Venezuela: quando a força atropela o direito, ninguém vence

AFP

Muito se tem dito que Donald Trump “acertou” ao atacar a Venezuela e capturar Nicolás Maduro. Mas essa análise superficial ignora algo fundamental: o mundo não pode ser governado pela força bruta.

O direito internacional não existe para proteger os fracos apenas quando convém. Ele existe, sobretudo, para conter os mais fortes. Se cada potência militar decidir, sozinha, quem deve governar outro país, estaremos rasgando décadas de acordos que evitaram guerras em escala global. Hoje o discurso é “derrubar um ditador”. Amanhã será “defender interesses estratégicos”. Depois de amanhã, qualquer justificativa servirá.

E, neste caso, os interesses já foram assumidos publicamente. O próprio Trump deixou claro que o foco está no petróleo venezuelano, uma das maiores reservas do mundo, e ainda não descarta novos ataques. Isso não é cruzada pela democracia. É exercício de poder, controle geopolítico e imposição.

É preciso dizer sem rodeios: bombas não libertam povos. Ataques militares não escolhem alvos apenas políticos; eles atingem hospitais, infraestrutura, famílias inteiras. O resultado não é liberdade, mas mais sofrimento, mais instabilidade e mais medo.

Nada disso significa passar pano para Nicolás Maduro. Seu governo é amplamente criticado, acusado de autoritarismo, de violações de direitos humanos e de destruir as bases democráticas do país. Criticar Maduro é legítimo. O que não é legítimo é aplaudir uma agressão militar estrangeira como se ela fosse solução mágica para problemas complexos.

Aplaudir esse tipo de ação é, na prática, aceitar que a soberania da América Latina vale menos. É admitir que nossos países podem ser tratados como quintais estratégicos, onde a lei internacional é opcional e a força fala mais alto.

Quando se relativiza a legalidade internacional porque “o alvo é ruim”, abre-se um precedente perigoso. O mundo já conhece esse roteiro — e ele nunca termina bem.

Defender democracia não é escolher o míssil certo.
Defender democracia é respeitar regras, instituições e povos.

No fim das contas, quando a força atropela o direito, ninguém vence — sobretudo quem está no meio do fogo cruzado: o povo venezuelano.

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