Os 113 milhões de Paulo Preto são uma ameaça ao PSDB paulista?

Quantia encontrada em conta na Suíça de ex-executivo da Dersa nos governos de Alckmin e Serra pode favorecer delação contra tucanos

Da Carta Capital

Roberto Barroso / ABr e Jefferson Rudy / Agência Senado
Serra e Nunes Ferreira são investigados por desvios em obras do Rodoanel

Apontado como operador do PSDB de São Paulo, Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto, chegou a ter 113 milhões de reais em quatro contas na Suíça em 2016. A revelação foi feita por integrantes do Ministério Público do país europeu, que compartilharam espontaneamente a descoberta com as autoridades brasileiras.

A existência de contas em nome do ex-diretor da Dersa, órgão paulista responsável por obras rodoviárias do estado, não é uma novidade. O fato novo são os valores movimentados, que podem favorecer uma delação de Vieira de Souza sobre sua relação com o PSDB paulista no âmbito da Lava Jato.

Caso isso ocorra, o principal atingido deve ser o ex-governador e senador José Serra, mas também pode sobrar para Aloysio Nunes Ferreira, seu sucessor no Ministério das Relações Exteriores. Embora Vieira de Souza tenha ocupado um cargo relevante na Dersa durante o governo de Geraldo Alckmin, o presidenciável tucano não é alvo das investigações envolvendo o ex-diretor, ao menos por ora.

A proximidade de Serra com Paulo Preto foi exposta durante a campanha de 2010. Em um debate na TV Bandeirantes, a então candidata Dilma Rousseff questionou o tucano sobre a denúncia, divulgada inicialmente pela revista Istoé, de que Vieira de Souza tinha fugido com 4 milhões de reais da campanha do PSDB. À época, Paulo Preto ameaçou: "Não se larga um líder ferido na estrada a troco de nada. Não cometam esse erro." 

Embora ferido, o ex-executivo dos governos tucanos ainda não abriu o bico para a Justiça. Em janeiro deste ano, Paulo Preto pediu a Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal, que suspendesse o acordo de cooperação internacional entre o Ministério Público Federal e a Suíça. Ele pediu ainda que três investigações das quais é alvo em São Paulo fossem transferidas para o gabinete de Mendes.

Ao longo do ano passado, a mídia relatou o interesse do ex-diretor da Dersa em fechar um acordo de delação sobre os desvios relativos às obras do Rodoanel em São Paulo. Em dezembro, seu advogado, Daniel Bialski, afirmou, porém, ao jornal Folha de S.Paulo que seu cliente "não propôs e não têm motivo para fazer delação", pois provaria sua inocência. Com as novas revelações da Suíça, Paulo Preto pode mudar de ideia.

Um dos inquéritos que Paulo Preto tenta enviar ao STF versa sobre o suposto envolvimento de Serra em fraude do processo licitatório associado à construção do Rodoanel Sul, em São Paulo. O inquérito 4428 é baseado nos depoimentos de Arnaldo Cumplido de Souza Couto, Benedicto Barbosa da Silva Júnior, Carlos Armando Guedes Paschoal, Luiz Eduardo da Rocha Soares, Roberto Cumplido, Fábio Andreani Gandolfo e Pedro Augusto Ribeiro Novis, todos executivos da Odebrecht.

Em 2007, quando era governador, Serra publicou um decreto renegociando os contratos mantidos pelas empresas com o poder público. Paulo Preto, diretor da Dersa na época, teria pedido 0,75% do valor recebido por cada empresa.

A Odebrecht teria atendido o pedido e destinado 2,2 milhões de reais a uma offshore ligada a Amaro Ramos, operador do PSDB. Segundo o documento, os repasses cessaram "após investigações implementadas pelo Ministério Público Federal e Tribunal de Contas da União, que concluíram pela ilegalidade das alterações contratuais".

Iniciada com a delação da Odebrecht, a investigação sobre as obras do Rodoanel tomou corpo recentemente. Na sexta-feira 16, foram revelados os depoimentos de Carlos Henrique Barbosa Lemos, ex-presidente da OAS, e de Flávio David Barra, ex-presidente da Andrade Gutierrez Engenharia. Eles disseram que as empreiteiras criaram um "grupo de trabalho" que ajudou a elaborar o edital do Rodoanel Sul. 

Em depoimento em agosto de 2017, Lemos afirmou que foi orientado pela Andrade Gutierrez sobre a necessidade de pagar 30 milhões de reais para o então secretário de transportes paulista, Dario Rais Lopes. Segundo o depoimento, a quantia seria destinada à campanha eleitoral do PSDB. 

Em janeiro deste ano, Serra foi acusado por Pedro Novis, ex-presidente da Odebrecht entre 2002 e 2008, de receber 52,4 milhões de reais em propina da empreiteira. Novis narrou dois encontros em 2009 com Sérgio Guerra, ex-presidente do PSDB. Em um deles, Guerra teria solicitado os 30 milhões de reais para o financiamento de campanhas tucanas.

Novis, por sua vez, teria condicionado a propina à liberação de 170 milhões de reais em créditos antigos da Construtora Odebrecht com a Dersa. Naquele ano, Paulo Preto era diretor da empresa controlada pelo governo. Segundo Novis, Serra obteve 23,3 milhões de reais no acordo.

Serra diz que não cometeu nenhuma irregularidade e que suas campanhas foram conduzidas pelo partido de acordo com a lei. Para ele, a abertura do inquérito servirá como oportunidade de demonstrar essas afirmações e a lisura de sua conduta.

Acusações relativas a obras do Rodoanel também atingiram Aloysio Nunes Ferreira, atual ministro das Relações Exteriores. Um dos delatores da Odebrecht, Carlos Armando Paschoal, conhecido como CAP, afirmou que Nunes Ferreira recebeu 500 mil reais em caixa dois da empreiteira. O delator afirma ter sido procurado pelo tucano em meio a negociações da Odebrecht com a Dersa relativas a aditivos contratuais na obra do Rodoanel.

O ministro admite ter se encontrado com CAP e feito um pedido de apoio financeiro para a campanha de 2010, mas nega qualquer irregularidade.

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