O G1 comparou o auge da pandemia em Manaus em abril e maio do ano passado com a situação atual, que é considerada como um novo surto de Covid-19, e mostra como os indicadores pioraram.
Por G1 — São Paulo
Cemitérios de Manaus em diferentes momentos de alta nas mortes por Covid-19 —
Foto: Edmar Barros_AFP; Bruno Kelly/Reuters
A situação é pior do que a registrada no auge da pandemia em abril e maio do ano passado, como mostram os dados levantados pelo G1.
Veja os destaques da comparação:
- O Amazonas registrou 3.816 novos casos de Covid-19 nesta quinta-feira (14), sendo 2.516 somente em Manaus. Foi o maior número de novos casos registrados no estado e na capital amazonense desde o início da pandemia, em março de 2020
- O número de mortes ainda não bateu o recorde, porém. Em todo o estado do Amazonas, o recorde de mortes em um dia foi de 102 no dia 6 de maio. No dia 6 de janeiro foi o recorde desse ano, com 86 mortes
- No dia 9 de maio, a média móvel de mortes por dia era de 66 casos. Nesta quinta-feira (14), era de 55
- No dia 29 de maio, a média móvel de novos casos por dia era de 1.696. Nesta quinta-feira (14), esse número atingiu seu pico com 2.080 casos por dia
- Todo o mês de abril de 2020 teve 2.128 novas internações. Esse número foi ultrapassado de 1º a 12 de janeiro, com 2.221 novas internações
- A ocupação de leitos chegou a 96% no dia 23 de abril. Por causa da expansão no número de leitos, nesta sexta-feira (15), a taxa é menor, de 90,5%, de acordo com a Secretaria Estado de Saúde do Amazonas. No entanto, o maior pronto-socorro do Amazonas, o HPS 28 de Agosto, está superlotado e parou de receber novos pacientes por volta de 13h. O Hospital Delphina Aziz, referência para tratamento de casos de Covid, também anunciou superlotação. Por conta disso, o Exército começou a montar uma enfermaria de campanha, com 60 leitos, na área externa da unidade
- Fora da pandemia, a demanda por oxigênio é, em média, de 10 mil metros cúbicos por dia. Em abril e maio de 2020, a demanda quase triplicou para 28 mil metros cúbicos por dia. Agora a demanda é de 70 mil metros cúbicos por dia, de acordo com Igor da Silva Spindola, procurador da República do Amazonas
- No dia 26 de abril foram registrados 140 sepultamentos e duas cremações. Era o recorde até então, o que causou controvérsias ao serem adotadas valas coletivas. Nesta sexta-feira (15), foram registrados 213 enterros. Desta vez, porém, a Prefeitura disse que Manaus não voltará a ter enterros em valas comuns diante do aumento de sepultamentos
A primeira onda
O fechamento do comércio foi anunciado no Amazonas, pela primeira vez, em
23 de março. Já nas semanas seguintes, o G1 flagrou a regra sendo
desobedecida nas ruas.
Os dois meses seguintes seriam os piores em relação ao números de internações e mortes por Covid. Em 10 de abril, o Hospital Delphina Aziz, referência para Covid-19, atingia
capacidade máxima de pacientes.
Uma semana depois, a Secretária de Saúde, Simone Papaiz, admitiu a possibilidade de
superlotação nos demais hospitais. "Nos últimos 10 anos, o número de leitos disponíveis no SUS já era um número insuficiente para a rede".
Ela foi presa pela Polícia Federal em uma operação que investiga desvio de dinheiro na pandemia.
"Prorrogamos o decreto de medidas restritivas até 31 de maio. Repito, seguindo orientações da OMS, do Ministério da Saúde e dos nossos profissionais da área. Com mais de 14 mil casos confirmados, é impossível flexibilizar o isolamento e restrições", disse o governador Wilson Lima (PSL), à época.
Somente neste dia foi decretado como obrigatório o uso de máscara facial.
O epidemiologista Diego Xavier, do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Icict/Fiocruz), afirma que o Amazonas tem um histórico de falta de recursos humanos e de medicamentos na área da Saúde.
Ele é um dos responsáveis por um estudo que mostrou que 40% da população do Amazonas residia há mais de 4 horas de um município com condições para tratar Covid-19.
"Manaus é um polo que concentra pessoas de vários locais, inclusive Peru e Venezuela. No início da pandemia, o que a gente deveria ter feito é adequado, de forma correta, com aumento do número de recursos", afirma.
Ele ressalta que as soluções passam também pelo programa de saúde da família e pela testagem em massa — todas elas por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), com o governo federal coordenando os poderes municipal e estadual.
"A gente não usou isso porque não tem diretriz de governo, não existe um investimento pesado em prevenção. Isso sim seria prevenção: um tratamento precoce para toda a sociedade. Se a gente encontra o paciente com Covid, isola e trata, a gente evita que a cadeia de transmissão aumente. Agora, 'tratamento precoce' com remédios sem comprovação científica não existe em lugar nenhum do mundo", diz ele.
No fim daquele mês, o governador recebeu o ministro da Saúde Eduardo Pazuello na inauguração do primeiro hospital de combate à Covid-19.
"É um esforço muito grande do governo do estado com sua equipe. Lógico que a gente apoia no que a gente consegue também, porque a logística é complicada para Manaus", disse Pazuello.
A segunda onda
Ainda em abril, Lima anunciou a reabertura do comércio a
partir do dia 1º de junho. Em setembro, o governo anunciou o retorno das aulas dentro de menos de dois meses. Para o pesquisador, esse foi um dos fatores determinantes para a subida dos casos.
Somente em dezembro, com a ocupação dos hospitais em alta, o governo voltou a propor o fechamento do comércio não essencial. O anúncio foi feito na antevéspera de Natal e passaria a valer no dia 26.
Shoppings, restaurantes e comércio não essencial só poderiam funcionar por delivery ou drive-thru. A medida foi considerada uma espécie de lockdown pela população e a Associação Brasileira se Shoppings Centers foi à Justiça para derrubá-la, mas não
teve êxito.
O então prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto (PSDB), saiu em defesa do decreto para fechar o comércio, mas criticou o governador Wilson Lima (PSC):
"Por que não fez antes?". Ele diz que o lockdown deveria ter sido implementado ainda em setembro.
No dia em que a lei deveria passar a valer, a população foi às ruas. Deputados federais ligados ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), como Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e Bia Kicis (PSL-SP), foram às redes em apoio aos manifestantes.
Já no dia seguinte, Lima recuou e revogou o decreto.
"Se nós tivermos um nível menor, abaixo de 85% de ocupação de leitos de UTI, há possibilidade de a gente aumentar a nossa flexibilização. No entanto, se a gente tiver um aumento desse percentual, a gente vai sentar pra reunir e entender quais novas decisões e restrições nós vamos adotar", disse ele.
Segundo o epidemiologista Diego Xavier, a Fiocruz alertara ao estado do Amazonas sobre a situação crítica no estado, embora estudos de outras instituições apontassem para uma suposta "imunidade de rebanho" após a primeira onda da doença.
"Manaus e Amazonas receberam, sim, esse alerta da Fiocruz dizendo que encontraríamos essa condição. Sugerimos o lockdown, mas ignoraram porque acreditaram que tinha chegado a uma imunidade de rebanho que nunca existiu. A ciência tem o tempo todo apontado o caminho, mas é atacada por politicagem. Ninguém aqui está emitindo opinião. A gente está emitindo um fato e está tendo que lidar com opiniões de políticos que não apresentam fatos, somente opiniões", queixou-se.
Também no dia 26, em meio à reabertura, o governo admitiu que
7 dos 11 hospitais particulares de Manaus tinham 100% de lotação.
Dois dias depois, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, voltou a visitar Manaus. Ele prometeu reorganizar o atendimento nos hospitais, recrutar profissionais de saúde, abrir leitos e enviar equipamentos, insumos e medicamentos.
“Minha posição aqui é de apoio. Eu sou o apoio, vou apoiá-los com minhas equipes, com tudo que vocês precisarem. E com o conhecimento que adquirimos ao longo do último ano”.
Segundo o epidemiologista da Fiocruz, já naquele dia o Governo Federal deveria ter feito o máximo para evitar a tragédia.
"A equipe do Ministério da Saúde poderia, sim, ter levantado toda essa demanda e ter sido atendida nesse momento, ou antes até. O que a gente viu foi o contrário: o incentivo a um 'tratamento precoce' que não funciona", alertou.
Xavier afirma ainda que criou-se uma falsa dualidade entre saúde e economia, mas que este é o momento de tomar medidas mais drásticas de isolamento social em várias partes do país. Caso contrário, o drama vivido em Manaus pode se repetir em outras cidades.
"A gente tinha tempos diferentes de contaminação no país em função da chegada da doença inicialmente no Rio e em Manaus, depois se espalhando no Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Agora, a gente vê a subida sincronizada de casos em todo o país. A gente perdeu a vantagem logística de poder fazer um remanejamento de pacientes. Inevitavelmente, esses estados que estão recebendo pacientes de Manaus vão ter aumento expressivo de casos".
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