Cid Gomes desafia policiais grevistas e é baleado em Sobral, no Ceará

Em cima de trator, senador marchou ao lado de moradores da cidade rumo a quartel 
com policiais amotinados

El País

Cid Gomes após ser baleado em Sobral
REPRODUÇÃO

O senador Cid Gomes (PDT) foi atingido por tiros de arma de fogo nesta quarta-feira em Sobral, no Ceará, enquanto protestava, em cima de uma retroescavadeira, contra a paralisação de agentes da Polícia Militar do Estado. Cid, que é ex-governador cearense com histórico de conflito com a polícia e ligado ao atual mandatário Camilo Santana (PT), havia convocado a população pelas redes sociais para se levantarem contra os policiais, aos quais acusou de impor terror à sociedade. Segundo boletim médico do Hospital do Coração de Sobral, onde Cid foi atendido, o senador não sofreu alterações cardíacas ou neurológicas e respira sem ajuda de aparelhos. Antes, o ex-ministro Ciro Gomes, irmão de Cid, havia adiantado que o senador não corre risco de morte.

A cena no quartel de Sobral, transmitida ao vivo pela página de Facebook O Sobralense, mostra escalada da tensão no protesto liderado pelo senador. Em cima de uma retroescavadeira e ladeado por uma multidão, ele se dirigiu a um dos quartéis da cidade, que é o bastião político dos Gomes, a 200 km de Fortaleza. Lá agentes grevistas estavam amotinados. Vários deles com o rosto coberto. Nas imagens, o trator dirigido por Cid aparece avançando contra os portões do quartel. Ouve-se estampidos e surgem as imagens que mostram Cid atingido.

Meu irmão Cid Gomes foi vitima de dois tiros de arma de fogo por parte de policiais militares amotinados e mascarados em Sobral, nossa cidade. Até aqui as informações médicas são de que as balas não atingiram órgãos vitais apesar de terem mirado seu peito esquerdo. (...)
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Força Nacional e pano de fundo político

Em nota, o Ministério da Justiça informou que está acompanhando a situação no Ceará, para onde já foram enviados agentes da Polícia Rodoviária Federal e da Polícia Federal para fazer a segurança de Cid Gomes. A pasta anunciou também o envio da Força Nacional para o Estado.

A mobilização do ministério de Sergio Moro veio depois que o governador Camilo Santana pediu reforço das forças federais, ainda na tarde de quarta, para lidar com a greve. Em duro discurso em vídeo, Camilo citou que quartéis na capital, Fortaleza, foram atacados por homens de rosto coberto e que pneus de viaturas haviam sido esvaziados. Durante o dia, também circularam em Sobral e em outras cidades relatos e vídeos que mostram homens encapuzados exigindo o fechamento do comércio. A Secretaria de Segurança do Estado também acusou diretamente os policiais pelas ações de intimidação.

Os atos de greve e manifestações desta semana são o desfecho até agora de uma negociação por melhoria salarial para bombeiros e policiais que se arrasta desde dezembro. Na semana passada, o governador petista propôs elevar para 4.500 reais o salário-base para soldados e bombeiros cearenses. Um grupo, no entanto, seguiu descontente e promovendo ações de protesto. Por serem forças militares, agentes da Polícia Militar são proibidos legalmente de realizar greves. Por isso, a Justiça ratificou nesta semana o direito do Estado de prender agentes grevistas —ao menos três policiais foram presos na capital.

A crise tem ainda um pano de fundo político no Ceará. Em seu discurso à tarde, o governador Camilo Santana acusou o que chamou de “pequenos grupos" de manifestantes de se aproveitarem "da boa-fé da tropa para mentir, ganhar dinheiro e para se projetar politicamente, especialmente em anos de eleição como este.” O recado do petista ressoa na figura do deputado federal Capitão Wagner (PROS), ex-oficial da PM que fez carreira liderando uma histórica greve policial em 2011 e é pré-candidato à Prefeitura de Fortaleza. Wagner se manifestou pelo Twitter: “Saindo de Brasília para Fortaleza com uma comitiva de deputados e representantes do Governo Federal para ajudar a solucionar o problema do Ceará!”

“Se fosse para cravar, diria que a adesão à paralisação dos policiais foi pequena, mas organizada e barulhenta, que é suficiente para por areia na engrenagem”, diz Ricardo Moura, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará (UFC). O que chama atenção no movimento atual em relação aos anteriores, segundo Moura, é a ousadia de grupos de policiais usando balaclavas à luz do dia, com táticas ligadas às facções criminosas. “Isso demonstra que não têm medo de represália.”

Ultimato

Agora o Estado, que começou o ano de 2019 sacudido pela ação de facções criminosas, espera os próximos passos que tomarão os grupos grevistas e a repercussão política da ação de Cid Gomes, que está licenciado do cargo de senador desde dezembro justamente para estar mais no Ceará em pleno ano eleitoral. “Espero serenamente, embora cheio de revolta, que as autoridades responsáveis apresentem prontamente os marginais que tentaram este homicídio bárbaro às penas da lei”, cobrou o ex-candidato presidencial Ciro Gomes, pelo Twitter, sobre o irmão.

A família Gomes, a mais influente politicamente no Ceará, coleciona episódios de arroubos públicos e frases fortes —Cid se destacando pelos primeiros e Ciro, pelos segundos. O episódio desta quarta em Sobral começa na terça-feira, quando Cid Gomes gravou vídeo, distribuído pelo WhatsApp, no qual avisa que chegará à cidade às 16h da quarta e convoca a população a resistir à greve dos policiais. Já nesta tarde, diante do quartel, Cid Gomes usou um megafone para dar um ultimato aos policiais amotinados, a quem deu cinco minutos para que deixassem as instalações. Sem resposta, Cid partiu então com a retroescavadeira contra o quartel.

Para o pesquisador Ricardo Moura, a ação “totalmente temerária” de Cid Gomes lhe renderá frutos imediatos num Estado onde é forte a cultura machista do “político destemido”, “que não é frouxo”. Tudo isso no contexto da histórica queda de braço dos Gomes com o comando das polícias do Ceará e quando já havia indicativos de que essa paralisação não goza de adesão popular. “A grande polarização na política cearense na última década é entre os Ferreira Gomes e o comando das polícias”, afirma o pesquisador.

Para Moura, Cid deu um ultimato não apenas aos policiais, mas ao próprio governador Camilo com sua atuação em Sobral. “O governador não tem alternativa que não dissolver o movimento de paralisação. Se na tarde da quarta parecia haver espaço para negociação, ele acabou.”

Na fim da noite, a Secretaria Pública do Ceará informou que o batalhão da PM em Sobral que estava havia sido abandonado pelos agentes amotinados. Informou ainda que uma equipe especial, com participação da Polícia Federal, já investiga na cidade o crime contra Cid Gomes.

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