'Guardiões da verdade', jornalistas são eleitos 'Pessoa do ano' pela Time

Revista chama atenção para trabalho de resistência de vários profissionais em meio a ataques à liberdade de imprensa e de expressão em todo mundo

Cristina Charão, do R7

Revista escolhe jornalistas como Pessoa do Ano
Reprodução / Time Magazine

Em um ano marcado pelos termos "pós-verdade" e "fake news", a revista Time escolhe como "Pessoa do Ano" um grupo de jornalistas que se destacaram em 2018 como guardiões da verdade. Entre eles, está o jornalista saudita Jamal Khashoggi, colunista do jornal The Washington Post assassinado dentro do Consulado da Arábia Saudita em Istambul, na Turquia.

A atuação de Khashoggi — um crítico ao regime saudita que fugiu para os EUA com medo da perseguição sofrida em seu país natal — abre a longa matéria em que a revista norte-americana justifica a concessão do título de pessoa do ano aos jornalistas, coletivamente. "A questão central na morte do jornalista saudita", diz a revista, "é: em quem você confia para lhe contar uma história?".

Segundo a Time, "não faltam exemplos" em 2018 de jornalistas perseguidos ou cerceados em "um mundo em que autoritários em ascensão avançaram obscurecendo a diferença [entre a verdade e a mentira]".

Com o prêmio, a revista não apenas registra o papel desempenhado pelos jornalistas homenageados, mas ressalta a importância do trabalho independente destes profissionais em meio ao que considera diversos ataques à livre atuação da imprensa e à própria ideia do que é e onde é possível buscar a verdade.

Repressão governamental

A revista destaca a perseguição direta de governos contra jornalistas ou seus veículos. É o caso da filipina Maria Ressa, que criou o site Rappler para relatar os abusos da guerra às drogas do presidente Rodrigo Duterte. O veículo nunca foi reconhecido como jornalístico pelo governo e recebeu acusações de fraude fiscal, que podem levar Ressa à prisão por 10 anos.

Também o trabalho de dois repórteres da agência Reuters, Kyaw Soe Oo e Wa Lone, presos em Mianmar por registraram a execução de dez homens da minoria muçulmana rohingya, é apontada como outro ponto alto desta resistência a governos que usam seus aparatos de repressão para cercear o trabalho jornalístico.

De acordo com o Comitê de Proteção aos Jornalistas, 2017 registrou um recorde de jornalistas presos: 252 ao redor do mundo. Para a ONG Artigo 19, em 2018, o índice de liberdade de expressão no mundo caiu ao menor nível em 10 anos.

Líderes contra a imprensa

Mas não é apenas a repressão institucionalizada ou a violência física que ameaçam a liberdade de expressão e tornam o trabalho dos jornalistas um ato de resistência.

A Time destaca que a atuação de líderes mundiais questionando diretamente o trabalho da imprensa e atuando dentro das redes sociais para colocar em dúvida fontes de informação colabora para que a população não saiba mais onde está a verdade.

Um dos casos emblemáticos do ano de 2018 foi o tiroteio no jornal Capital Gazette, em Annapolis, no estado de Maryland (EUA). Cinco jornalistas morreram depois de um homem entrar atirando na redação. Ele havia perdido um processo contra a publicação.

A tragédia está intimamente ligada ao clima geral de desconfiança contra a imprensa que se espalha nos EUA desde que o presidente Donald Trump assumiu a Casa Branca. 

Em fevereiro de 2017, um mês depois de assumir, Trump escreveu em publicação no Twitter que "A mídia de fake news (os fracassados @nytimes, @NBCNews, @ABC, @CBS, @CNN) não é minha inimiga, é a inimiga do povo norte-americano". Este ano, ele baniu da Casa Branca o correspondente-chefe da CNN, Jim Acosta.

Este discurso, diz a revista, se espalha pelo mundo entre líderes populistas e nacionalistas, como Viktor Orbán, na Hungria, e Jair Bolsonaro, recém eleito no Brasil. Nos dois países, a perseguição pública a jornalistas é evidente. É o caso da jornalista da Folha de S. Paulo, Patrícia Campos Melo, que chegou a receber ameaças de morte após publicar denúncias de irregularidades na campanha de Bolsonaro.

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