No governo, tem pessoas com o papel de fazer o diálogo com o Parlamento. Elas estão desempenhando bem essa função? É o líder do PSL que tem que ficar colocando panos quentes? Essa construção tem que ser feita pelas pessoas que o presidente da República destinou para fazer isso, não é papel pessoal dele.

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