Leonardo Boff se pronuncia após ser chamado de 'bosta' por Ciro Gomes

Leonardo Boff, 79 anos, se pronuncia pela primeira vez após ser chamado de 'bosta' pelo ex-presidenciável Ciro Gomes

O teólogo, professor universitário e escritor Leonardo Boff

Pragmatismo Político

No início da semana, o professor Leonardo Boff foi chamado de ‘bosta’ pelo ex-presidenciável Ciro Gomes.

“Pega um bosta como esse Leonardo Boff. Estou com texto dele aqui. Aí porque não atendo o apelo dele, vai pelo lado inverso. Qual a opinião do Boff sobre o mensalão e petrolão? Ou ele achava que o Lula também não sabia da roubalheira da Petrobras?”, esbravejou Ciro.

Dias antes, Boff havia criticado a omissão de Ciro no 2º turno da eleição presidencial.

“Lamento sua declaração que face à uma ditadura certa não quer ter lado. Seu projeto pessoal é mais importante que defender a democracia. Para você ela é abstrata e fácil. Ficar em cima do muro é covardia. Terá o destino da Marina, o de ser esquecido”, escreveu o teólogo.

Em entrevista ao portal de notícias UOL, o professor afirmou que releva os xingamentos de Ciro Gomes e disse ter misericórdia do candidato derrotado na eleição de 2018.

Confira os principais trechos da entrevista:

(1) Sobre os xingamentos de Ciro Gomes

Não me incluo entre os eventuais bajuladores de Lula. Nunca fui filiado ao PT por convicção, pois o ofício do pensar filosófico e teológico não pode se restringir à parte, donde vem partido, mas deve procurar pensar o todo e a parte dentro do todo.

Somos eu e Frei Betto (também não filiado ao PT) amigos de Lula de longa data, desde o tempo em que organizava as greves e a resistência à ditadura militar. Portanto, bem antes de ser político e presidente. Os amigos se criticam olhos nos olhos para construir, os adversários o fazem pelas costas para destruir. E assim o entendia Lula.

Confira algumas críticas de Boff ao PT publicadas no Pragmatismo Político:
Somos amigos-irmãos que têm os mesmos sonhos e os mesmos propósitos fundamentais. Frei Betto era igualmente duro na crítica, não obstante a grande amizade que os unia e une. Sigo a sentença dos mestres espirituais: “se não entender o que alguém diz a seu respeito tenha pelo menos misericórdia”, virtude central do cristianismo assumida, decididamente, pelo papa Francisco. Procuro viver esta virtude.

Considero Ciro Gomes uma das maiores e imprescindíveis lideranças do Brasil. Ele é importante para a manutenção da democracia e dos direitos sociais. Ele ajuda a alargar os horizontes dos problemas que enfrentamos com o seu olhar próprio. O que faz e diz é dito e feito com paixão. Entretanto, a paixão necessária nem sempre é uma boa conselheira. Creio que foi o caso de sua crítica a mim chamando-me com um qualificativo que não o honra.

Causou-me espanto o fato de que, no meio da crise, quando a democracia estava sob risco, confrontando-se com uma proposta autoritária de viés fascista, extremamente danosa ao pais, Ciro tenha se retirado e assim privado a todos nós de um apoio importante devido à sua força política. O ressentimento falou mais alto e [ele] simplesmente se afastou. Na volta, não foi capaz de dizer “voto em Haddad”, apenas disse “voto pela democracia”.

Como há a possibilidade do voto branco e nulo nunca saberemos em quem ele votou. Por amor à democracia, ao bem comum, deveria se pronunciar claramente, face a uma ameaça grave de um governo de ultra-direita e de viés fascista. Essa clareza faltou nos pronunciamentos de Ciro.

(2) Sobre Ciro ter afirmado que foi “traído por Lula”

Creio que devemos pensar como os antigos: devemos ter sempre magnanimidade na vitória e especialmente face à derrota.

Não obstante os enfrentamentos durante a campanha eleitoral, os políticos não devem perder o verdadeiro sentido da política que é buscar o bem comum da nação. Aqui não podem prevalecer projetos pessoais, mas os coletivos aos quais nos colocamos a serviço.

Excluir por parte de Ciro o PT de qualquer apoio não é politicamente sensato particularmente quando a democracia está em jogo.

(3) Sobre o PT ter insistido na candidatura de Lula até o limite do possível

Não me cabe dizer se errou ou não. O PT tinha esperança de que se fizesse justiça a Lula e que o Judiciário obedecesse à declaração da ONU de que Lula teria garantido o seu direito de ser candidato. Mas o arbítrio imperante não atendeu esta regra de tão alta instância. Vetou sua candidatura e quanto o saiba até lhe sequestrou o direito de votar. O que demonstra ser de fato um prisioneiro político vivendo numa solitária.

O que, na verdade, elegeu Bolsonaro foi um mantra contra a corrupção e o anti-petismo que suscitou na sociedade. Só que, ao meu ver, usou métodos corruptos, de milhões de fake news e difamações a ponto de inundarem a consciência de boa parte da população. Sou completamente a favor que se combata a corrupção. Mas que se comece pelos grandes corruptos que são as grandes empresas.

Do ano passado até princípios de setembro de 2018, atestam os procuradores da Fazenda Nacional, foram sonegados R$ 450 bilhões. O total da corrupção do “mensalão” e do “petrolão” mal chega a 10% desta corrupção já naturalizada. Com o resgate destes bilhões sonegados não precisaríamos fazer a reforma da Previdência.

(4) Como avalia os chamados ‘mensalão’ e ‘petrolão’

Sobre o “mensalão” e o “petrolão” sempre fui crítico. Mostrei-o em meus artigos publicados no “Jornal do Brasil” online, onde escrevi, semanalmente, durante 18 anos.

Todos eles estão no meu blog. Aconselho os leitores que leiam o livro que publiquei a partir da atual crise brasileira: “Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência”, com 265 páginas, editado pela Editora Vozes neste ano. Há todo um capítulo sobre “Os equívocos e erros do PT e o sonho de Lula”.

Um intelectual, ciente de sua missão, não pode deixar de criticar malfeitos, venham de onde vierem. Assim o fiz em todo o tempo.

(5) Como avalia a vitória de Bolsonaro

Entramos numa fase, a meu juízo, de grandes desafios e atribulações, especialmente para a população mais vulnerável, dos homo-afetivos e de outras minorias políticas, e também para maiorias numéricas, como os negros e negras. E seguramente muitos intelectuais e artistas sofrerão perseguições e injúrias como já estão já ocorrendo.

Mas a situação nos obrigará a todos a fazermos uma autocrítica e superar a perplexidade com a qual fomos tomados: por que chegamos a tal ponto de extremismo e de atitudes fascistas? Por que não fomos vigilantes? Onde erramos? Penso que todos os partidos têm que se reinventar sobre bases éticas e morais mais sustentáveis e com uma democracia mais avançada que inclusive insira os direitos da natureza e da Mãe Terra.

Temo uma onda de extermínio, vinda de cima, de grupos metidos com a droga e com violência organizada nas periferias de nossas cidades.

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