Vacina é fator necessário, mas não suficiente para garantir a retomada

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Meio assim de repente, os departamentos de pesquisa econômica de bancos e corretoras, assim como as consultorias financeiras, passaram a produzir relatórios e mais relatórios sobre os efeitos do ritmo de vacinação contra covid-19 no comportamento da atividade econômica. Transportaram para a modelagem da correlação entre abrangência da imunização da população e crescimento da economia a experiência com a análise de dados para projeção de indicadores econômicos.

Até o Banco Central fez simulações prevendo imunização suficiente no fim do primeiro semestre. Os resultados, na média, estão apontando flexibilização com menor incidência de abre-fecha, e maior abertura dos negócios já a partir de junho, com normalização das atividades a partir de outubro. Com isso, os analistas pretendem sustentar a previsão de recuperação da atividade, em 2021, mais forte do que até aqui se imaginava.

Ao lado desse exercício de previsão, que depende da confirmação da existência de estoques suficientes de vacinas, há sinais de retomada na economia global, com reflexo em altas nas cotações internacionais de commodities, favorecendo a economia brasileira. Tudo isso, somado a surpresas positivas com o comportamento dos negócios, nos primeiros quatro meses do ano, compõe a narrativa otimista adotada mais recentemente pelo mercado financeiro.

Esse quadro aparece nas estimativas do Boletim Focus, no qual o Banco Central organiza, semanalmente, as projeções de analistas de mercado para a economia. De uma expansão de 3,08% há quatro semanas, o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) para 2021, já estava em 3,21%, na sexta-feira (7).

Ainda falta para que, nas previsões do Focus, a economia avance pelo menos 3,6% no ano, com o que terá evoluído no ritmo um pouco mais acelerado que apresentou em fins de 2020. Mas a tendência é de alta e algumas instituições do mercado financeiro passaram a projetar variação de até 4% neste ano.

São muitas, contudo, as incertezas quanto à evolução da atividade. Não só pelos riscos de novas ondas de covid-19, mas também pela possibilidade de interrupções na oferta de vacinas e pela própria situação em que se encontra a economia. Essas incertezas se refletem no amplo intervalo em que se situam as projeções para a expansão do PIB em 2021. No momento, as previsões variam de 2,5% a 4%.

É preciso, de todo modo, relativizar esses números. Embora a economia brasileira não registre crescimento anual nestes níveis desde 2013, há oito anos portanto, será um avanço em ritmo só um pouco superior à metade do previsto para a economia global, que deve crescer pelo menos 6%, em 2021. A distância em relação à expansão de 2014 só será fechada em 2023, sendo que, no caso da renda per capita, apenas em 2025 se prevê retorno aos níveis de 2014.

Além disso, a qualidade desse crescimento tende a ser bastante desigual. Com as boas perspectivas do setor externo, regiões e segmentos conectados às commodities em alta, sobretudo as metálicas, devem abrir espaços para retomada mais acelerada da produção, impulsionando inclusive a absorção de mão de obra e, em consequência, o consumo na região. Mas outros setores e segmentos, em especial nos serviços, devem evoluir em ritmo mais lento.

Isso no lado do consumo. Há, no momento, dificuldades de suprimento em diversas linhas de produção, o que afeta, negativamente, o lado da oferta. Sondagens da FGV (Fundação Getúlio Vargas) mostram que 25% dos estabelecimentos industriais estão com dificuldades com suprimento de matérias-primas e 18% do comércio enfrenta problemas com fornecedores. Nos últimos dez anos, esses índices não passaram de 5%.

Juntamente com a lentidão existente na absorção de mão de obra, expresso por índices elevados de desemprego e subemprego, esses choques de oferta são capazes de atrasar a retomada propiciada por uma aceleração no contingente de pessoas vacinadas. A moral da história é que a vacina é um fator necessário, mas não suficiente para garantir a recuperação da economia.

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