Ciro promete zerar déficit e diz que vitória de Bolsonaro seria 'suicídio coletivo'

Em sabatina Estadão-Faap, candidato do PDT à Presidência nas eleições 2018 se diz 'ao lado dos mortadelas' na polarização política, critica prisão de Lula, mas diz que petista não deve ser candidato

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

Candidato do PDT à Presidência nas eleições 2018, Ciro Gomes foi fiel ao seu estilo na Sabatina Estadão-Faap com os presidenciáveis na manhã desta terça-feira, 4. Ele sugeriu uma reforma na Previdência com sistema de capitalização e impostos sobre heranças para solucionar o problema das contas públicas do País, além de insistir na diminuição do endividamento das famílias negativadas para reativação do consumo.


No campo político, o pedetista disse que fica com os “mortadelas” na polarização que impera no País. O candidato também classificou como frágil e injusta a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas afirmou que o petista não deve ser candidato. Ele criticou mais uma vez Jair Bolsonaro (PSL) e pediu para que “o Brasil não cometa esse suicídio coletivo” de eleger o militar. Ciro reconheceu também que “a classe política não merece tanto carinho”.

Candidato à Presidência pelo PDT, Ciro Gomes, participa de sabatina Estadão-Faap 
Foto: Felipe Rau/Estadão

O pedetista prometeu reativar obras públicas que não dependam necessariamente do financiamento direto do Tesouro e citou como exemplos ferrovias e estradas que estão paradas. Ciro também ironizou o apoio de setores do agronegócio a Bolsonaro, com o argumento de que as posições anti-subsídio de Paulo Guedes - principal assessor econômico do rival - seriam prejudiciais ao setor.

Na área da educação, o candidato ressaltou a necessidade de investimento no ensino superior. Na segurança, criticou a flexibilização do acesso a armas de fogo defendida por Bolsonaro. 


Rombo nas contas públicas

Combativo, Ciro Gomes usou o tempo da sabatina para detalhar as propostas e confrontar os entrevistadores. Na questão do déficit fiscal, prometeu agir de maneira técnica, em três eixos. O primeiro deles seria uma reforma da Previdência com transição para o sistema de capitalização, no qual os trabalhadores teriam parte da pPrevidência bancada pelo sistema atual, com um teto a ser definido, e o restante numa poupança, com o fim da diferenciação entre o setor público e o privado.

Questionado se teria apoio suficiente para isso, Ciro disse que teria de usar o início do mandato, quando os presidentes geralmente têm maior capital político, para aprovar as reformas. "Politicamente é um desafio. É importante o conjunto de ideias. A força política de transformar em realidade é muito grande", disse. "Me deem apoio para ver se eu não faço isso."


Ciro Gomes propôs também um imposto sobre lucros e dividendos empresariais e tarifas sobre heranças. "Só o Brasil e a Estônia não cobram esse tributo (sobre lucros). Cobrando com alíquota razoável, isso me permite visualizar R$ 70 bilhões (a mais no Orçamento)."

"Acima de R$ 2 milhões, os europeus cobram 40%. O Brasil cobra 4%. Pretendo estabelecer uma progressividade e daí teria mais R$ 30 bilhões (para zerar o déficit)." 


A retirada das renúncias fiscais concedidas nos governos Temer e Dilma seria o terceiro eixo com o qual, segundo Ciro, seria possível zerar o rombo nas contas públicas, que hoje soma R$ 149 bilhões. "Aqui, com R$ 354 bilhões (da renúncia fiscal), conseguiria puxar um pente fino e acharia mais R$ 60 bilhões. Aí acaba o déficit fiscal. Mas isso tudo é técnico", ressaltou.

Ciro ainda voltou a defender o programa para positivar brasileiros endividados. Segundo ele, bancos refinanciarão as dívidas, que na média são de R$ 4,2 mil, em até 36 vezes. Em caso de calote, o consumidor poderia optar por um fiador, que pode ser um amigo ou familiar - com base num projeto, segundo o candidato, já existente no Banco do Nordeste. "Se as famílias não consomem, comércio não vende. Se comércio não vende, indústria não produz", afirmou o candidato. "No Brasil, tudo que é para pobre é uma polêmica infernal. É muito mais simples de fazer do que de entender."
Polarização política e 'coxinhas x mortadelas'

Ciro Gomes comentou ainda a crescente polarização política no País e se colocou do lado da esquerda - procurando, no entanto, manter certa distância do PT. "Meu projeto é centro-esquerda. Nunca fui do PT, sou adversário do PT. Eles têm candidato e eu sou outro candidato. Tem uma diferença profunda por definição", disse. "Nos últimos anos, o Brasil se dividiu entre coxinhas e mortadelas. E eu tomo lado: o dos mortadelas."

Questionado sobre as negociações com o Centrão - bloco formado por DEM, PR, PP, PRB e Solidariedade, que hoje apoia o candidato Geraldo Alckmin (PSDB) - o pedetista disse que conversou com emissários do bloco para discutir uma aliança como conversaria com qualquer partido político, e que o acordo não foi alcançado por 'diferenças fundamentais de projeto'. 

O pedetista também caracterizou a Operação Lava Jato como um "momento importante da vida brasileira", mas ressaltou que, em sua visão, houve alguns abusos - entre eles a prisão do ex-presidente Lula, que, em sua avaliação, foi feita com base em uma sentença sem provas materiais. "A Lava Jato pode ser um sinal de que a impunidade não é mais um prêmio para todos os bandidos de colarinho branco", disse. "Estão presos Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima, o Palocci. O que procuro ser é isento. Sendo isento, acho que ela comete alguns erros: não é sadio que autoridades policiais, do Ministério Público e do Judiciário vivam falando com a imprensa de gravatinha borboleta em homenagens, reuniões, destruindo reputações antes da formação da culpa."

Ciro também criticou Bolsonaro, mas ressaltou que a discussão sobre pautas identitárias, como aborto e casamento entre pessoas do mesmo sexo, entre outras, evitam que o candidato do PSL exponha o que pensa sobre temas como economia e educação. Ele considerou, no entanto, que a vitória do deputado nas eleições representaria um "suicídio coletivo". 

Segurança e diplomacia

Na sabatina, o ex-governador cearense também falou de propostas para educação, segurança e a crise dos refugiados venezuelanos na fronteira. Segundo Ciro, é preciso uma guarda nacional tecnologicamente sofisticada com satélites, georreferenciamento, sensores e drones para resolver os problemas remotamente. "Isso proponho para as fronteiras. O Exército Brasileiro nas fronteiras está trabalhando a meio expediente", disse. "Felizmente ninguém quer invadir o Brasil."

Sobre a questão da Venezuela, Ciro Gomes afirmou que o regime de Nicolás Maduro foi se degradando e a diplomacia da cúpula do PT foi "alisando a cabeça" do governante chavista por solidariedade. 

"Entra o PSDB com o Temer e faz o oposto: isola a Venezuela. A posição correta é que deveríamos buscar. É natural a liderança do Brasil sob o ponto de vista da vizinhança, das identidades culturais e econômicas. A tucanada escondeu que há cinco anos o Brasil tinha superávit de R$ 5 bi. Eles são dependentes do Brasil. Jogamos toda essa história na lata do lixo e o que aconteceu? Hoje, a Venezuela isolada está cheia de assessores militares e de inteligência da China e da Rússia. Na nossa fronteira. Enquanto isso, os americanos estão convidando a Colômbia, outro vizinho nosso, para se filiar à Otan."

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