Aprovação de Coutinho na Paraíba dá fôlego a sucessor João Azevêdo

por Murilo Matias 
Carta Capital

Indicado por atual governador, candidato do PSB chegou a 32% de intenções de voto, segundo Ibope. Adversários o comparam a Dilma

Reprodução / Twitter
Candidato de Coutinho, Azevêdo subiu 15 pontos e assumiu a liderança, segundo Ibope

A chamada nova Paraíba deu ao Brasil a primeira resposta contundente e popular após a concretização do impeachment que retirou Dilma Rousseff da presidência.

Na pequena cidade de Monteiro, o ex-presidente Lula inaugurava em 2017 a obra de transposição do Rio São Francisco, que levaria água a milhões de paraibanos e nordestinos acompanhado pelo governador Ricardo Coutinho (PSB), lideranças regionais e nacionais, incluindo a ex-presidenta.

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"A transposição era um sonho e aquele evento representou o término da espera de uma vida por uma obra que só foi feita porque tivemos um presidente que olhou para o Nordeste", conta Maria Pereira, moradora do semiárido, onde está a maioria das cidades paraibanas.

A reunião do campo progressista brasileiro no estado simbolizou o avanço social e a ruptura com classe política tradicional representada pelos oito anos de gestão de Coutinho. Próximo do fim de seu mandado, o atual governador é provado por 59% da da população, segundo o Ibope, e por 80%, conforme levantamento do Instituto Datavox.

Os índices são compatíveis aos alcançados pelo socialista em suas reeleições para a prefeitura da capital João Pessoa e para o executivo estadual, números que impulsionam a candidatura do ex-secretário de infraestrutura João Azevedo (PSB), escolhido para dar seguimento ao atual projeto caso imprima nova derrota às oligarquias que dividiram-se entre as candidaturas do ex-governador José Maranhão (PMDB) e de Lucélio Cartaxo (PV).

Segundo pesquisa Ibope divulgada na quarta-feira 19, Azevedo subiu 15 pontos percentuais e assumiu a liderança, com 32% dos votos. Maranhão registrou 28% e Cartaxo, 19%.

"A Paraíba era uma e agora é outra não só pela inclusão, mas pela mudança da cultura política do nosso estado. As forças progressistas tiveram espaço, ocuparam o poder. Quilombolas, indígenas, lutadores da terra resplandeceram durante esse período", expressa Cida Ramos (PSB), candidata a deputada estadual depois de ter apresentado-se à prefeitura da capital em 2016 e conquistar 125 mil votos, votação recorde de uma mulher na Paraíba. 

Ex-secretária de Desenvolvimento Humano e portadora de paralisia infantil, a professora universitária faz questão de pautar a questão de classe em sua atuação. "Não sou meramente do movimento da pessoa com deficiência, faço a grande política pois ao lutar por melhores dias para o povo estou defendendo a acessibilidade, o direito ao trabalho, à educação. Enquanto não haver representatividade não teremos democracia".

Buscando exatamente a legitimidade da participação popular, o governo deu ênfase à ferramenta do orçamento democrático com a injeção de oito bilhões em recursos cujo destino foi definido por representantes independentes da sociedade civil. Junto da politização, o mecanismo permitiu a expansão da rota dos investimentos, tradicionalmente concentrado nas cinco maiores cidades nas administrações anteriores. A experiência da realização de plenárias regionais com integrantes de todas as cidades tirou do esquecimento municípios ignoradas pelo poder público por possuírem colégios eleitorais reduzidos.

A reforma de estradas esteve entre as prioridades defendidas pela população e acatadas pela gestão. Antes dos socialistas só era possível chegar a 58 cidades paraibanas por vias que passavam pelo Rio Grande do Norte e por Pernambuco ao sul. A qualificação da malha viária tornou-se um dos motivos da Paraíba ser o estado nordestino mais competitivo do Brasil, segundo o Centro de Liderança Pública, que conta com pesquisa técnica do The Economist.

"Atingimos a menor taxa de mortalidade infantil, de desocupação e a maior média de renda familiar do Nordeste. Temos a percepção que o povo paraibano se apropriou dessas mudanças e não quer perdê-las, nem permitirá que elas sejam ameaçadas. João Azevêdo construiu tudo isso ao meu lado e tem capacidade técnica e política não apenas de preservar, mas de aprimorar as conquistas. A transferência, neste caso, atingirá os maiores patamares, por estar assentada sobre bases reais de transformação e de capacidade de continuidade do trabalho", avalia Coutinho, ou o "Mago", maneira com que é tratado pelos populares pela característica de ser magro.

Colado na capacitação econômica, os investimentos na educação permitiram triplicar o salário base dos professores desde 2010, assim como instituir o pagamento de 14º e 15º salários a docentes e funcionários de escolas premiadas por bom desempenho. Entre as propostas enfatizadas para o novo mandato está a contratação de quatro mil professores, discurso que contrasta com os planos dos opositores, os quais desejam o incremento das forças de segurança mesmo a Paraíba posicionando-se entre os estados menos violentos do país.

Ainda no campo social, a inauguração em setembro do Hospital do Bem,especializado no tratamento do câncer terá capacidade de atender a 89 municípios do sertão no entorno de Patos, local em que está sediado a unidade, uma das mais modernas do Brasil.

Em março já haviam iniciado os atendimentos no Hospital Metropolitano, o maior do Nordeste no setor de cardiologia e neurologia. Para o saneamento e a disponibilização de recursos hídricos, além da transposição do São Francisco, o governo investe no canal de Acauã para levar água a 500 mil pessoas. "Quando esperavam minha renúncia, anunciei um calendário de obras", sublinhou Coutinho, que permaneceu no cargo mesmo tendo uma eleição ao senado encaminhada.

A Paraíba da repetição

Na falta de pontos graves para atacar os situacionistas, a oposição tenta desqualificar a escolha pelo nome de João Azevedo, pouco conhecido da massa antes do início da campanha. Os adversários comparam sob um viés negativo a situação local ao ocorrido no plano nacional quando da escolha de Lula por Dilma para dar seguimento ao projeto petista na presidência.

Sugerem, adicionalmente, haver perseguição política a adversários, as principais vítimas seriam os gestores de João Pessoa e Campina Grande, dois maiores complexos urbanos. A tática rememora as práticas do ex-governador Ronaldo Cunha Lima (PSDB), que fazia aparições inesperadas nas mais diferentes regiões do estado queixando-se da falta de apoio político de prefeitos para explicar as dificuldades enfrentadas pela máquina pública estadual, de acordo com o relato de paraibanos experimentados na vida política.

Os argumentos de renovação, por sua vez, esbarram na própria história e configuração das chapas conservadoras. O ex-governador por dois mandatos Zé Maranhão, membro da bancada ruralista, tem seu nome atrelado a Michel Temer desde que apoiou o golpe e votou alinhado aos governistas nas reformas impopulares propostas pela direita. Em seu favor conta com o apoio de prefeitos do partido e da lembrança de fatias do eleitorado, sobretudo dos mais velhos, que elogiam as gestões do candidato de 88 anos, o com mais idade a competir por uma cadeira do executivo.

A coligação de Lucélio Cartaxo, por sua vez, é um desfile de antigos clãs, motivo pelo qual recebeu o apelido de familismo. O candidato é irmão gêmeo de Luciano Cartaxo (PV), atual prefeito reeleito da capital, o ex-petista chegou a ter a presença de Lula e Dilma em sua primeira vitória antes de mudar a posição ideológica e se aliar aos conservadores. O restante da chapa tem na vice-governadoria a esposa do prefeito de Campina Grande, Micheline Rodrigues (PSDB) e na disputa pelo senado Daniella Ribeiro (PP), irmã do deputado federal Aguinaldo Ribeiro, líder de Temer na Câmara e o senador Cássio Cunha Lima, filho de Ronaldo.

"Lucélio tem dedicado-se a mostrar o que Luciano tem feito de bom na capital, falando por exemplo da entrega de 62 creches em novo padrão com espaços adequados às crianças e funcionários. Por outro lado, temos uma passagem municipal de ônibus a R3,55, tarifa caríssima para o tamanho da cidade e o bolso do trabalhador", comenta Silvio Galvão.

Quem está em melhores condições dentro do grupo, segundo as pesquisas de opinião, é Cássio, valendo-se sobretudo do prestígio em Campina Grande e entorno, cuja tendência são de votos conservadores ao contrário do que ocorre em João Pessoa. O tucano, ferrenho crítico dos mandatos do PT, lidera a corrida pelo senado sob o mote de que a Paraíba é ouvida com Cássio. "O problema é o que o senador fala e como vota, sempre contra o povo e privilegiando as elites. Já derrubamos essa oligarquia do executivo depois de anos no comando, não vamos deixar outra começar embaixo do nosso nariz", garante Silvana Parelhas, comerciante do bairro Colinas, um dos mais carentes de João Pessoa.

Os progressistas colocam a expectativa de chegar ao senado com Veneziano (PSB), deputado federal e ex-prefeito de Campina Grande e com o padre Luiz Couto (PT), que pretende ser o primeiro senador de esquerda eleito na Paraíba - os paraibanos e petistas Lindbergh Farias e Fátima Bezerra elegeram-se pelo Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte, respectivamente. É também nascida no estado a deputada federal e ex-prefeita de São Paulo, Luiza Erundina (Psol).

"Está na hora de elegermos um senador de esquerda que tenha diálogo com os diversos movimentos e tenha os pés fincados aqui na nossa terra. As políticas públicas para melhorar a qualidade de vida da pessoas que foram feitas são a principal marca do nosso trabalho. A nova Paraíba tem oito anos de vida mas quer seguir em frente, por isso desejamos chegar a Brasília para representar esse projeto", confia Luiz Couto.

O quadro na parede e a bomba na porta

A explosão do portão principal da Penitenciária de Segurança Máxima Romeu Gonçalves Abrantes estremeceu João Pessoa na madrugada de 10 de setembro. A complexa operação teria por objetivo retirar da cadeia integrantes de um grupo que realizava assaltos a bancos e carros fortes na região resultou na fuga de 92 detentos e na morte de um policial, após troca de tiros com os fugitivos.

Mesmo com a rápida ação da polícia e das equipes de inteligência recapturando a maioria dos apenados, o episódio trouxe à tona o tema da segurança com a alegação dos opositores de que há um déficit de oito mil profissionais para o setor. Os embates que a administração central teve em alguns momentos com grupos de servidores também é utilizado para questionar o salário pago e os reduzidos reajustes dos últimos anos, considerado insuficiente para a atividade.

"A ousadia dos bandidos mostrou a nossa insegurança. Temos que recuperar a autoridade. O que eles vão invadir agora, o Palácio da Justiça? Quando o bandido não respeita o estado, quem protege o cidadão? Eu vou mudar esse cenário", garantiu Zé Maranhão em sua propaganda eleitoral . O governo defende-se com a conquista da diminuição dos assassinatos e ressalta o fato de ser o quarto estado que mais coloca dinheiro no segmento, de acordo com o Anuário Brasileiro da Segurança Pública, adquirindo equipamentos da ordem de helicópteros, munição e viaturas.

Para além das medidas de força, a gestão socialista desenvolve políticas voltadas à tolerância com relevante grau educativo e de formação da cidadania. Nesse espírito insere-se o projeto relatado pelo deputado estadual Anísio Maia (PT) prevendo a colocação de um quadro portando mensagem contra a discriminação por gênero e orientação sexual em estabelecimentos, sob pena de multa aos descumpridores da legislação.

"A lei estadual é uma iniciativa única realizada aqui e que ganhou repercussão nacional por trazer essa discussão para dentro dos espaços públicos e privados. Apesar dos ataques sofridos nas tentativas de revogá-la, os movimentos LGBTQI estão cientes da importância de manter essa ação afirmativa por direitos e respeito", observa Ciro Moisés, desde a Praça da Paz, na capital.

Outra frente do executivo estabeleceu os circuitos culturais em parques públicos como maneira de disponibilizar a arte popular, especialmente durante o tempo em que o cantor e compositor Chico César esteve à frente da Secretaria de Cultura, entre 2011 e 2014. Antes da crise econômica nacional, os recursos permitiam a presença de nomes como Gilberto Gil e Jorge Benjor durante datas comemorativas em eventos promovidos pelo poder público.

O esporte também conta com um especialista na pasta para alavancar propostas a exemplo do bolsa atleta, assim como a qualificação dos ambientes de treinamento e competição. Zé Marco, medalhista de prata no voleibol de praia, é quem atualmente dirige a Secretaria sobre o assunto, tentando expandir as potencialidades e oportunidades dos atletas e da juventude. Aos idosos, foi construído o conjunto de residenciais exclusivos à faixa etária no condomínio Cidade Madura, no sertão.

"Hoje, o povo da Paraíba sabe que pode mais. Nós vamos dar continuidade a esse ritmo, consolidando as conquistas da Nova Paraíba e implementando as bases dos novos sonhos de nosso povo", projeta João Azevedo. O povo marcado e feliz de toda a Paraíba parece disposto a avançar na toada socialista de seu tempo presente sem abrir espaço para a volta pelo que nas ruas se denominou de forças do atraso.

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