Só de auxílios, procurador do 'miserê' ganha mais que a metade dos brasileiros

Leonardo Azeredo dos Santos recebe R$ 3 mil de auxílios saúde e alimentação, valor com o qual 57% dos brasileiros sobrevivem



Mais da metade da população brasileira ganha menos do que os R$ 3 mil que o procurador de Justiça de Minas Gerais Leonardo Azeredo dos Santos recebe apenas com auxílio-saúde e alimentação – penduricalhos pagos pelo órgão público. O integrante do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), que pediu afastamento temporário por motivos médicos, ficou famoso por se queixar do salário “miserê” de R$ 24 mil, dizendo, em áudio divulgado no site da instituição, que teve que baixar seu “estilo de vida” para sobreviver.

Nada menos que 57% dos brasileiros precisam se virar todos os meses para conseguir viver com menos de R$ 3 mil, o equivalente à quantia extra que o procurador recebe somente para se alimentar e cuidar da saúde. Em Minas, esse abismo é ainda maior e 60% da população ganha até os R$ 3 mil.

De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esse é o percentual de pessoas acima de 10 anos de idade com rendimento de até três salários mínimos. O procurador faz parte do minúsculo grupo de 0,36% dos brasileiros que ganha acima de 20 salários, deixando para trás 99% dos trabalhadores que precisam “sobreviver” com menos.

Na época da pesquisa, divulgada em 2016, o salário mínimo era de R$ 880. Atualmente, é de R$ 998. Mas nem mesmo três salários mínimos (R$ 2.994) dos dias de hoje somam os R$ 3.097,93 que recebeu em julho de auxílio-alimentação (R$ 1.100) e auxílio-saúde (R$1.997,93). O contracheque de julho do procurador é o último disponível no Portal da Transparência do MP.

Somente este ano, Azeredo dos Santos embolsou mais de R$ 18 mil para cuidar da saúde e para se alimentar. Mas, na realidade, essa é uma pequena parte dos rendimentos do procurador, que ingressou no órgão público há 28 anos e, em 2010, foi promovido na carreira, de promotor ao atual cargo, o segundo mais alto na hierarquia da instituição.

Embora tenha reclamado da remuneração de R$ 24 mil, o salário do procurador é de R$ 35.462,22, antes dos descontos de contribuição previdenciária e Imposto de Renda. O auxílio-alimentação mensal é de R$ 1.100, reajustado em 24% em maio (antes era R$ 884). Segundo a Pnad, 25% dos brasileiros recebem até um salário mínimo, menos do que o benefício de alimentação do procurador. Entre os mineiros, esse percentual é de 26%.

Os contribuintes ainda bancam o auxílio-saúde para o procurador. O benefício é usado para as despesas do servidor com saúde e tem caráter indenizatório, com verba de até 10% do subsídio. Os gastos de Azeredo dos Santos têm ficado em torno dos R$ 1.900. Quase um quarto dos brasileiros (24%) e dos mineiros (25%) têm rendimento entre acima de um a dois salários mínimos, de R$ 998 a R$ 1.996.

A esse montante do salário e dos benefícios, somam-se ainda indenizações e “remunerações retroativas ou temporárias” – que incluem valores por conquistas na carreira ou decisões judiciais. Junto com o salário, esses adicionais levaram Azeredo dos Santos a embolsar mais de R$ 4,17 milhões nos últimos cinco anos. O levantamento foi feito pelo EM, com base nos dados do Portal da Transparência do MP. Em julho, Azeredo dos Santos custou R$ 79,9 mil aos cofres públicos, se considerados salários, remunerações extras e benefícios.
"Estou fazendo a minha parte. Estou deixando de gastar R$ 20 mil de cartão de crédito e estou passando a gastar R$ 8 (mil), para poder viver com os meus R$ 24 mil. Agora, eu e vários outros já estamos vivendo à base de comprimidos, à base de antidepressivo"
Leonardo Monteiro dos Santos, procurador de Justiça 
(trecho do áudio em que ele reclama dos salários)

Na segunda-feira, Azeredo dos Santos ficou famoso por causa da divulgação de aúdio em que ele reclama do salário ao procurador-geral de Justiça de Minas Gerais, Antônio Sérgio Tonet, em áudio disponível no site do Ministério Público, dizendo que teve que baixar “seu estilo de vida” para sobreviver.

“Quero saber se nós, no ano que vem, vamos continuar nessa situação ou se Vossa Excelência já planeja alguma coisa, dentro da sua criatividade, para melhorar nossa situação? Ou se vamos ficar nesse miserê?”, cobrou. Ele disse ainda que precisou diminuir de R$ 20 mil para R$ 8 mil os gastos com o cartão de crédito e que está vivendo à base de antidepressivos. “Quem é que vai querer ser promotor, se não vamos ter aumento, ninguém vai querer fazer concurso nenhum”, completou.

No áudio de cerca de 1h40min, o procurador reclama que a despesa dele é alta para o salário. Ele disse que paga R$ 4.500 de condomínio e IPTU por mês. O valor corresponde ao rendimento de quase 63% dos brasileiros, percentual de pessoas que recebem até cinco salários mínimos por mês.

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