"Meu pai morreu porque é pobre", diz filho de primeira vítima de coronavírus em AL


Aguardando vaga em UTI de um hospital especializado, homem passou quatro dias de peregrinação entre duas UPAs e um hospital geral. Apenas com informações que coletou na internet, filho fez diagnóstico mais preciso do que os médicos. O jovem relata uma série de negligências e diz que está sofrendo preconceito

(Imagem ilustrativa/Reprodução/Médicos tratam paciente com coronavírus)

“Meu pai morreu porque é pobre, porque atendimento foi fraco, precisava de suporte avançado de UTI. Não era para ter morrido. Se ele tivesse ido para uma UTI, ele tinha sobrevivido. Infelizmente, foi deficiência de uma UTI, não teve assistência médica intensiva adequada”.

O depoimento acima é do filho da primeira pessoa a morrer vítima de coronavírus no estado de Alagoas. O jovem, que prefere que seu nome não seja divulgado, relata uma série de descasos e negligências e acredita que a vida do seu pai, de 64 anos, poderia ter sido salva.

O filho conta que foram quatro dias de peregrinação entre a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Jacintinho, o HGE (Hospital Geral do Estado), e a UPA do Trapiche da Barra, todos localizados em Maceió (AL), esperando uma vaga em UTI (Unidade de Terapia Intensiva) em hospital especializado.

Por três dias seguidos, o filho levou o pai para a UPA do Jacintinho, na periferia de Maceió, mas o diagnóstico não foi dado corretamente. O primeiro parecer médico foi infecção na garganta, mas o pai piorava e o filho insistiu para que os profissionais considerassem a hipótese de coronavírus. “Olhei na internet e os sintomas eram parecidos”, recorda.

“Depois da infecção na garganta os médicos disseram que meu pai estava com infecção pulmonar, mas não tinha necessidade de ele ir para um hospital. O quadro dele só piorava, ele não conseguia respirar”, relata o filho.

“Pesquisamos um hospital que poderia internar meu pai em UTI, que seria o hospital Elvio Auto, mas levaram da UPA do Jacintinho para o HGE, na sala 1. Horas depois, meu pai foi transferido para a UPA do Trapiche, onde estava com sintomas claros de Covid-19”, conta.

A família do paciente ainda tentou pagar a internação em hospital particular, “mas não tínhamos dinheiro suficiente”, relata. “Consegui enterrar meu pai com muita dificuldade. Até agora, não recebemos assistência nenhuma e estamos sofrendo preconceito com os vizinhos. Estamos trancados no apartamento sem apoio da área da saúde”.

As UPAs são unidades de atendimento intermediário, pois não possuem aparelhagem para casos complexos. Mas, mesmo assim, manteve o paciente enquanto aguardava o surgimento de uma vaga na UTI. O paciente não resistiu durante a espera.

O médico anestesiologista Luis Bulhões Calheiros explica que as UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) servem para desafogarem os hospitais de casos de leve a média complexidade. “Em casos de pacientes graves, a equipe deve estabilizar o paciente e encaminhá-lo para o hospital de referência o quanto antes”, diz.

O atestado de óbito consta como causa da morte insuficiência respiratória aguda, provocada por covid-19.

Governo de Alagoas

Em transmissão ao vivo, o governo dr Alagoas, Renan Calheiros Filho (MDB), informou que o paciente não havia sido confirmado ainda com covid-19 e, por isso, ele não foi transferido logo para o Hospital Escola Elvio Auto.

“Primeiro, o paciente é diagnosticado para depois ser transferido para não ficar misturado com os casos suspeitos. Após a confirmação, ele é transferido”, justifica o governo sobre a demora da vítima ter ido para uma UTI em hospital.

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