Lula e a dor inominável do herói trágico: expresso aqui a minha solidariedade e explico por que o faço também por mim

Por Reinaldo Azevedo

Destruído pela dor, Lula deixa o velório do neto Arthur, de apenas sete anos

Há milhões de brasileiros sofrendo neste exato momento pelas mais variadas razões. Podemos vislumbrar a dor de Lula porque ele é uma figura pública. Quem conhece a estrutura da tragédia clássica — recomendo aos que ignoram o assunto uma pesquisa — constata: ninguém jamais experimentou no Brasil, como ele, todos os relevos da vida do herói trágico. Já neste ponto, um desses idiotas do dedo rápido, sem nem o cuidado de abrir uma janela e procurar no Google o sentido da expressão “herói trágico”, sai vociferando: “Olhem o Reinaldo chamando Lula de herói…” A besta ao quadrado não se dá conta de que herói, na acepção de que trato, é um termo carregado de ambivalências.

Como acontece sempre, Fernando Pessoa sintetizou melhor do que outro qualquer o sentido do destino heroico, nesse particular sentido, no segundo poema de “Mensagem”:

Os Deuses vendem quando dão.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!

Baste a quem baste o que lhe basta
O bastante de lhe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.

Foi com desgraça e com vileza
Que Deus ao Cristo definiu:
Assim o opôs à Natureza
E Filho o ungiu.

Não estou aqui a fazer uma leitura política do acontecimento doloroso que colheu a família de Lula, com a morte do menino Arthur, seu neto, de apenas sete anos. Enveredar por esse caminho seria reduzir a dor do avô, do pai, da mãe, dos familiares. Expresso a solidariedade de quem, sendo pai e avô ainda futuro, sente no peito a angústia insuportável só de imaginar o que nem digno de imaginação deveria ser.

Reitero: não há política aqui. Quando quero e acho pertinente, faço esse debate. Vivemos tempos de um notável emburrecimento. Lamento que idiotas convictos achem incompreensível que eu possa ser um adversário intelectual — nunca “adversário político” porque não faço política — do petismo e afirme, sem ambiguidades, que Lula foi condenado sem provas. E, por óbvio, sempre aceito a contestação: mas então que indiquem as páginas da sentença de Sérgio Moro — o juiz da condenação e hoje ministro do presidente com quem Lula não pôde concorrer em razão da condenação do juiz que virou ministro… — em que elas estão listadas. Ninguém o fará porque as provas não estão lá. “Disse que não trataria de política, mas está tratando, né?” É só para deixar claro que não fujo ao tema. Volto ao eixo deste post.

É verdade! Lula não é o primeiro a passar por essa dor. Todos os dias avôs perdem netos no Brasil. E não temos a chance de nos comover ou nos solidarizar porque não ficamos sabendo. Esse caso, envolvendo o menino Arthur, ganha relevo por ser o avô quem é. Usar, no entanto, os sofredores anônimos como justificativa para a impiedade, para a falta de empatia, é moralmente asqueroso. Há mais: manifestações detestáveis nas redes sociais assombram pela crueldade, pela estupidez, pela violência retórica.

Subjacente aos comentários indecentes, há o suposto combate à corrupção. Quem quer viver num mundo comandado por pessoas que, na pele de defensores implacáveis dos bens públicos, celebram a morte de uma criança porque também esse evento seria mais um justo castigo ao avô? Quem quer ter um Eduardo Bolsonaro como guia do seu humanismo? O seu tuíte restará como um emblema destes tempos. Escreveu: “Lula é preso comum e deveria estar num presídio comum. Quando o parente de um outro preso morrer, ele também será escoltado pela PF para o enterro? Absurdo até se cogitar isso. Só deixa o larápio em voga posando de coitado”.

Comentei a barbaridade no programa “O É da Coisa”. E disse a verdade ao afirmar que, ao ler tal mensagem, não senti repúdio intelectual apenas, mas também ânsia de vômito. Não era metáfora. Não era hipérbole. Era vontade de vomitar. Não que ele fizesse feio diante do pai. Indagado, certa feita, se achava que Dilma terminaria o mandato, Bolsonaro afirmou: “Eu espero que acabe hoje, infartada ou com câncer, de qualquer maneira”. Ah, claro, ele fez essa afirmação porque estaria preocupado com o Brasil.

Ignorar a dimensão profundamente humana da tragédia familiar não concerne à política, mas à psicologia. Só posso lhes dar um conselho, leitores: mantenham distância de pessoas assim. É bem provável que sejam psicopatas. A ignorância política tem cura; a psicopatia não.

Que Lula encontre força para se levantar, qualquer que seja o destino que lhe reserve a Justiça.

Sim, há muitas pessoas que sofrem. Lula é hoje uma pessoa que sofre como poucas.

Tem a minha solidariedade. Sim, eu a expresso aqui por ele e por sua família, ainda que lhes possa ser irrelevante. Mas faço isso também por mim.

Porque há um momento em que só podemos ser salvos pela compaixão.

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