O trabalho infantil é algo que não se discute. Se destrói

Carta Capital


O verdadeiro espírita é contra o trabalho infantil: a única opção moralmente possível é repudiar

“Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más.” Allan Kardec, O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVII, 4

“É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.” Art. 4º do ECA

“Em verdade eu vos digo: o que fizestes a um dos menores destes meus irmãos a mim o fizestes.” Mateus 25:40

“Hoje é meu primeiro dia de trabalho no Centro de Referência para Crianças e Adolescentes em Situação de Rua – Da rua pra vida cidadã. O projeto funciona em um sobrado alugado no bairro de São Mateus, extremo leste da cidade de São Paulo. Fui recepcionado por alguns educadores e por alguns meninos e meninas que estavam na sala de TV. A casa cheira produto de limpeza. Ouço, vindo da cozinha, o barulho da panela de pressão. A cozinheira já está preparando o almoço. Ouço gritos e vejo aqueles mesmos educadores que estavam há pouco na sala de TV, correndo em direção ao quintal. Dois meninos estão em cima da casa. Rostos cobertos, igual eu já tinha visto quando trabalhei na Febem. Observo. A educadora pede para descerem. Eu também peço. Eles avisam que não vão admitir novo diretor na casa. Aviso que aquele é um jeito muito ruim de iniciarmos uma relação e peço novamente para descerem. Após muita insistência, atendem aos pedidos. Sentamos todos em roda, me apresento. De tarde, a educadora diz que eles fizeram para me testar e que tinham visto aquela cena na televisão. Concordo.” 24 de setembro de 2005

“Ida à rua: reconhecimento dos locais e para que os meninos/as me conheçam. Os pontos são: Largo São Mateus, Praça da Igreja, Mateo Bei e Feira do Rolo. No Largo São Mateus conheço Vinicius, Ni, Malaquias (nomes fictícios), e outros que ainda não sei dos nomes. Fico sabendo que Jessica (nome fictício) está grávida e que também está morando no mocó na Avenida Sapopemba.“ 2 de outubro de 2005

“Compreendo a necessidade de tomar notas sobre o dia a dia do trabalho no centro de referência e na rua. Já é hábito antigo meu, vindo de outros trabalhos. A velocidade com que as situações acontecem não me permitiria ter gravado na memória fatos que precisam ser registrados. Porém, em muitos momentos não será possível ter essas notas com assiduidade diária e sei que serão vários os motivos a justificarem isso.” 28 de outubro de 2005

“Já estou mais familiarizado. Tomamos café todos/as juntos/as. As crianças e adolescentes já estão mais acostumadas com minha presença na casa. Hoje Tom e Kélly queriam entrar com produtos de roubo. Foram proibidos. Suas educadoras de referência foram levá-los até suas casas. Eles confessaram que foram obrigados a moquiar. Pediram desculpas, pois sabem que violaram uma regra da casa. A mãe da Bruna (nome fictic foi presa.” 16 de novembro de 2005

“Cadastramos mais 32 crianças no PETI (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil). As crianças reclamaram que estão apanhando na rua, perto do largo. Disseram que os comerciantes contrataram seguranças. Algumas delas estão indo para Santo André pedir ou limpar vidros dos carros. Época de Natal as pessoas costumam doar mais.” 13 de dezembro de 2005

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Após almoçar na casa da minha mãe, vasculhei algumas gavetas e resgatei essas memórias escritas num caderno que havia ficado em sua casa. Esse tinha sido o assunto no almoço.

Tenho sofrido demais com a quantidade de crianças e adolescentes que vejo, novamente, em situação de rua, pedindo, trabalhando ou morando nela. Achei que tivéssemos superado tudo isso em meados de 2007. Mas a fome voltou. A pobreza e a miséria voltaram.

E na semana em que celebramos 29 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, verdadeiro marco na proteção legal deste grupo vulnerável, ver um presidente incentivando o trabalho infantil, além de desumano, é a prova que eu estava errado em minha análise. Estamos retrocedendo.

Bolsonaro defendeu, como porta voz da Casa Grande, o trabalho infantil: “O trabalho dignifica o homem e a mulher, não interessa a idade”. “Não fui prejudicado em nada” declarou ele ao contar que, aos 9 anos, trabalhou em uma fazenda colhendo milho. Fato que logo foi desmentido pelo irmão.

Na sua rabeira, outros políticos e figuras públicas disseram ter trabalhando quando criança, ora no escritório de advocacia de seus pais, ora vendendo brigadeiros para pagar suas aulas de tênis.

Em meados de 2005, coordenei um centro de referência para crianças e adolescentes que viviam, conviviam, moravam ou que trabalhavam nas ruas de São Paulo. Lembrei do período em que atuávamos nas ruas da capital, desenvolvendo atividades lúdicas, aproximando-se dessas crianças, ganhando confiança para, gradativamente, tirá-las daquela situação.

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Éramos um grupo de educadores/as que abordavam meninos e meninas, identificavam suas famílias e ofereciam outras oportunidades que não aquela arriscada, insalubre, danosa e perigosa. Nosso objetivo era retira-las da situação de trabalho. Algumas delas aliciadas pelo narcotráfico, exploradas sexualmente, ameaçadas. Cadastrávamos essas famílias no PETI, que logo em seguida se unificaria no Bolsa Família.

Hoje, quase doze anos após, basta uma breve caminhada pelas ruas, das periferias aos grandes centros das cidades brasileiras, para verificarmos o aumento das desigualdades sociais e com ela a volta da comiseração pública desses pequenos cidadãos. Geralmente em grupos, acompanhados por adultos ou por outras crianças, passam boa parte do dia pedindo, limpando vidros de carros, vendendo balas ou fazendo malabares.

Muitas crianças abandonam as escolas para se aventurarem nos semáforos das grandes metrópoles. Na zona rural, algumas crianças, desde cedo, trabalham nos canaviais, na mineração, nas carvoarias, entre outras atividades, sendo brutalmente exploradas.

O trabalho infantil é uma grave violação aos direitos humanos e herança nefasta da escravidão. Não é uma questão de opinião, é crime e a única opção moralmente possível, é repudiar. O trabalho infantil não se discute, se destrói.

Nós espiritas, temos a obrigação de combater todos os tipos de trabalho infantil, seja onde e como for.

Que possamos, antes de fazer a nossa oferta, irmos ao encontro de quem mais precisa, nas ruas, onde há muita criança precisando de conforto e apoio de toda natureza, abrindo nossas mentes e nossos corações às verdades celestiais e ajudando na construção de um Brasil mais justo, igualitário e inclusivo.

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