A deturpação da notícia e a cultura do patriarcado

Por Paula Roberta Santana Rocha

O jornalismo é um terreno minado e perigoso. É multifacetado e polissêmico, podendo transformar antigas concepções enraizadas na cultura e na história, e ao mesmo tempo reproduzir estereótipos, clichês e discursos ideológicos revestidos de verdade, contribuindo na manutenção dessas concepções. O trabalho de construção de uma notícia possui inúmeros vieses os quais podem ser observados por meio de fatores como a característica do veículo de informação, a natureza da notícia, o posicionamento ideológico do jornal e do jornalista, as rotinas de produção, dentre outros, as quais são denominados de valores-notícia.
A recente manchete publicada no site de notícias da Record, o R7, logo na semana de comemoração do Dia da Mulher, provocou uma onda de críticas e uma discussão acalorada nas redes sociais graças à deturpação do fato ocorrido. Deturpação essa que traz consequências graves não só à personagem vítima da história, como também no que se refere à luta contra a violência contra a mulher.
O título da manchete traz a seguinte afirmação: “Jovem tem 80% do corpo queimado após ser flagrada na cama com o cunhado”. Uma simples interpretação do título da notícia já nos diz que a vítima foi culpada por ter sido queimada pelo namorado já que foi flagrada na cama com o cunhado, em ato de traição. Absurda como se apresenta, a manchete nada mais é que uma mentira criada para atrair cliques na página, já que o texto da notícia e o vídeo da reportagem exibido no programa Cidade Alerta e na própria reportagem do site dizem outra coisa:
Durante um churrasco de carnaval, Isabela passou mal e foi se deitar em um dos quartos da casa onde estava hospedada. Horas depois, o namorado da jovem flagrou o cunhado sem roupa na mesma cama. Irritado e sem entender a situação, ele começou uma briga. Isabela tentou fugir, mas foi surpreendida por uma emboscada: um colchão em chamas preparado pelo próprio namorado. A jovem teve 80% do corpo queimado.
Os olhares estereotipados, estandardizados e massificados acerca de determinados assuntos (principalmente os que envolvem polêmica), classes sociais ou gêneros, além da constante espetacularização da notícia são comuns no jornalismo praticado nos dias atuais. Embora se saiba que o jornalismo seja essencial para o fortalecimento da democracia, atuando como vigilante do poder, denunciador das mazelas sociais e para o desenvolvimento da cidadania, ele também apresenta um duplo caráter, que se contrapõe aos aspectos acima mencionados.
A naturalização de práticas socioculturais enraizadas no discurso midiático (e aqui incluo o jornalismo, a propaganda, as narrativas audiovisuais etc.) vincula-se à cultura do patriarcado que coloca a imagem masculina acima da feminina, em que o homem está em posição de poder e domínio sobre a mulher. Neste, a mulher é vista como o sexo frágil, e qualquer violência que sofra por um homem, seja ela física, sexual ou psicológica sempre será sua culpa, pois as atitudes da mulher é que levaram o homem a praticar tal ato.


O discurso jornalístico dos grandes meios de comunicação de massa, ao reproduzir de modo sutil ou não os estereótipos negativos sobre a mulher, coloca muitas vezes o agressor na posição de vítima (apresentando motivos para as ações violentas) e culpando a vítima sobre a própria violência sofrida (responsabilizando a vítima pelas ações do agressor) mostrando uma tremenda irresponsabilidade e falta de humanidade para com o outro.
Ao criar uma manchete falsa para atrair a audiência (o que já se configura como um ato grave), o título da notícia traz outro agravante que é o de desmoralizar a vítima socialmente, colocando-a como culpada, dando a entender que o fato de o namorado atear fogo sobre ela foi sua culpa por ter sido pega na cama com o cunhado.
Mesmo havendo uma maior rigidez nas leis que buscam punir os agressores, há um aumento significativo nos casos de feminicídios e violência contra as mulheres no Brasil e a dificuldade de punir os agressores, proteger as vítimas e evitar os atos de violência torna a luta contra a violência uma árdua batalha, na qual diversos setores da sociedade precisam ser mobilizados, não podendo se restringir apenas ao âmbito jurídico.
Sendo assim, é preciso que jornalistas e veículos de informação sejam responsabilizados pelas notícias que divulgam. Não se pode mais aceitar esse tipo de enquadramento que coloca a mulher em situação ainda pior à qual ela se encontra.
A mobilização das redes sociais é aliada que tem feito grande diferença no combate à violência contra a mulher, mas não pode ser a única. O poder das mídias para o desmantelamento de estruturas sociais vigentes deve ser visto como relevante, já que elas têm um papel formativo e influenciador na opinião pública e, em conjunto com o Estado, setores da sociedade civil, ONGs, entre outras, pode mudar o cenário da violência contra a mulher no Brasil.
Observação: Após a publicação da manchete no dia 06 de março de 2019 e, em consequência da uma forte crítica e mobilização nas redes sociais, o site atualizou a notícia no outro dia, mudando o título para: “Mulher passa mal, é abusada pelo cunhado e torturada pelo namorado”.
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Paula Roberta Santana Rocha é professora, jornalista e pesquisadora.

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