Deflação para inglês ver: vida real desmente o governo e castiga o cidadão

Perguntem na padaria, no supermercado, para o pai de família, para a mãe que sustenta sozinha cinco filhos, o que é deflação


Estado de Minas

Leite subiu 25%
(foto: pixabay)

Medidas e estatísticas fazem parte do nosso cotidiano, desde que deixamos as cavernas e passamos a nos organizar como sapiens. Ao longo de mais de 200 mil anos, a humanidade desenvolveu, além da fala e da escrita, habilidades matemáticas diversas.

Somos o que somos e seremos o que seremos graças aos números. Devemos a essa criação tudo o que nos rodeia, da mais simples xícara de café ao mais complexo implante ocular, ou cardíaco, instalado em nosso corpo, passando pelo teclado em que escrevo.

Números e medidas são algumas das mais brilhantes invenções humanas. O tempo, por exemplo: sem ele, estaríamos relegados à desordem e ao caos. Como poderíamos nos orientar e viver, sem segundos, minutos, horas, dias, meses e anos?

Porém, no campo biológico, na vida estritamente física, o tempo pouco importa. Iremos nascer, crescer, viver e morrer independentemente da contagem do relógio ou do calendário. Nossas células, tecidos e órgãos não estão nem aí para essas coisas.

O PAPEL ACEITA TUDO

São os números, portanto, o verdadeiro deus onipresente de nossas vidas. Para o bem e para o mal, aliás. Podem retratar a verdade e nos guiar pelo bom caminho, ou podem mentir, dissimular e conduzir-nos pelo vale da morte. Criador e criatura determinam o rumo.

Há uma velha máxima que diz: ‘o papel aceita tudo’. Sim, é verdade. Uma folha em branco, ou uma tela de computador vazia, podem ser preenchidas a gosto do autor. Torcendo, retorcendo e distorcendo, números e dados podem ser espancados como quisermos.

Outra velha máxima diz: ‘para o otimista, o copo está meio cheio. Para o pessimista, o copo está meio vazio’. Subjetividade não é meu forte, mas tendo a dar certa razão ao enunciado. Ora, como os números, a realidade, ainda que erroneamente, pode ser manipulada.

Pessoalmente, prefiro uma abordagem mais racional, mais pragmática das coisas. Quando compro algo à vista, com desconto, não penso que economizei algum dinheiro, mas, sim, que gastei um pouco menos. Parece a mesma coisa, eu sei, mas garanto… não é.

INFLAÇÃO

O governo comemorou a deflação (queda de preços) anunciada pelo IBGE: 0,68% em julho. Com isso, o IPCA (a inflação oficial) acumula alta de 10% em um ano. É para comemorar? Bem, depende. É a história do copo. Para uns, está meio cheio. Você é quem manda.

Em um cenário de alta generalizada e constante de preços, como vimos experimentando há dois anos seguidos, é uma ótima notícia, sem dúvida. Agora, comemorar é outra coisa. Até porque, meus caros e caras, é uma situação, digamos, artificial, produzida na marra.

O índice só foi possível graças às medidas de redução de impostos dos combustíveis e da energia elétrica. O efeito, portanto, é passageiro. Os alimentos, por exemplo, estão ‘nem te ligo, farinha de trigo’, e continuam subindo feito os foguetes do Elon Musk.

O leite disparou 25%. Os serviços também subiram. Lazer, idem. As passagens aéreas decolaram como os aviões. Ou seja, no dia a dia, a carestia não deu trégua e continua nos castigando sem dó nem piedade; sobretudo as pessoas e famílias de renda mais baixa.

REALIDADE

Vou fazer uma pergunta meramente retórica, pois a resposta eu sei de cor e salteado - por experiência própria: suas contas, leitor amigo, leitora amiga, diminuíram ou aumentaram em julho? Aluguel, condomínio, escola dos filhos, cerveja, picanha, salão, arroz, feijão, frango?

Pergunto ainda: a inflação projetada pelo governo, para 2022, é de pouco mais de 7%. Você sente que é ‘só’ isso mesmo ou seus custos subiram muito, mas muito mais? Então. Entendem agora quando eu lembrei que o papel aceita tudo?

Os índices oficiais, como o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), são corretos e refletem cálculos matemáticos reais. Nada de ficção ou manipulação. Servem como referência para um monte de operações financeiras importantíssimas etc...

Porém, como sabemos, não refletem a penúria diária pela qual passamos. Como se diz por aí: ‘o buraco é mais embaixo’. E o buraco da conta dos brasileiros se encontra verdadeiramente muito mais embaixo, haja vista os 78% de famílias endividadas.

CAUSA X EFEITO

Pior. Mais de 67 milhões de brasileiros estão inadimplentes, com os nomes sujos. Mais de 30 milhões estão passando fome. Outros 125 milhões se encontram em estado de insegurança alimentar. Desculpem-me os otimistas, mas meu copo está muito mais do que meio vazio.

A inflação brasileira tem causas estruturais que vão muito além das pandemias e das guerras. O rombo fiscal está na origem crônica da nossa carestia. O governo gasta muito mais do que nos rouba e precisa se financiar para manter a farra toda intocada.

Com isso, ou emite moeda e aumenta a inflação, ou se endivida, precisando pagar juros cada vez maiores, e… aumenta a inflação! O governo Bolsonaro ultrapassou o teto de gastos em mais de 210 bilhões de reais. A dívida pública atual é de 6 trilhões de reais.

Não à toa nossos juros (13,75%) serem o terceiro maior (nominalmente falando), atrás apenas da Argentina e Turquia, e o primeiro do mundo em termos reais (8,52%). Para se financiar, o governo precisa pagar um prêmio (juros) cada vez mais alto.

Por isso sou pessimista e insisto que a tal deflação é passageira. O País não possui poupança interna e conta com baixíssima produtividade, elevado endividamento e um déficit fiscal primário insustentável. Não há inflação baixa com tantos maus indicadores.

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