Bolsonaro se vitimiza e demonstra ciúmes do tratamento dado a Marielle


Jair Bolsonaro, presidente da República
Imagem: Andre Borges/NurPhoto via Getty Images

Com muito atraso, parte dos veículos de comunicação retirou seus jornalistas da porta do Palácio do Alvorada, onde eram diariamente insultados pelo presidente da República e ameaçados por sua claque de fãs. Constatando a ausência, Jair Bolsonaro afirmou nesta terça (26): "estão se vitimizando".

Desde o início de seu mandato, ele transformou jornalistas em inimigas, difamando-as nas redes sociais, jogando suas milícias digitais sobre elas e suas famílias, atacando-as diretamente, tornando a vida delas um inferno. O uso do feminino é proposital porque seus alvos prediletos são jornalistas mulheres.

Portanto, seria apenas mais uma dose de cinismo servida pelo mandatário, se não tivesse resolvido fazer uma sessão de terapia.

"Quando levei a facada, eles não falaram nada. Não vi ninguém da Folha falando 'quem matou o Bolsonaro?' Pelo contrário, levo pancada o tempo todo. Se for pegar o número de horas que a Globo fez para Marielle e no meu caso, acho que dá 100 para um, mas tudo bem", disse.

Primeiro, é necessário lembrar a Bolsonaro que ele não morreu. Claro que parece que sim pela ausência de um líder para a articulação e o planejamento do combate a uma pandemia que, por enquanto, em um registro subdimensionado, matou 24.512 brasileiros e contaminou outros 391.222.

Segundo, o presidente prova mais uma vez que não é afeito ao hábito da leitura daquilo do qual discorda, ao contrário dos grandes líderes que são ávidos por vozes contraditórias. Pois teria visto que o repúdio ao abominável atentado que sofreu, no dia 6 de setembro, foi a tônica dos veículos de comunicação que tanto ataca.

Eu mesmo, nesta coluna, fui um dos que escreveram textos criticando duramente quem duvidava do ataque e desejava a morte do então candidato. Pois não importava que Bolsonaro tivesse defendido tudo o que há de pior. Um ataque a um candidato presidencial era um ataque à democracia e precisava ser apurado.

E foi isso o que aconteceu. A PF chegou à conclusão de que Adélio Bispo agiu como um lobo solitário. Mas Bolsonaro não aceitou a conclusão - seja por paranoia, seja porque essa narrativa não lhe interessa.

Terceiro, não tenha dúvidas que se ele tivesse sido morto naquele dia e as investigações não tivessem apontado o que realmente ocorreu, o assunto ocuparia o debate público até hoje. Mas sobreviveu e o responsável está atrás das grades. Já Marielle Franco foi morta em um esquema profissional que envolveu até matador de aluguel - seu vizinho, aliás. E ninguém foi condenado por isso até agora.

Há uma grande dose de vergonha alheia quando Bolsonaro, sucessivas vezes, demanda a mesma atenção concedida a uma vereadora executada. Isso vai além das estratégias de comunicação do presidente para excitar seus seguidores contra a imprensa. Há ressentimento em suas palavras, como se quisesse ser tratado como um mártir vivo - por mais contraditório que isso soe.

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