Mourão nega protagonismo no governo: 'Eu sou o vice'

General afirma que, durante a campanha presidencial, foi obrigado a entender o papel de candidato e acabou levando umas cacetadas, mas que está mais confortável e nega protagonismo, dividindo o tempo entre as atribuições próprias do cargo

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Correio Braziliense

(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press )

Na próxima segunda-feira, o general Hamilton Mourão, 65 anos, assume interinamente a Presidência da República. Será o comandante do país por cinco dias, até a sexta-feira, quando o titular do cargo, Jair Bolsonaro, voltará do Fórum Econômico Mundial, em Davos (SUI). “Será tranquilo. Mantenham-se as ordens em vigor. Isso é clássico”, disse o vice, que deve despachar do próprio gabinete, na sala 104 do Anexo II do Palácio do Planalto.

Até chegar ao gabinete, é preciso, por indicação dos assessores, passar por duas salas de descompressão, uma formalidade quebrada por Mourão logo na primeira pergunta sobre como os repórteres poderiam se referir a ele: vice-presidente ou general? “Podem me chamar de milico, como quiserem.”

O general nega um protagonismo no Planalto e garante estar focado nas atribuições do cargo, como relações bilaterais. “Eu considero a campanha um período muito mais complicado que agora. Agora, estou em uma posição mais confortável”, afirmou. “Muitas vezes, aquilo que você pode falar de uma forma mais livre, o candidato não pode. Até entender isso, levei umas cacetadas.”

Durante a entrevista de pouco mais de 40 minutos, Mourão defendeu aumento de contribuição dos militares e o decreto de posse de arma assinado por Bolsonaro na terça-feira. Sobre o caso envolvendo a nomeação do filho Antonio na assessoria do Banco do Brasil, disse que não procurou o presidente nem foi procurado. “Não houve conversa. Nem ele me telefonou para saber o que estava havendo nem eu telefonei.”

Ao assumir a Vice-Presidência, decidiu ficar de vez em Brasília, mesmo nos fins de semana — ele morava no Rio. “A minha relação com Brasília é excelente. Conheço a cidade desde 1973, tempo em que não havia semáforo na W3. Não tinha ponte no Lago, e o único lugar para sair à noite era o Gilberto Salomão. Aí, você tinha que ir ao aeroporto para ir ao Gilberto.” A seguir, os principais trechos da entrevista:

O papel do vice-presidente é de alguém discreto, mas o senhor tem assumido um protagonismo maior.

Eu acho que o protagonismo ocorreu na campanha, na transição, pela própria maneira como nosso governo procurava se encaixar. Mas, agora, à medida que o governo passa a andar com as próprias pernas e ter uma velocidade de trabalho normal, a figura do vice-presidente entra em uma posição secundária. A realidade é essa.

Alguma missão passada por Bolsonaro?

Por enquanto, tenho aquelas missões que, por legislação, estão com o vice, que são as comissões bilaterais com China e Rússia. Estamos começando a refazer esses trabalhos, que pararam em 2015, quando deixamos de ter vice-presidente. Então, já estamos há quatro anos sem ter reuniões com os dois países, ambos pertencentes ao Brics, e com toda a carga de relacionamento que há com eles.

Daqui a uma semana, o senhor estará sentado na cadeira de presidente, uma vez que Bolsonaro estará em Davos. O que muda?

Nada. É tranquilo. Mantenham-se as ordens em vigor. Isso é clássico.

O senhor vai despachar daqui ou do Planalto?

Daqui, lógico. O que tiver de ser despachado, será daqui.

Qual é a avaliação que o senhor faz das primeiras semanas de governo?

O principal acerto do governo está na escolha de pessoas que estão nos ministérios, as pessoas que estão sendo escolhidas, aos poucos, para compor o restante da equipe. Eu acho que não é um trabalho simples, até pela proposta que o presidente Jair Bolsonaro se colocou e, a meu ver, ele está sendo muito feliz.

O senhor está confortável com o ambiente?

Sim, tranquilo. Tenho 46 anos de Exército, inclusive, em vários locais do país. Isso aqui é mais um. É aquela história: é diferente da vida a que eu estava acostumado, mas já havia tido o aperitivo ao longo da campanha. Eu considero a campanha um período muito mais complicado do que agora. Agora, estou em uma posição mais confortável. Eu sou o vice.

Por que foi mais complicado?

Pelo fato de eu ter entrado no último minuto e, já logo, aconteceu aquele incidente (a facada) com o presidente. Foi um momento complicado. E você adaptar o seu discurso à realidade que, muitas vezes, aquilo que você pode falar de uma forma mais livre, o candidato não pode. Até entender isso, levei umas cacetadas.

Um exemplo seria a questão do fim do 13º salário?

Não é só a questão do 13º. Até que essa não foi nada de mais. São coisas que você diz normalmente, às vezes, até em tom de brincadeira, e não são bem interpretadas.

O senhor considera que, neste momento, está preparado para isso e mais comedido no sentido de se adequar a essa realidade?

Não é que eu esteja comedido. É que agora estou em uma posição em que tenho mais liberdade para exprimir meu pensamento do que em uma campanha. Na campanha, existe muito o ‘disse me disse’, e as coisas são um pouco mais diferentes. Agora, estou mais confortável.

O senhor mudou de posição em relação a essas críticas depois que se sentou na cadeira de vice?

Não, as minhas posições são muito claras. As coisas que acredito são bem claras. Não vou deixar de ter, aos 65 anos, quase 66 anos, um núcleo de pensamento que não vai mudar. O que você pode, e a própria idade traz isso, é flexibilizar algumas coisas. Então, eu me sinto tranquilo com isso aqui.

Quando o projeto de reforma Previdência será apresentado?

Só será divulgado após a volta do presidente da viagem a Davos.

Ele não vai nem apresentá-lo em Davos?

Não, ele não vai apresentar. Ele vai falar que existe o projeto.

Depois de Davos, Bolsonaro seguirá direto para a cirurgia ou vai haver um tempo?

A cirurgia dele é no próximo dia 28. Ele volta de Davos no dia 25. Acho que ele chega no período da manhã e, talvez, ainda dê expediente na sexta-feira. Então, pelo que entendi, vai ser apresentado. É que são várias linhas de ação. Usando aquela nossa terminologia, elas misturam o ‘quê’ e ‘como fazer’. Ou seja, você tem de variar para atingir o objetivo, e ele vai decidir por uma delas.

(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press )

Não vai ser apresentado aos investidores em Davos?

Não, acho que nem é o caso. Acho que você vai dizer que vai fazer a reforma, mas não precisa explicar aos investidores o que e como fazer, mas que ela será feita.

Ele volta, apresenta a reforma, e sai para fazer a cirurgia?

Em princípio, sim. Acho que tem que ser entregue (o projeto) ao Congresso imediatamente após o início da legislatura.

A escolha do general Rêgo Barros como porta-voz ocorreu logo depois de desencontros de declarações. Foi coincidência?

Há algum tempo, falava-se da necessidade do porta-voz, só que não é fácil achar um, por alguns motivos. Por exemplo, o salário do governo é aquele do professor Raimundo: daquele tamanhozinho, né? Aí, você olha as características: pessoa com experiência, que se comunica bem com a imprensa, que, de preferência, já tenha trabalhado na imprensa. Então, não é fácil você cooptar um profissional que, normalmente, tem um salário maior no local onde trabalha e colocar para ser porta-voz. Acabamos indo e batemos no general Rêgo Barros pelas características que assumiu ao longo dos últimos quatro anos, quando foi chefe de Comunicação do Exército.

Finalmente, os militares serão atingidos pela reforma da Previdência?

Não quero ultrapassar meus limites, já que quem fala pelos militares é o ministro da Defesa e o próprio presidente, por ter pertencido ao grupo dos militares. Mas eu acho que alguns conceitos têm de ficar bem compreendidos. Independentemente de achar que o conceito é bom ou não, em primeiro lugar, o grupo militar não tem sistema previdenciário. Você vai à Constituição e está lá: o regime geral e o regime próprio. Não existe regime previdenciário que abarque os militares. E o sistema clássico de Previdência, como funciona? Você desconta, e o seu patrão desconta, formando um bolo de dinheiro e, à medida que você se aposenta, recebe parte de acordo com o teto estabelecido, só que, com o passar do tempo, isso se tornou uma pirâmide financeira. Ou seja, quem chegava na frente recebia, e o restante não recebe, caso continue dessa forma. Voltando para o militar, ele não tem (Previdência), ele desconta para a pensão. O que é o sistema de pensão? O cara entrou em guerra, morreu, a viúva recebia a pensão. Essa era a formulação clássica. Aí, têm histórias perdidas no tempo de que os recursos foram jogados todos na Caixa e no Tesouro, um passado nebuloso. Esse é o primeiro aspecto a ser colocado. Jamais vou apontar que a vida do militar é distinta, outros argumentos que o pessoal coloca. Não é isso. Vamos para a Medida Provisória 2.215, que regula nosso pagamento. Foi uma reforma previdenciária em cima dos militares, que colocou os ganhos, as pensões e as aposentadorias menores a cada ano que passa. Então, ao se perder a gratificação por tempo de serviço, licença especial ou promoção a posto acima, você diminui o salário. Para se ter ideia, veja o caso de um coronel. O coronel que passou para a reserva em 2000, ganhava R$ 18 mil brutos. O coronel que passou para a reserva agora ganha R$ 15 mil, e aquele que passará em 2030, se perdurar os 30 anos de serviço, ganhará R$ 13 mil.

Há reclamações inclusive ao comparar o salário com o coronel da PM...

Nem comparo com esse aspecto. Houve nossa progressão para 2060, e, pelo horizonte que se olha, é de redução. A gente coloca que, em 2000, o sargento ganhava 3,8 vezes o salário mínimo, hoje, ganha duas vezes. Esse é o segundo aspecto. Já o terceiro tem que ser entendido, apesar de se criar uma imagem que não corresponde: o Exército, as Forças Armadas, são compostos por militares da ativa ou da reserva. Ou seja, o militar da reserva não se aposenta, continua mobilizável. Mas aí você diz: “Não vai ter guerra neste país, quando vai mobilizar?”. Pois bem, está aí agora o governador do Ceará chamando a reserva da Polícia Militar para tapar os buracos. Então, o camarada só sai dessa condição quando atinge a idade-limite. Isso é o reformado, não mais mobilizável. Quando se coloca esse cálculo do deficit, tinha de ser calculado em cima do reformado e da pensionista.

Agora, de qualquer forma, o deficit continua…

Sim, pelo fato de que não há contribuição por parte do governo. E outra coisa: militar não tem tempo de contribuição. Militar contribui a vida toda. Passou para reserva, continua contribuindo. Você passou à condição de reformado, continua contribuindo, descontados os 7,5% e mais os 3,5% do plano de saúde.

E a pensionista, continua a contribuir?

Não, não contribui. Até falamos que um militar vale mais morto do que vivo, já que a mulher ganha mais quando você morre.

Na prática, o que isso quer dizer? Que não teremos uma reforma da Previdência para os militares?

Não há uma Previdência a ser reformada. Então, você tem que mudar características da profissão. Ou criar um sistema. Uma linha de ação, por exemplo. Os salários do grupo de militares são baixíssimos. Pode se dar aumento salarial e dizer: ‘Meu amigo, entra na cota do INSS agora com dinheiro que ganha e paga um VGBL, PGBL’.

Mas isso, efetivamente, vai ocorrer?

São coisas a serem discutidas…

O próprio Paulo Guedes admite ter aumento de salário conjugado...

Mas não vejo espaço fiscal para se ter esse aumento.

Então, o que é possível fazer?

Acho que hoje as Forças já trabalharam acima. Tem de aumentar o tempo de trabalho na ativa.

Já tem o período?

Não, você tem de olhar características da carreira, que é vertical, então, você tem de distribuir o tempo em torno disso. Por exemplo, é aquela história: o camarada chegou a coronel da turma X. Aí, a turma X é promovida a general. No total, 18 são promovidos a general, mas, está vindo a turma Y e, aí, passa por cima daqueles.

O Correio fez uma matéria anunciando que estava em estudo a criação de uma nova patente no Exército.

Já se pensou nisso aí...

Seria uma forma de evitar essa pressão?

Eu acho é que tem de distribuir um novo tempo, já que mudou a rigidez das pessoas.

Mas não por uma nova patente?

Não, sou contra isso aí, mas já foi discutido no Ministério da Defesa. Tanto para os oficiais quanto para os praças. Tem essas coisas de aumentar o tempo de serviço, além da discussão de que pensionistas passariam a pagar os 11%.

O que seria, por exemplo, hoje, um aumento de salário para colocar os militares em uma condição de igualdade que resultasse em um sistema da Previdência?

Não posso dizer o valor aqui, já que tem problemas nessa escala. Entenda o seguinte: minha visão é de que nós temos uma escala salarial que vai do general de quatro estrelas ao soldado mais novo. Então, é difícil você acomodar isso. Eu tenho uma visão distinta. Acho que deveria ter duas escalas: uma dos oficiais, outra, dos praças, como é nos Estados Unidos. Aí, você corrigiria essas distorções. O que acontece: um segundo-sargento, um primeiro-sargento têm as mesmas necessidades de um major, de um tenente-coronel. Têm de colocar filho na escola, dar comida, pôr vestimenta. Tem que ver, seria uma mudança radical.

Não existe uma tabela com defasagem?

Você pode colocar uma defasagem, dos postos mais baixos, de 50%. Mas o que acontece: nós, generais, ganhamos bem, mas somos um grupo diminuto. Ganha bem, já que chegou no fim da vida, tem filhos casados. Óbvio que há outros casos em que o filho não é bem-sucedido e volta pra casa, a filha era casada, separa-se, e volta para casa com todos os filhos. Tem vários casos, e ocorrem em famílias de militares. Resumidamente, não temos Previdência, isso não existe. Tem de corrigir a distorção, a carga em cima da nação e as fórmulas para correção são isso: aumento de tempo de serviço, pensionista paga, ou dá um aumento bom e a turma passa a pagar a previdência privada.

O decreto do posse de armas não levou em conta nenhum estudo sobre os efeitos da oferta de armamentos na segurança pública? A sociedade não corre riscos?

Você está dando a posse para o cidadão, não porte. O cara não vai sair com a arma na rua. Ele vai ter a posse para defender a integridade do lar dele ou da propriedade rural dele. Eu vejo que vai apenas legalizar alguns que já têm. Arma é caro. Quanto custa uma pistola?

No caso de pistolas, de R$ 4 mil a R$ 10 mil…

Não é qualquer um que vai comprar arma. O que vejo é que não vai contribuir para o aumento. Na violência doméstica, não precisa de arma. O cara pega uma faca e enfia na mulher, bate com um pedaço de pau. Faz miséria.

Então, o senhor não vê risco em relação a isso?

Não, não vejo. O risco já está embutido, já está na sociedade. Com algumas coisas hoje, a sociedade já anda muito intolerante, principalmente nesse caso de relacionamento homem-mulher. Nunca vi tanto espancamento de mulher por homem.

E tanto assassinato. Esse 2019 começou violento…

Mas também não é como uma cidadã que passou por aqui e disse que estava havendo um extermínio das mulheres. Calma, aí. Ela falou do extermínio e disse ‘é pelo fato de que elas têm dificuldade em registrar queixa’. Eu falei: ‘Também, foram exterminadas…’ Mas que houve um aumento, sim, houve. Agora, quais são as razões? Os estudiosos precisam olhar isso, os intelectuais, também. O que é? Vida moderna? A mulher já não aceita mais o papel subalterno dentro de casa? É uma porção de coisa. A agressividade de parte a parte? Tem mulheres que também são agressivas. Intolerância da sociedade, principalmente no extrato mais baixo da sociedade.

E como se combate o crime?

Para se estabelecer a política pública, isso está muito voltado à educação. Não só educação formal de respeito às mulheres, mas educação da família. Respeito às pessoas. E você vê uma promiscuidade muito grande nas periferias da cidade. Quem vai às favelas vê as promiscuidades, onde ocorrem o maior número de violência.

Em que sentido o senhor fala da promiscuidade?

Na favela, casas muito próximas uma das outras. Sexualidade precoce de meninas de 13, 14 anos, como se fosse uma menina de 20 e tantos anos. Já transitou em uma favela para ver o ambiente? Um único quarto habitado por inúmeras pessoas.

Mas isso não está ligado mais ao estupro do que à sexualidade?

Existe uma cultura, mas existe a da sexualidade. Tendo vivido por cinco anos na Amazônia, vendo as coisas como se comportam.

Então, é falta de educação?

Cultural, por isso tem de ser pesquisado. Estou passando uma visão empírica de quem vivenciou isso.

(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press )

A educação não muda isso?

A educação, tanto dentro do lar quanto na escola, orientando. Acho que o principal é as pessoas se respeitarem. É preciso haver o respeito mútuo.

O senhor foi adido militar na Venezuela. O Itamaraty sempre teve uma política proativa, uma liderança no continente. Na sua opinião, a política em relação à Venezuela está correta? O senhor faria de outra forma?

A Venezuela sofreu um processo de deterioração, fruto de políticas implementadas de forma atabalhoada e que isolaram a população do país. A Venezuela é um case. Ela tem de ser estudada com calma. É uma participação enorme das Forças Armadas venezuelanas. Infelizmente, as Forças Armadas do país já eram corruptas e ficaram mais corruptas. Então, foram cooptadas para esse processo, que levou à destruição da economia. O principal produto, o petróleo, já está com a produção pela metade, porque a PDVSA, a menina dos olhos ou a grande estatal do petróleo, perdeu os melhores cérebros dela. Houve uma deterioração dos equipamentos, um sucateamento. Então, a conjunção de fatores que levou o país a essa situação. Acho que deve haver uma pressão organizada internacional e que se dê uma saída para o grupo que está no poder. ‘Olha, vai para Cuba, não sei, e deixe que a população se reorganize, as forças políticas se reorganizem e que o país se reinicialize.’ O país está sob escombros. Agora, entrou uma atuação conjunta de todos os países, já que o Brasil tinha sempre a visão de não agir em assuntos internos de outras nações, pelo fato de que a gente não aceita que venham meter o bedelho nos nossos. Então, acho que essa foi a visão dos governos anteriores, independentemente do apoio ideológico que houve ou não em determinados momentos. Só que, agora, o problema se abriu para toda a América do Sul. Os venezuelanos estão ‘espirrando’ para tudo quanto é lugar. A Colômbia está inundada de venezuelanos. Nós estamos com essa crise humanitária em Roraima, recebendo o extrato mais pobre da população venezuelana, chegando com doenças que não existiam mais. Doenças que haviam sido erradicadas e começam a entrar no nosso país. Tornou-se um problema que temos de resolver.

Há alguma modificação nessa política com venezuelanos que estão no Brasil? Haverá mudança?

Continuamos a receber, mas preocupados com o que pode vir. Já veio o sarampo. Podem vir outras doenças.

A ida direta de Cesare Battisti para Roma, sem passar pelo Brasil, frustrou o Planalto?

Minha visão é a seguinte: o Battisti, no momento em que foi para Bolívia, não passou mais a ser problema nosso. Passou a ser problema da Bolívia. Aí, em conjunção entre italianos e bolivianos, prenderam ele lá. Nada mais justo que o levassem direto para a Itália.

O senhor tentou fazer com que ele passasse pelo Brasil...

Aí foi uma visão que o presidente e os assessores principais tiveram de, talvez, passar para o mundo que estávamos realmente tentando fazer nossa parte. A decisão que foi tomada no governo Lula nos criou um caso com a Itália. Não foi uma decisão correta. Tinha de ter mandado o Battisti ir embora. Battisti matou gente. É um terrorista condenado. Não vai se dizer que havia um regime de exceção na Itália. Dentro de um regime democrático, ele foi condenado normalmente.

Em relação à China e à Rússia, o senhor tem alguma coisa especial que vai tentar levar com mais afinco?

Temos de intensificar essa agenda bilateral que temos com os dois países. Todo mundo sabe que a China compra 32% dos nossos produtos, uma grande compradora. A China tem dinheiro para investir, e precisamos de investimento externo para parcerias público-privadas que se pretendem fazer. Precisamos buscar o benefício mútuo que baliza qualquer relação entre dois países.

E sobre os países árabes, não há um aceno exagerado pró-Israel?

Acho que, por enquanto, estamos só no aceno. Quais foram as medidas concretas que foram tomadas? Como fala meu neto, estamos só no discursinho. Não está rolando nada. ‘Vai tirar a embaixada, não vai tirar a embaixada’. Vamos aguardar o momento em que o presidente for tomar uma decisão. Obviamente, ele vai ouvir todas as cabeças pensantes e com suas visões do assunto. É que nem o caso da base norte-americana. Idêntico.

Os primeiros 15 dias foram de discursinho ou não?

No caso específico de Israel, veio o primeiro-ministro, que nunca tinha vindo. Anuncia que vai mudar a embaixada, enquanto o presidente não anuncia nada. O presidente só manda um Twitter para cá, outro para lá. Eu acho que está mais no ‘namoro’. O presidente gosta muito dessa expressão.

O decreto das armas é a primeira medida efetiva do governo?

Eu acho que a primeira promessa de campanha que o governo cumpre é a questão da eficiência gerencial. O ato de colocar gerentes, pessoas capacitadas nos ministérios e nas principais funções. Acho que isso é um carro-chefe muito grande para o governo, mas só dará frutos a partir do momento em que atingirmos um equilíbrio fiscal e realmente não tivermos vazamento que havia na administração pública.

Sobre o episódio envolvendo seu filho no Banco do Brasil? O senhor chegou a prestar esclarecimentos a Bolsonaro ou não?

Não houve conversa. Nem ele me telefonou para saber o que estava havendo nem eu telefonei. Essa é uma questão interna de uma sociedade anônima que é o Banco do Brasil. Morre-se o assunto aí. Os fatos foram dessa forma.

O senhor acha que dá para aprovar a Previdência? Esse prazo de seis meses será cumprido? Resolvido esse fato, o que dá mais para ser feito?

A reforma da Previdência e, na esteira dela, a tributária. A desoneração da folha, assunto que o Paulo Guedes tem batido muito. Ao desonerar a folha, nós vamos dar uma liberada nas nossas empresas, que estão amarradas. Elas têm duas bolas de ferro nos pés, como diz o Guedes.

Precisa-se primeiro, porém, aliviar a questão fiscal...

A questão fiscal, mesmo que o presidente opte por uma linha fiscal previdenciária mais branda — vamos colocar assim —, aquela que não resolva o problema pelos próximos 30 anos, mas pelos próximos 10 anos, ela passa uma mensagem para investidores externos do compromisso do país com o ajuste fiscal. Desde o Lord Palmerston, ministro das finanças da Era Vitoriana, se diz que, para o país ser virtuoso, precisa ter uma moeda estável e um orçamento equilibrado.

E hoje estamos com um tripé econômico meio bambo, não é?

A questão fiscal… totalmente desequilibrada.

O governo pegou uma herança bendita da equipe do ex-presidente Michel Temer: inflação sob controle e juros baixos.

Não é só isso. O Programa de Parceria de Investimento tem uma série de concessões a serem leiloadas, que vão trazer bons recursos para o governo, fora a questão da cessão onerosa (petróleo). Nós temos condições, até o terceiro trimestre deste ano, de fazer o leilão do pré-sal para entrar um dinheiro substancial no governo.

O senhor ajudará na articulação política?

O presidente não me deu nenhuma missão nesse sentido. O que tenho feito: de forma informal, os parlamentares que me procuram, uma visita de cortesia, conversamos sobre esse tema, até para sondar a opinião do parlamentar em torno do próprio assunto.

Acredita que o Congresso vai atender os anseios da população?

Acho que o Congresso estará à altura da sua responsabilidade, mesmo com todas as dificuldades que vão ocorrer. A oposição fará o papel dela. As centrais sindicais também vão pressionar. Faz parte do processo democrático.

E a violência no Ceará, como pode ser tratada?

A violência do Ceará está localizada, especificamente no Ceará, mas aquele tipo de ação já ocorreu no Rio Grande do Norte, em Roraima, em Pernambuco, no Rio de Janeiro, no Amazonas. Nosso sistema prisional é um problema sério e não é fácil de ser resolvido. O ministro Moro está debruçado em cima disso, já que não é só construir presídio. Temos dificuldade em construir presídios, já que alguns municípios não aceitam a construção. Existe também a questão do efetivo. ‘Constrói-se o presídio, mas cadê os guardas para mobiliar o presídio?’ Não pode aumentar o efetivo por causa do orçamento...

Está muito envolvido nessa questão por conta das facções criminosas.

É óbvio.

Pela experiência do senhor, como conseguimos, ainda que minimamente, chegar perto de uma solução?

Minha visão da segurança pública é a atuação em quatro vertentes: sistema prisional, tendo presídio decente, mas que o cara ficasse preso mesmo, sem visita íntima, em um lugar decente, não em uma cela que cabem quatro pessoas e tem 40. Não pode tratar o cara como bicho. A segunda seria a legislação, que é branda, a partir do Código de Processo Penal. Em terceiro, a ação da polícia: polícia mais tecnológica, com ações pontuais, em cima das facções e da área social, já que a periferia das grandes cidades, as favelas, infelizmente, são o ‘cadinho’ de onde sai parcela dessas gangues.

Quatro medidas que precisam de muito dinheiro…

Algumas são questão de gestão. Para você saber, nos últimos três anos, foram enviados para os estados R$ 1,6 bilhão para construção de presídios. Somente foram empenhados 26% do valor total.

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