Desigualdade no desempenho dos alunos preocupa, diz analista da OCDE


ALUNOS DA ESCOLA ESTADUAL TIRADENTES

Resultados do Pisa indicam que o ensino no Brasil está estagnado desde 2009, com nível de desempenho abaixo da média dos países da OCDE

Os resultados do Pisa 2018 (Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes), publicados nesta terça-feira 03, indicam que o ensino no Brasil está estagnado desde 2009, com nível de desempenho muito abaixo da média dos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento (OCDE). Para a analista de educação da OCDE, Camila de Moraes, a desigualdade no desempenho dos alunos brasileiros é um fator preocupante.

“Há muitos países que conseguem ter alto desempenho [dos alunos] e baixa desigualdade. No caso do Brasil, estamos do lado contrário, temos um desempenho abaixo da média e uma desigualdade acima da média”, afirma.

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A avaliação usa uma escala de seis níveis para classificar o desempenho dos estudantes de 15 e 16 anos nas provas de leitura, matemática e ciências, sendo que o nível 1 é considerado insuficiente e o nível 2 é o mínimo de proficiência. No Pisa 2018, 50% dos brasileiros não atingiram o nível 2 em leitura, ou seja, são incapazes de identificar a ideia geral de um texto, encontrar informações explícitas ou analisar a finalidade daquele material.

Situação preocupante

De acordo com o estudo, 43% dos jovens do Brasil não atingiram o nível mínimo em leitura, nem em matemática, nem em ciências. “Isso é preocupante, ainda mais quando estamos em uma sociedade que valoriza cada vez mais níveis elevados de habilidades e conhecimentos”, avalia Moraes.

A analista salienta que há uma relação forte entre o valor do investimento por aluno e o desempenho dos estudantes na avaliação. Com um pouco mais de investimento, o Brasil poderia melhorar seus resultados. “Investimentos mais altos por alunos estão associados a resultados melhores no Pisa. Para quem está no começo da curva – caso do Brasil que tem um investimento baixo –, um pequeno aumento no investimento por aluno estaria associado a uma melhora significativa na performance dos alunos em leitura, por exemplo.”

Indisciplina e faltas são razão para alerta

A edição mais recente da avaliação internacional trouxe ainda informações sobre o comportamento, o bem-estar e a satisfação dos jovens de 15 e 16 anos com a escola. Camila de Moraes destaca os altos níveis de indisciplina e de ausência nas aulas como temas que devem receber atenção do governo.

A metade dos estudantes brasileiros que fizeram a avaliação internacional disse ter faltado à escola ao menos um dia nas duas semanas anteriores ao teste. O índice é mais que o dobro dos países da OCDE, onde 21% dos estudantes afirmaram ter perdido algum dia de aula.

A indisciplina toma bastante tempo dos professores no início das aulas, segundo 41% dos estudantes brasileiros. Os professores gastam parte da aula para deixar a turma em silêncio. Nos países da OCDE, 26% dos alunos relataram o mesmo problema em classe.

“O Brasil ficou abaixo da média no índice de satisfação com a vida. Entre 2015 e 2018, houve um aumento significativo de alunos que se consideraram não satisfeitos com a vida e uma diminuição daqueles que se consideram satisfeitos. Além disso, o Brasil está acima da média em relação à ocorrência de bullying. São fatores que devem ser investigados mais a fundo”, avalia a analista de educação da OCDE.

Ranking de educação

A prova, realizada a cada três anos, avalia os conhecimentos de adolescentes de 15 e 16 anos em leitura, matemática e ciências em dezenas de países. O resultado brasileiro nas três disciplinas em 2018 foi melhor do que o de três anos atrás, quando o país apresentou pela primeira vez queda nas médias. No entanto, as notas dessa avaliação estão no mesmo patamar das obtidas pelo Brasil em 2009, indicando estagnação no desempenho dos alunos na última década.

Na prova de leitura, os brasileiros tiveram, em média, 413 pontos. O resultado coloca o Brasil em 57º lugar dentre 78 economias avaliadas, à frente da Colômbia (412), da Argentina (402) e do Peru (401), mas muito atrás dos 487 pontos de média da OCDE.

Em ciências, a média brasileira foi de 404 pontos, deixando o Brasil em 66° lugar no ranking da disciplina. Já em matemática, a média dos alunos brasileiros foi de 384 pontos, enquanto a média dos países desenvolvidos é de 489 pontos. Essa foi a pior nota brasileira, que coloca o Brasil em 70° lugar no ranking de matemática, dentre 78 países, atrás dos vizinhos Chile (417), Peru (400) e Colômbia (391).

A primeira posição do ranking das três disciplinas ficou com as províncias chinesas de Pequim, Xangai, Jiangsu e Guangdong, ultrapassando os alunos de Singapura. Os estudantes das províncias chinesas alcançaram, em média, 555 pontos em leitura, 591 em matemática e 590 em ciências.

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