Pendurado nas manchetes de ponta-cabeça, o senador eleito Flávio Bolsonaro concedeu um par de entrevistas para restabelecer "a verdade" sobre o pedaço do seu movimento bancário que o Coaf considerou suspeito (veja aqui e aqui). O primogênito do presidente da República brandiu documentos. Mas se negou a entregá-los. Recusou-se até mesmo a folhear a papelada diante das câmeras. De resto, sonegou à plateia um esclarecimento singelo: por que despreza a transferência bancária eletrônica?
O Coaf farejou na conta do neo-senador 48 depósitos no valor de R$ 2 mil entre junho e julho de 2017, totalizando R$ 96 mil. Flávio declarou que a verba tem duas origens: rendimentos que obteve como empresário e a venda de um apartamento que teve parte do valor liquidado em dinheiro vivo. Os depósitos foram feitos no caixa eletrônico de uma agência bancária que funciona no prédio da Assembléia Legislativa do Rio, onde o agora senador exerceu o mandato de deputado estadual.
Segundo Flávio Bolsonaro o fracionamento foi necessário porque o caixa eletrônico do banco não aceita depósitos superiores a R$ 2 mil. Faltou explicar por que diabos a transação não foi feita no interior da agência, onde inúmeros caixas de carne e osso recebem depósitos integrais. Faltou também uma justificativa para essa estranha predileção pela forma mais primitiva de transferência de valores.
No mundo das pessoas convencionais, ninguém sai carregando grana graúda pelas ruas de uma cidade como o Rio de Janeiro. Noutros tempos, havia o bom e velho cheque. Hoje, como sabem até as crianças de cinco anos, existe a TED, sigla que identifica a 'Transferência Eletrônica Disponível'.
Trata-se da forma mais rápida e segura de enviar valores de uma conta bancária para outra. Com uma vantagem: o nome do depositante aparece nos registros oficiais, reduzindo as chances de órgãos como o Coaf e o Banco Central enxergarem indícios de má-fé e lavagem de dinheiro nas transações financeiras.
Além dos depósitos picados, o Coaf mencionou em relatório entregue ao Ministério Público do Rio de Janeiro pagamento de R$ 1.024 milhão feito por Flávio à Caixa Econômica Federal. Segundo o filho mais velho de Jair Bolsonaro a cifra se refere ao financiamento para a compra de um apartamento. O mesmo imóvel que ele venderia depois por R$ 2,4 milhões —parte em moeda sonante. A propósito, o ativismo imobiliário é uma marca do senador.
Flávio recusou-se a exibir as suas "provas" sob a alegação de que a imprensa não é o foro adequado. Disse esperar que o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo, decida se ele deve se explicar aos promotores do Rio ou à Procuradoria-Geral da República, em Brasília. Lorota. Em verdade, o novo senador busca o escudo do foro privilegiado e sonha com uma decisão da Suprema Corte que anule as evidências colecionadas pelo Ministério Público contra ele e seu ex-assessor Fabrício Queiroz.
Nas palavras de Flávio, o que ocorre no Ministério Público fluminense não é uma investigação, mas uma "perseguição". Busca-se, segundo ele, "atingir o presidente da República." Mantido esse discurso, será difícil distinguir o filho de Jair Bolsonaro de encrencados como Michel Temer, Aécio Neves e Lula. Na era do dinheiro transportado em malas, mochilas e caixas eles têm em comum a mesma aversão à TED e uma certa mania de perseguição. Exibem também uma idêntica presunção de que falam para um país de bobos.
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