O narcisismo de Moro evidenciou o que muitos não querem aceitar


O narcisismo de Sérgio Moro e uma análise equivocada de como é composta a base do presidente produziram mais um erro tático, que evidenciou o que muitos não querem aceitar: Bolsonaro é maior do que se pensava

(Imagem: Valter Campanato | ABr)


O roteiro parecia perfeito: Moro pedirá demissão, montará um cenário com evidências que servirão para acusar o presidente de crime de responsabilidade, terá o apoio da Globo, o decano do Supremo tomará providências e dará celeridade à investigação, políticos dos mais diversos partidos (inclusive os de esquerda) pedirão o impeachment, aqueles que o idolatraram durante a Lava Jato inundarão as redes sociais com manifestações de apoio, o Governo entrará em parafuso, a debandada de apoiadores será gigantesca e tomaremos o poder.

O narcisismo de Sérgio Moro e uma análise equivocada de como é composta a base do presidente produziram mais um erro tático, que evidenciou o que muitos não querem aceitar: Bolsonaro é maior do que se pensava.

O que parecia ser o mais forte movimento para o derrubar do poder, a saída do Ministro Sérgio Moro do Governo, teve efeito contrário e proporcionou fazer a contagem dos crachás, como se diz no movimento sindical e estudantil.

Para quem apostou que parte significativa da base popular que votou em Bolsonaro iria abandoná-lo após o movimento feito por Moro, quebrou a cara. Os dias se passaram e nenhum movimento representativo foi visto. Apesar das limitações do presidente e do cenário de desaprovação das medidas que tomou com relação a pandemia, a pancada esperada não aconteceu.

A Globo escancarou o ataque a Bolsonaro. Acredita que irá fortalecer a tese de que é preciso encerrar o seu mandato. A turma da dissonância cognitiva respondeu rechaçando Moro como alternativa. Subjetivamente, acredita que seria mais uma manobra para barrar o processo purificador que se instalou no Brasil.

Dessa forma, Moro, a Globo e quem mais levantar argumentos que possam representar oposição ao presidente, estarão na verdade questionando a cruzada libertadora da corrupção e, provavelmente, serão taxados de comunistas (safados), por mais capitalistas que sejam.

Com isso, Bolsonaro voltou a sentir-se fortalecido e retomou o ataque, com coragem para peitar a ciência e as instituições. Convocou o Centrão para integrar seu time e, democraticamente, como lhe é de direito, promoveu o loteamento de espaços no Governo que garantisse a tranquilidade para livrá-lo de qualquer processo de impeachment.

Por mais despreparado que o presidente seja como gestor, essa combinação de base social em torno dos 30% da população e a garantia de 1/3 da Câmara dos Deputados lhe permite governar sem que precise dar satisfações para quem pense diferente. Se antes manifestei preocupação com algum movimento pró-ditadura, isso se tornou desnecessário.


Para quem acha que esse formato é insuficiente, engana-se. Bolsonaro é hoje quem detém isoladamente a maior base social e política no Brasil. Negar isso é trabalhar na perspectiva de continuar cometendo erros táticos, como levantar a bandeira do impeachment sem base política e reforçar setores do empresariado, a exemplo da Globo, que servem de liga para essa legião dissonante em torno do presidente.

Temos que reconhecer, a extrema-direita é parte muito representativa no Brasil. O objetivo estratégico deve ser confrontar esse agrupamento. Porque, além de representar um retrocesso político, carrega algo ainda mais temerário que é o desrespeito as pessoas e propostas que apontam para um aumento absurdo da pobreza e desigualdade social.

O erro tático pode nos custar anos muito duros de aprendizado. Acredito que qualquer grupo político que consiga ver a conjuntura para além dos interesses paroquiais perceberá que novos erros tornarão o projeto ultra-conservador ainda mais forte.

Nessa perspectiva, não cabe marcação de posição para disputa dos resquícios do PT. Muito provavelmente, as alternativas mais aceitas a Bolsonaro não sairão das legendas com perfil de esquerda – como o PT de prática hegemônica ou PSOL com base social limitada – muito menos do divisionismo boquirroto de Ciro Gomes, que acredita ser o proprietário da verdade.

Alternativas? Teremos, mas será preciso diálogo com a direita. Talvez até uma candidatura de direita; as instituições no Brasil ainda são controladas por ela. Supremo, Congresso, Ministério Público, setores da Igreja, Forças Armadas e Polícias são majoritariamente de direita.

Temos cerca de 50% do eleitorado que não se enquadra nem como extrema-direita nem esquerda, logo, estão em disputa e são majoritários como segmento social. Os políticos precisam dar respostas nesse momento para esse público. Para a esquerda e os progressistas restará terem responsabilidade estratégica e entenderem que não cabe pensar na construção ou ressurreição de mitos advindos do caos.

Alguém pode perguntar: e o Moro? Esse já mostrou que não passava de um oportunista. Trilhou o caminho da vaidade. Quebraram seu espelho e agora terá que conviver com a realidade que criou. Provavelmente, deve estar remoendo tudo que fez para favorecer a eleição de Bolsonaro. Achava que iria lhe tirar a vida, o efeito foi exatamente o contrário, fez que ressurgisse das cinzas ainda mais forte.

*Anderson Pires é formado em comunicação social – jornalismo pela UFPB, publicitário e cozinheiro.

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