‘The Intercept’: Vazamentos revelados pela ‘Veja’ amplificam infortúnio de Moro e da Lava Jato

Reportagem conjunta dos dois veículos, publicada na revista semanal, traz mais detalhes da ingerência do ex-juiz nos trabalhos da força-tarefa, artifícios para evitar ida de processos ao Supremo e até Moro aconselhado por apresentador Faustão

Vazamento Lava Jato The Intercept
Sergio Moro em Brasília, no último dia 3.  AP
O ministro da Justiça Sergio Moro não consegue tirar a toga de juiz de Curitiba desde o dia 9 de junho, quando o site The Intercept Brasil começou a divulgar mensagens trocadas com a força-tarefa da Lava Jato, que questionam a sua imparcialidade como magistrado. Nesta sexta-feira, foi a vez da revista semanal Veja trazer mais um arsenal de informações que abalam ainda mais a imagem de Moro ao confirmar evidências de que ele atuou de maneira calculada para manter poder sobre processos da Lava Jato, além dos que dizem respeito ao ex-presidente Lula.
De acordo com os diálogos analisados por um time de jornalistas do The Intercept e da Veja, há evidências das interferências do juiz, que teria chegado a ocultar informações do ministro Teori Zavascki, que era o relator da Lava Jato no Supremo. O episódio envolve a prisão de Flávio David Barra, acusado de pagamento de propina enquanto presidia a empresa AG Energia, do grupo Andrade Gutierrez. Em agosto de 2015, a defesa de Barra pediu ao Supremo a suspensão do processo tocado pela 13 Vara de Curitiba. A alegação levava em conta uma planilha onde constariam nomes de políticos que recebiam propina da empresa. Por envolver políticos – que têm foro privilegiado – o processo deveria ser tocado pelo STF.
 Em outubro, Zavascki cobrou explicações a Moro, que afirmou, por sua vez, não ter informações sobre o envolvimento de parlamentares no caso de Barra. Porém, um diálogo posterior ao pedido do ministro da Corte, entre o procurador Athayde Ribeiro Costa e a delegada Erika Marena, da Polícia Federal, sugere que o juiz provavelmente sabia do envolvimento de políticos no caso. Costa diz precisar com urgência de uma “planilha/agenda” com os pagamentos de políticos e que fora apreendida com Barra. Marena responde que, por orientação de Moro, não tinha tido pressa em protocolar o documento no sistema eletrônico da Justiça.
As mensagens apontam que Moro pode ter mentido ou omitido de Zavascki a informação, pois já sabia da existência da planilha e, por consequência, do possível envolvimento de políticos no caso, ou soube depois da existência de tal documento e pediu à delegada para “não ter pressa” em protocolá-lo pois assim o processo se mantinha em Curitiba. As duas hipóteses são comprometedoras para o atual ministro da Justiça.
Zavascki, que faleceu num acidente de avião em 2017, era um dos ministros mais discretos e corretos do STF, e ficou marcado por ter repreendido Moro pela divulgação do diálogo entre Lula e Dilma quando o primeiro seria nomeado ministro, em 2016, no auge do movimento pelo impeachment de Rousseff. A gravação foi feita fora do horário permitido pela Justiça.
Outro trecho da reportagem cita o ex-deputado Eduardo Cunha, responsável por colocar em votação o pedido de impeachment de Dilma Rousseff em 2015, e preso no ano seguinte. Até hoje, Cunha não fez delação premiada, e mantém o silêncio sobre as acusações que pesam sobre ele, incluindo recursos em contas no exterior. “Sou contra”, disse Moro em mensagem a Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato, em julho de 2017, ao questionar “rumores” de que Cunha falaria à Justiça em busca de benefícios de redução da pena. Mas o procurador tranquilizou o juiz: “[são] Só rumores. Não procedem. Cá entre nós, a primeira reunião com o advogado para receber anexos (nem sabemos o que virá) acontecerá na próxima terça. Estaremos presentes e acompanharemos tudo. Se quiser, vou ter colocando a par”. Moro agradeceu a cumplicidade do procurador. “Agradeço se me manter (sic) informado. Sou contra, como sabe”.
As mensagens trazem também um detalhe jocoso, mas que para além da graça, fortalece a veracidade dos diálogos e enfraquece o argumento do ministro de que as mensagens podem ter sido alteradas por forças interessadas em interromper a Lava Jato. No dia 7 de maio de 2016, o juiz conta para Dallagnol que foi procurado pelo apresentador Fausto Silva que o cumprimentou pela operação, e repete ao procurador o conselho recebido do apresentador. "Ele disse que vocês, nas entrevistas ou nas coletivas [de imprensa] precisam usar uma linguagem mais simples. Para todo mundo entender. Para o povão. Disse que transmitiria o recado. Conselho de quem está a (sic) 28 anos na TV. Pensem nisso". O apresentador confirmou à Veja o encontro e o teor da conversa com Moro.
A reportagem desta sexta viralizou como rastilho de pólvora nas redes sociais e é mais uma pedra no sapato do ministro, que de fiador do Governo Bolsonaro passa a se ver 'sob fiança' do presidente, que promete levá-lo ao Maracanã neste domingo para a final da Copa América. Moro tem defendido a própria honra desmerecendo o conteúdo do The Intercept que ele diz ter sido acessado por meio de hackers, algo que o site nega. À medida que outros órgãos de imprensa cruzam as informações com outras fontes que trocaram informações com a força-tarefa, o argumento do ministro fica mais débil.
Além do esforço de Bolsonaro, Moro também deu a cara para bater em duas audiências no Congresso, uma no Senado no último dia 19, e na última terça feira na Câmara dos Deputados. O ministro conta ainda com seu apoiadores, que lhe conferiram uma manifestação no último domingo em diversas cidades, numa contra-ofensiva às acusações que lhe são feitas. A força-tarefa da Lava Jato, por outro lado, mantém suas operações, que hoje ganham menos destaque nos jornais do que nos primeiros anos. Desde o dia 9 de junho, ao menos duas operações já entraram em ação. Mas o esforço maior do time de procuradores tem sido mesmo rebater as informações das reportagens do The Intercept e dos veículos parceiros que tem tido acesso aos dados obtidos pelo site.
Para contrapor a Veja, Moro divulgou uma longa nota à imprensa onde rebate ponto por ponto. Sobre a ocultação de informações do ministro Zavascki no caso de David Barra, por exemplo, ele diz que prestou informações ao STF no dia 17 de setembro de 2015, portanto bem antes da data citada na reportagem (23 de outubro de 2015) sobre o diálogo entre o procurador  Ribeiro Costa e a delegada Erika Marena, da PF. “Não há qualquer elemento que ateste a autenticidade das supostas mensagens ou no sentido de que o então juiz tivesse conhecimento da referida planilha mais de 30 dias antes. Então, é evidente que o referido elemento probatório só foi disponibilizado supervenientemente e, portanto, que o então juiz jamais mentiu ou ocultou fatos do STF neste episódio ou em qualquer outro”, diz.
A tarefa de se defender e o revés que os vazamentos supõem para a imagem da Lava Jato é um golpe duro para a justiça e o Brasil após o país se iludir com a ideia de que as cadeias já não prendiam só pobres, mas também empresários brancos e endinheirados que apareciam algemados em frente às câmeras de TV para pagar pelos seus crimes confessados em audiências com o juiz e a força-tarefa. A Lava Jato sim, cumpriu a expectativa, mas deixou brechas enormes que abriram questionamentos sobre a sua condução. Em carta ao leitor,  a revista Veja, uma das maiores entusiastas da Lava Jato no passado, diz que mantém o mesmo apoio à operação no presente. Porém, “jamais seremos condescendentes quando as fronteiras legais forem rompidas (mesmo no combate ao crime). Caso contrário, também seríamos a favor de esquadrões da morte e justiceiros”.

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