Fátima Bezerra: “A resistência tem de se dar à luz da Constituição"

por Sergio Lirio
Carta Capital

A futura governadora do Rio Grande do Norte, única mulher eleita para administrar um estado, analisa o papel da oposição a partir de 2019
Everton Dantas
Fátima Bezerra venceu a oligarquia potiguar

A petista Fátima Bezerra não apenas saiu ilesa da onda bolsonarista e da fábrica de mentiras que impulsionaram o ex-capitão e seus aliados em diversas partes do País. Única mulher eleita para governar um estado, sua vitória no Rio Grande do Norte tirou de cena velhos oligarcas da região, os senadores José Agripino Maia e Garibaldi Alves Filho, e levou ao Congresso novas lideranças progressistas.

No fim das contas, em terras potiguares, famosa pela vanguarda na atuação política feminina, o tsunami em favor de Jair Bolsonaro não passou de marola. A convincente vitória nas urnas transforma a futura governadora em uma peça importante do novo tabuleiro político. E ela não foge da responsabilidade. “O PT continuará unido na defesa da cidadania”, afirma. “É da nossa essência sermos firmes no combate ao preconceito, à discriminação e à violência”. 

Carta Capital: A senhora foi a única governadora eleita. Como se sente?

Fátima Bezerra: O simbolismo é evidente. Fui eleita em um estado que tem protagonismo na luta em prol da maior participação das mulheres na política. É a terra da Nísia Floresta e da Alzira Soriano, primeira prefeita da América Latina. No Rio Grande do Norte nasceu o voto feminino no Brasil, décadas e décadas atrás.

Ao mesmo tempo, ser a única mulher eleita para governar um estado evidencia o déficit da nossa participação na história política. E há ainda a sub-representação nos espaços legislativos. Isso deveria levar a sociedade a refletir sobre a situação. Nós, do PT, há tempos defendemos uma ampla reforma política que inclua, entre outros pontos, a paridade. Essa sub-representação feminina tem tudo a ver com a realidade do País, no qual vigora a cultura do patriarcado. 

CC: Culpa do sistema político, não?

FB: Também. Ele é cheio de distorções, anacrônico. São recentes as ações afirmativas para incentivar a participação política das mulheres. Lembre-se da polêmica causada pela regra que destinou 30% dos recursos do fundo partidário para as candidaturas femininas. 

CC: A senhora conseguiu decifrar a onda bolsonarista, da qual, em alguma medida, nem o Nordeste escapou?

FB: A onda Bolsonaro chegou no Nordeste e no Rio Grande do Norte. O meu adversário, de forma oportunista, tentou aproveitar-se, inclusive em desacordo com a orientação do seu partido, o PDT. Fez um discurso muito forte de demonização do PT.

Na hora H, a onda refluiu. O resultado eleitoral do segundo turno no Rio Grande do Norte foi muito expressivo. Venci com 15,2 pontos percentuais de diferença.

Além disso, o projeto político que eu represento teve uma vitória inegável ainda no primeiro turno. Houve uma mudança da correlação de forças na representação no Congresso. A Zenaide Maia, senadora eleita, é totalmente alinhada ao projeto. Ela é filiada ao PHS, mas defende com muito mais afinco as nossas ideias do que muitos petistas.

Por outro lado, o José Agripino nem se arriscou a disputar o Senado. Tentou uma vaga na Câmara e perdeu. O Garibaldi Alves, senador de 1 milhão de votos em eleições passadas, obteve pouco mais de 300 mil e também ficou de fora. Das oito vagas a deputados federais, o PT conseguiu eleger dois, feito histórico. Houve um aumento da bancada progressista do Rio Grande do Norte. 

CC: Como a onda atingiu o Rio Grande do Norte?

FB: Em determinado momento, a coordenação da campanha expressou uma certa preocupação. Não escapamos do fenômeno das notícias falsas, dos boatos, das mentiras, da desonestidade.

A sorte foi que a Justiça eleitoral agiu com rapidez. Conseguimos inúmeros direitos de resposta. A militância mobilizou-se e, no fim, a população potiguar soube separar o joio do trigo. O combustível da ascensão do Bolsonaro foram as chamadas fake news. 

CC: A senhora teme algum tipo de retaliação do governo federal ao Nordeste? Como os governadores da região devem se articular?

FB: Tenho mais de 30 anos de vida pública. Aprendi, desde os tempos em que era professora e dirigente sindical, a conviver com as diferenças, essência da democracia. Desenvolvi um atributo que considero importante, a capacidade de ouvir. Os entendimentos e os consensos nascem do diálogo. Se dependesse do Nordeste, Fernando Haddad seria o presidente. Ele deu uma grande contribuição à democracia. Mas precisamos encarar a vida como ela é. 

CC: E como ela será?

FB: Da mesma forma que um governador precisa respeitar o presidente, o presidente precisa respeitar um governador. E ambos devem respeitar a essência da democracia, a soberania do voto popular. Espero que o Bolsonaro seja escravo da Constituição. Em primeiro lugar, que preservem os direitos e as liberdades inscritos na Carta maior. Os governadores do Nordeste, como os demais, estão respaldados pelo voto. Vamos cobrar uma postura republicana de Brasília. 

CC: Por que não foi possível montar uma frente democrática contra a ameaça autoritária representada por Bolsonaro? Ela poderia se estabelecer a partir de agora?

FB: No momento tenho de me atentar para o meu papel institucional, de governadora. A mim cabe defender em primeiro lugar os interesses da população do Rio Grande do Norte. A partir de janeiro assumo um estado em uma situação bastante peculiar. Ao contrário dos demais da região, enfrentamos uma das piores crises fiscais e sociais da história. Não podemos esquecer que o Rio Grande do Norte ostenta o título de estado mais violento do Brasil, tem o terceiro pior Ideb do Ensino Médio e convive com a absoluta precariedade no sistema de saúde. O descontrole das contas é tão grande que nem o pagamento em dia dos salários do funcionalismo está assegurado.

No campo da segurança pública, tenho consciência de que nada será resolvido sem o apoio do governo federal. Não tem como, sozinho, o estado enfrentar o avanço do crime organizado. O desafio exige um esforço de cooperação. 

CC: E quanto à frente democrática?

FB: Os eleitores brasileiros decidiram colocar o PT na oposição. E o partido, acredito, desempenhará esse papel com muita sabedoria e responsabilidade. Nosso lugar é no campo democrático e popular. Não se pode desconhecer a importância da legenda. Elegemos a maior bancada da Câmara, estamos presentes no Senado, seremos quatro governadores. Temos inserção nos movimentos sociais. O Haddad sai dessa eleição como uma liderança nacional.

É importante uma unidade das forças democráticas e populares, o que infelizmente não aconteceu no segundo turno. Achei lamentável a postura do Ciro Gomes. Não havia como pedir ao PT para não lançar um candidato à Presidência da República depois de tudo o que o partido sofreu nos últimos anos. O impeachment sem comprovação de crime de responsabilidade... A ofensiva contra o Lula e sua condenação cujo único objetivo era retirá-lo da disputa eleitoral... A despeito de todos os ataques, continuamos a ser o partido mais reconhecido pela população. Como não considerar legítima a postulação da candidatura.

Lamento profundamente o equívoco histórico que o Ciro Gomes cometeu no segundo turno. Se fosse ele no lugar do Haddad, o PT não lhe negaria apoio explícito. No dia seguinte, estaríamos totalmente empenhados, nas ruas. A história segue. Basta lembrar o comportamento do Leonel Brizola em 1989. Ele esteve firme ao lado de Lula contra Fernando Collor, apesar da dura disputa entre os dois no primeiro turno. 


CC: O antipetismo a surpreendeu?

FB: Em certa medida. Em um determinado momento estava em curso um processo de recuperação da imagem do partido, mas o antipetismo foi novamente fabricado. Não vamos ser ingênuos. Foi um sentimento impulsionado pelas redes sociais, em especial por WhatsApp. 

CC: O quanto o resultado das eleições presidenciais dificulta a possibilidade de liberdade para o ex-presidente Lula?

FB: Temos de continuar a campanha por um julgamento justo, que é a reivindicação do ex-presidente. Há instâncias a serem percorridas. Torcemos por cautela e independência, pois a Justiça não pode ser contaminada pelo Poder Executivo. 

CC: Como deve se portar a oposição? Como enfrentar a violência do bolsonarismo?

FB: A resistência tem de se dar à luz da Constituição. O PT continuará unido na defesa da cidadania. É da nossa essência ser firme no combate ao preconceito, à discriminação e à violência.

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