Repetitivo, Bolsonaro ataca a imprensa e a República para proteger Flávio

Queiroz (à dir.) é ex-motorista e ex-segurança do hoje senador 
Flávio Bolsonaro, filho do presidente
Imagem: Reprodução/Instagram via BBC

Colunista do UOL

Irritado com as reportagens que mostram como o órgão de inteligência do Estado brasileiro foi usado para ajudar o seu filho mais velho a se livrar de um processo por desvio de dinheiro público, lavagem de dinheiro e organização criminosa, Jair Bolsonaro novamente soltou os cachorros para cima da imprensa e das instituições.

Durante uma formatura de policiais militares no Rio de Janeiro, nesta sexta (18), incitou agentes de segurança contra jornalistas, dizendo que defendemos canalhas e que estaremos sempre contra os policiais. "Essa imprensa jamais estará do lado da verdade, da honra e da lei. Sempre estará contra vocês. Pense dessa forma para poder agir", afirmou. 

O significa implícito no "agir" é uma bala-perdida que acerta em cheio a nuca da democracia.

O discurso ocorreu no dia em que as revistas Época e Crusoé soltaram mais reportagens explicando como a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) foi, sob o comando do diretor-geral Alexandre Ramagem, instrumentalizada para proteger o clã.

Ao longo dos últimos dois anos, os rompantes de fúria do presidente estão diretamente relacionados aos momentos em que ele vê sua prole em risco. Seja no escândalo das "rachadinhas", seja em investigações sobre os responsáveis pelo "gabinete do ódio".

Seu modus operandi é bem conhecido: ele ataca jornalistas, apresenta projetos de lei que excitam sua base de seguidores fiéis (que vão à loucura nas redes sociais), compra briga com outros poderes da República, com outros chefes de Estado e até com artistas ou dá declarações bisonhas sobre céu, a terra, a água e o ar. No limite, quando a denúncia é grave, faz tudo isso junto e fomenta manifestações criminosas que pedem autogolpe militar.

Pode não ser a mão do presidente que fará o serviço sujo, mas é a sobreposição de seus repetidos ataques a jornalistas que banaliza atos como os de esmurrar, chutar e atirar a ponto de serem vistos como uma missão divina para proteger "a verdade, a honra e a lei".

Nada disso é novidade, claro. Levantamento da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) apontou, no dia 20 de outubro, que Jair era o campeão em discursos agressivos de autoridades contra jornalistas neste ano.

Outras organizações, como a Repórteres Sem Fronteiras, a Artigo 19 e a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj), também divulgaram números na mesma semana, apontando que o governo Bolsonaro conseguiu a proeza de tornar o país um lugar ainda pior para a liberdade de imprensa.

Discursos diferentes para enganar diferentes públicos

O que surpreende é que ao longo de todo esse tempo, muita gente bem-intencionada, inteligente, informada e sem deficiência de vitaminas e sais minerais segue celebrando como uma virada toda vez que Bolsonaro faz um discurso ou tenha uma atitude que não lambuze de chorume a República. Não raro, dizem que isso é um indício de uma mudança em seu comportamento.

Entende-se o autoengano pelo cansaço de viver sob tensão constante, quase como a pessoa que busca indícios de calmaria após tomar uma sequência interminável de caldos pelas ondas na arrebentação.

Foi assim, recentemente, quando Bolsonaro - que é um dos mais competentes aliados do coronavírus em todo o mundo, corresponsável por seus mais de 185 mil óbitos - fez um discurso pregando união no combate à doença.

O presidente tem discursos diferentes para diferentes públicos. Em formatura de agentes de segurança, ele se sente à vontade para pregar a violência estatal como princípio de governo.

Em suas lives semanais nas redes sociais, voltadas ao bolsonarismo-raiz, ele dispara mentiras em sequência para alimentar esse grupo. Como na quinta (17), em que disse que não haveria 13º do Bolsa Família porque o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), não havia colocado a pauta em votação - quando foi, em verdade, o governo que pediu para isso não ser analisado.

Em outras ocasiões, falando com audiências mais qualificadas, ele opera em outra fase de discurso, pensado por sua assessoria. Ainda mais em ocasiões em que é necessário distensão com outro poder, nesse eterno jogo de vai e vem, de morde e assopra, em que vai testando e, propositadamente, esgarçando, os limites da República.

O caso do uso da Abin para produzir relatórios a serem usados na defesa do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) na denúncia em que ele aparece como chefe do rachadeiro Fabrício Queiroz tem potencial de rebosteio. Não só pelo fato em si, mas porque é a ponta de um iceberg.

Nos últimos dois anos, Bolsonaro tentou dobrar as instituições de monitoramento e controle às suas necessidades, de seus filhos e amigos. Foi assim com a Receita Federal, o Coaf, a Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República, o Incra, a Funai, o Ibama, o ICMBio, a já citada Abin, entre outros.

Potenciais crimes de responsabilidade cometidos durante seu governo e, portanto, passíveis de impeachment.

Comportamento vai ao encontro de projeto de governo populista e autoritário

Se por um lado, a incitação contra a imprensa reafirma o projeto de país do clã (um governo populista autoritário apoiado, não por instituições, mas por setores da extrema-direita da população), por outro serve como cortina de fumaça.

Cada vez que o substantivo próprio "Bolsonaro" é divulgado na imprensa no mesmo parágrafo do substantivo próprio "Queiroz", um factoide é divulgado por eles. Se o substantivo comum "milícias" aparece junto, daí as ações também adotam táticas de guerrilha digital.

A Procuradoria-Geral da República, comandada por Augusto Aras, indicado fora da lista tríplice por Bolsonaro, precisa atender a ordem de Cármen Lúcia, ministra do Supremo Tribunal Federal, e investigar o caso da Abin. Sabemos o quão difícil é isso, uma vez que Aras vem se comportando como aliado do presidente, furtando-se do dever de ser independente.

Se as instituições, que estão sob intenso ataque, não funcionarem conforme a Constituição Federal neste momento, seus chefes serão apontados como cúmplices quando os historiadores, com base nas reportagens publicadas diariamente, analisarem esse período como a derrocada da democracia na maior nação da América do Sul. O problema é que tem muita gente nesse meio que queimaria livros de História em praça pública se pudesse.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Em novo caso de nudez, corredora sai pelada em Porto Alegre

Dispensa comentários