Sem tempo para Bolsonaro

Por ÁUREA CAROLINA*

Não devemos perder energia com reclamação desprovida de ação. A crítica ao governo deve vir acompanhada de compromisso prático 

Eu tinha a intenção neste texto de fazer um balanço sobre o meu primeiro semestre na Câmara dos Deputados, mas mudei de ideia. Sinto que é mais urgente falar de outro assunto, uma questão que não pode esperar: o que fazer com a desolação política que anda solta pelo mundo e que pegou o Brasil de jeito? 

Parece que o portal do inferno se abriu e as criaturas mais bestiais escaparam em debandada para tomar de assalto as instituições – da família ao Estado, sem poupar ninguém. De forma perturbadora, esses incontáveis replicantes são, ao mesmo tempo, repudiados e adorados por toda parte, assim como o triste exemplar plantado na Presidência do nosso país. 

A figura de Bolsonaro causa repulsa por combinar tirania com extraordinária burrice e uma estética vexatória, e ainda assim consegue ser inacreditavelmente sedutora. Muita gente não só acha graça do seu estilo inconsequente e “autêntico” de ser, como se sente desforrada por sua performance apocalíptica. Como é possível que os grunhidos desses seres das trevas ainda recebam tanta adesão? Não somos melhores do que isso? 

O Bolsonaro mitificado é perfeito na sua síntese ignóbil, mas seus semelhantes humanizados costumam ser mais complexos e contraditórios. Nem mesmo o senhor Jair Messias, a pessoa física, está à altura da sua versão icônica. O problema é que, na vida real, todo mundo pode ter um pouco de Bolsonaro. Como lidar? 

Tenho insistido que desumanizar Bolsonaro e sintetizá-lo exclusivamente na sua projeção simbólica é um equívoco que alimenta a abominável criatura. Isso é válido para os ídolos e salvadores da pátria, até para aqueles que amamos de coração, sobretudo em uma sociedade de culto personalista e raízes autoritárias como a nossa. Não é difícil explicar a eclosão de Bolsonaros, Trumps e afins em um planeta cada vez mais controlado por sistemas globais de ganância, opressão, ódio e concentração do poder. No contexto brasileiro – não custa lembrar: um país de origem colonialista, patriarcal, racista, etnocida, desigual –, difícil é não ter uma pontinha bolsonarista, nem que seja lá na profundeza da alma. Vasculhando bem, toda pessoa honesta é capaz de encontrar a sua parte nesse latifúndio. 

O QUE ESTAMOS FAZENDO PARA MUDAR AS COISAS? OU ESPERAMOS QUE O INCONFESSÁVEL BOLSONARO QUE MORA DENTRO DE NÓS DESAPAREÇA POR MILAGRE? 

Em certas bolhas, porém, relutamos contra isso. Desejamos ser melhores do que um tosco replicante e não queremos ser desprezíveis. Temos pavor de ver o pior que podemos ser refletido no espelho do mito. Sentimos náusea ao imaginar cenas de tortura, estupro, escárnio, humilhação; às vezes, reconhecemos que temos privilégios e os utilizamos para que deixem de ser privilégios; tentamos ter empatia por pessoas que sofrem. Estamos cada vez mais adestrados por condicionantes emburrecedores, é verdade, mas estamos em busca de autonomia e propósito para as nossas vidas. 

Vários de nós fizemos pela primeira vez um exercício de cura da pulsão bolsonarista – à qual, talvez, chegamos a entender que não somos imunes – na saga do “vira voto”, durante o segundo turno das eleições de 2018. Calçamos as sandálias da humildade e fomos a campo para uma conversa desarmada com parentes, um café com bolo com transeuntes na rua, uma roda de desabafo e a criação de propostas de ação com amigos desesperados. Foi preciso sair da lamentação, assumir nossa parcela de responsabilidade e fazer algo que estava ao nosso alcance: dialogar abertamente com os outros. Quem passou por essa experiência sabe da sua potência. Já era tarde para virar o jogo eleitoral, mas não foi em vão. 

Para quem vive num constante “vira voto”, atuando sem descanso em lutas sociais e iniciativas comunitárias, o fenômeno do segundo turno não foi nada surpreendente, mas reafirmou a importância do chamado trabalho de base. Para quem tinha se distanciado desse trabalho ou nunca tinha se engajado, foi uma chance valiosa de colocar a mão na massa. 

Falamos em trabalho de base porque é um saber-fazer dedicado a conectar as pessoas a partir de necessidades e ações comuns, desde os mais diversos territórios, para melhorar suas condições de vida. Não acontece de qualquer jeito, mas pode e deve envolver simplicidade e pequenos gestos, começando pela disposição existencial de ser útil. Mudanças duradouras são sustentadas pela multiplicação de ações coletivas que fazem diferença no cotidiano e geram meios subjetivos e materiais para a retomada da democracia, como de fato ocorreu no processo de redemocratização da sociedade brasileira na saída da ditadura civil-militar. 

Temos visto muita gente reclamando do Bolsonaro e seus infindáveis absurdos. Quase não dá para respirar. Mas acho que não temos mais tempo e energia a perder com tanta lamúria desprovida de ação. A imprescindível crítica ao desgoverno, no meu entendimento, precisa ter uma pegada “vira voto”, com compromisso prático. Sem esse caráter propositivo, a nossa desolação tende a se converter em fonte de alienação e adoecimento, como já se pode constatar. Então, o que estamos fazendo para mudar as coisas? Ou esperamos que o inconfessável Bolsonaro que mora dentro de nós desapareça por milagre? 

Bolsonaro é sintoma e consequência de uma cultura política da morte, extremamente individualista e competitiva. O bolsonarismo, nesse sentido, existe antes e depois do mito. Seu contraponto, portanto, deve ser uma cultura política para todo mundo viver bem, que seja decididamente solidária e que construa o amor como capacidade democrática. A convivência na diversidade, sempre muito desafiadora, é critério para essa transformação. Não por acaso, Bolsonaro investe na degradação das relações e na perseguição às diferenças. 

Um antídoto poderoso, com certeza, vem das tarefas de convívio e ativismo: cuidar de uma praça, fazer um cineclube, organizar um cursinho ou uma creche, apoiar movimentos populares, ocupar as eleições… Não é pouca coisa. É preciso se dar ao trabalho. 

*Áurea Carolina foi eleita deputada federal pelo PSOL de Minas Gerais em 2018. Antes disso, foi a vereadora mais votada de Belo Horizonte em 2016. Integrante da movimentação cidadanista Muitas, atua em movimentos sociais desde a adolescência e é formada em ciências sociais pela UFMG, onde também concluiu mestrado em ciência política. Além disso, fez especialização em gênero e igualdade pela Universidade Autônoma de Barcelona.

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