Valdemar fará bem à nação se liberar 'intensa troca de mensagens' com Jair

Por Leonardo Sakamoto*


"Após intensa troca de mensagens na madrugada deste domingo, 14, com o presidente Jair Bolsonaro, decidimos, de comum acordo, pelo adiamento da anunciada cerimônia de filiação."

Foi assim que o presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, informou aos deputados federais de seu partido que a chegada de Bolsonaro, marcada para o próximo dia 22, subiu no telhado.

Por que outra razão o chefe de um partido do centrão, raposa velha, afirma, em uma nota que se tornaria pública, que realizou uma "intensa troca de mensagens" com o presidente da República senão para lembrar ao próprio que o print do zap é eterno?

Bolsonaro, fissurado no uso de metáforas de matrimônio, afirmou que tem conversado com Valdemar e que ambos estão de comum acordo para atrasar um pouco a cerimônia "para que ele não comece sendo muito igual aos outros" casamentos.

Uma das questões, neste momento, é o acordo pré-nupcial. O noivo, Jair, não aceita que a noiva, o PL, mantenha antigos "amigos". Quer decidir ele próprio com quem ela pode e não pode se relacionar nas eleições. Tóxico.

Um dos entraves, por exemplo, seria a questão dos apoios aos governos estaduais, como São Paulo. "A gente não vai aceitar em São Paulo o PL apoiar alguém do PSDB", disse em Dubai, onde faz turismo com cara de agenda oficial.

Diante do imbróglio, faria um bem ao que restou da democracia brasileira se o presidente do PL, se constatar que o casamento com Jair foi para o vinagre, liberar a "intensa troca de mensagens".

Isso é praticamente impossível, claro. Até porque o PL mantém valiosos negócios com Bolsonaro no Congresso Nacional, da mesma forma que manteve valiosos negócios com administrações passadas. Por conta de um deles, inclusive, as denúncias de mensalão na época do primeiro governo Lula, ele foi condenado e preso por lavagem de dinheiro e corrupção passiva. Segue vivo e mandando porque se adapta, articula, pressiona, dá recados, nem todos publicáveis. Ele, como o centrão, estarão sempre no poder.

Mas tenho a impressão de que o Vaza Valdemar seria um sucesso na linha da Vaza Jato, com o público tendo acesso ao farto material pornográfico produzido pelo refrega político entre ambos na madrugada deste domingo, antes mesmo do casamento.

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), Escravidão Contemporânea (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

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