EDITORIAL DO ESTADÃO - Um País prisioneiro das eleições

Quando o País deveria estar discutindo o desafio de se recuperar após a pandemia, perde tempo com os delírios de Bolsonaro

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo


O ex-presidente Lula da Silva nunca desceu dos palanques. Desde que se elegeu presidente pela primeira vez, o líder petista tratou de revestir todos os seus atos e palavras de características eleitoreiras, fazendo campanha permanente. Nessas circunstâncias, a tensão é constante, pois os discordantes são tratados como inimigos movidos a interesses eleitorais, e o único projeto concreto, para o qual todas as energias do governo são mobilizadas, é vencer a eleição seguinte.

Esse foi um dos principais motivos pelos quais o eleitorado brasileiro se cansou do lulopetismo. Jair Bolsonaro elegeu-se presidente com a promessa de acabar com as práticas nefastas dos petistas, mas não a cumpriu, como mostram os acertos esquisitos com o Centrão, os negócios estranhos com vacinas e as manobras extravagantes para obter recursos destinados a projetos populistas. Mais do que isso: tal como Lula da Silva, Bolsonaro transforma tudo em comício.

Os virulentos ataques de Bolsonaro ao atual sistema de votação e à Justiça Eleitoral fazem parte dessa estratégia. É evidente que interessa ao presidente tratar de eleições muito antes que elas ocorram, não só porque não sabe governar, mas sobretudo porque a campanha eleitoral é seu habitat natural.

Bolsonaro criou uma próspera holding familiar para disputar e vencer eleições. Esse empreendimento desconhece limites éticos e morais – a ponto de Bolsonaro ter obrigado um dos filhos a disputar eleição contra a própria mãe do rapaz. Diante disso, rachadinha é quase um pecadilho.

Assim, é natural que Bolsonaro continue a investir pesado em sua reeleição. Sob inspiração do lulopetismo, por exemplo, quer fazer do Bolsa Família seu maior ativo eleitoral. Nem parece o mesmo político que, em 2011, disse que o Bolsa Família servia para “tirar dinheiro de quem produz e dar para quem se acomoda, para que use seu título de eleitor e mantenha quem está no poder”.

No auge da pandemia, Bolsonaro deu duro para se livrar da responsabilidade como presidente e tratou de transformar a crise em oportunidade eleitoral, ao antagonizar governadores que, segundo ele, tudo fazem para prejudicá-lo porque são, eles mesmos, candidatos à sua cadeira.

Do mesmo modo, o escândalo armado por Bolsonaro a respeito da confiabilidade das urnas eletrônicas se presta a colocar as eleições na berlinda, muito antes da hora. Usa a discussão estéril e extemporânea sobre o atual sistema de votação, já amplamente testado e aprovado, para levantar suspeitas sobre a Justiça Eleitoral e o Supremo Tribunal Federal – que estariam, segundo a teoria bolsonarista, mancomunados para favorecer seu antípoda, Lula da Silva, na eleição de 2022.

Assim, Bolsonaro invoca o fantasma lulopetista, que ainda assombra boa parte dos eleitores brasileiros, apresentando-se como o único capaz de enfrentá-lo. Na alucinação bolsonarista, essa seria precisamente a razão pela qual os petistas infiltrados nas Cortes superiores estariam tentando derrotá-lo, libertando Lula da Silva e permitindo fraudes nas urnas eletrônicas para eleger o petista.

Tudo isso é tolice, claro, não passando de discurso palanqueiro. Bolsonaro quer fazer do Brasil um prisioneiro das eleições.

Isso acarreta muitos problemas. Campanhas eleitorais, por definição, são o momento em que ideias são colocadas em contraste, muitas vezes de maneira enfática e, não raro, agressiva. Uma vez terminada a eleição, os vencedores devem tratar de governar, e isso demanda negociação política inclusive com adversários. Quando um governo não tem projeto nem tem traquejo democrático, como é o caso do atual, é vantajoso manter um confronto eleitoral imaginário, ainda mais quando do outro lado está Lula da Silva, o inimigo ideal.

Assim, quando os brasileiros deveriam estar discutindo maneiras de enfrentar o imenso desafio de recuperar o País após a pandemia de covid-19, perdem tempo e energia institucional com os delírios eleitoreiros de Bolsonaro, e isso depois de passarem anos mobilizados pelo cansativo divisionismo lulopetista. O Brasil precisa se libertar o quanto antes desse longo ciclo de demagogia e empulhação.

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