O que querem os caminhoneiros em greve?

por Redação
Carta Capital

Entenda o que motiva os atos dos motoristas autônomos e porque eles não recuaram mesmo após os acenos do governo e da Petrobras

Marcelo Pinto/APlateia
Caminhoneiros paralisam fronteira entre Brasil e Uruguai, em Santana do Livramento

A Petrobras reduzui emergencialmente o preço do diesel em 10% e congelou o valor por 15 dias. A Câmara dos Deputados correu e aprovou no fim da noite de da quarta-feira 23 a reoneração da folha de pagamento para 28 setores. Com o aumento da arrecadação previsto, os deputados ainda zeraram a cobrança de PIS/Cofins sobre o diesel. Tudo para reduzir o preço do combustível nas bombas e atender às reivindicações dos caminhoneiros grevistas.

Nada adiantou. O Brasil amanheceu nesta quinta-feira com o quarto dia seguido de bloqueios em estradas, que atingem pelo menos 20 estados. Além dos transtornos para a locomoção, a população enfrenta desabastecimento de diversos produtos, inclusive alimentos.

Os bloqueios são organizados pela Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam), que representa motoristas autônomos, por isso a paralisação não envolve veículos fretados. O presidente da associação, José da Fonseca Lopes, reiterou na manhã de hoje que só vai interromper o movimento de protestos da categoria depois de o governo federal sancionar a lei que zera o PIS/Cofins sobre o óleo diesel.

A votação no Senado é esperada para hoje e só depois disso o texto segue para a sanção. Essa redução de impostos pode tirar até 14% do preço do combustível na bomba nos postos de abastecimento.

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O que pedem os caminhoneiros?

Após sucessivos reajustes no preço dos combustíveis, os caminhoneiros passaram a reivindicar o fim definitivo da cobrança do imposto PIS/Cofins sobre o insumo, além do eliminação da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) sobre o diesel.

Os caminhoneiros pedem também mudanças na política de reajuste dos combustíveis da Petrobras, o que já foi descartado pelo presidente da estatal Pedro Parente. 

A nova política de reajustes, adotada pela Petrobras em julho do ano passado, determina que os valores dos combustíveis sofram alterações diárias que acompanhem a cotação internacional do petróleo e a variação do câmbio.

Como o dólar e o preço do óleo em trajetórias ascendentes, segundo a Agência Nacional do Petróleo, do Gás Natural e dos Biocombustíveis (ANP), o preço médio do diesel nas bombas acumula alta de 8% no ano. O valor está acima da inflação acumulada no ano de 0,92%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A atual política de preços da Petrobras é aplaudida por investidores por acompanhar o padrão adotado em alguns países. Alterá-la agora seria interpretado como intervenção do governo na estatal.

Qual a reação do governo?

Inicialmente, o governo, por meio de seus ministros, chegou a dizer que os efeitos da paralisação não eram tão intensos. Ao longo da tarde de quarta-feira, no entanto, Eliseu Padilha (Casa Civil), Carlos Maun (Governo) e Valter Casimiro (Transportes) reuniram-se com lideranças do setor e não conseguiram implicar o pedido de trégua de três dias feito pelo presidente Michel Temer.

No início da noite o presidente da Petrobras, Pedro Parente, anunciou que a estatal irá reduzir o preço do diesel em 10% pelo período de 15 dias. A medida resultaria na queda de 0,25 real no preço do combustível. No anuncio, Parente afirmou que espera “boa vontade” dos caminhoneiros ao aceno. É uma tentativa da empresa ganhar tempo para as negociações. Não foi suficiente para dissolver o movimento.

No Congresso, a primeira iniciativa do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, pré-candidato à presidência pelo DEM, foi anunciar um acordo com o governo para zerar a cobrança da Cide. A medida foi considerada pouco significativa pelo movimento (10 centavos de real por litro de gasolina e 5 centavos no litro do diesel). Agora Maia defende a redução no PIS/Cofins.

Que movimento encabeça as manifestações?

As mobilizações começaram, aparentemente, de forma espontânea em redes sociais, em especial em grupos de WhastApp ainda no fim de semana. As principais entidades que estão em contato com o governo e com a mídia são a Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA), que congrega a maioria dos sindicatos de motoristas autônomos, a Associação Brasileira de Caminhoneiros (Abcam) e a União Nacional dos Caminhoneiros do Brasil (Unicam). A presença destas entidades mostra o caráter patronal das manifestações.

Ao longo dos dias o movimento acabou engrossado pelos caminhoneiros de frota também - isto é, por aqueles que são contratados, com carteira assinada, por transportadoras.

O último balanço dos grevistas, do começo da noite de quarta, mencionava 253 pontos de protestos, atingindo 23 Estados brasileiros e o Distrito Federal.

Qual o impacto das paralisações até agora?

Estratégicos para o abastecimento do País, os efeitos das paralisações dos caminhoneiros são sentidos em vários setores da economia e da sociedade. Há relatos de falta de combustível em diversas cidades de São Paulo, em especial na baixada santista, além de Recife e no Rio de Janeiro. O desabastecimento atingiu, por consequência, os preços dos combustíveis.

A falta de combustível atinge também o transporte público. Em São Paulo, a prefeitura suspendeu o sistema de rodízio de carros nesta quinta-feira, embora a maioria dos ônibus esteja em ciculação.

Há registro de desabastecimento de alimentos. Segundo a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), algumas lojas do País não estão recebendo os produtos, em especial os menos duráveis, como frutas, verduras e legumes.

A Ceagesp, maior distribuidora de alimentos frescos da América Latina, informou que o saco da batata passou de cerca de 70 reais para 200 reais - o mesmo aconteceu em centros de distribuição de alimentos de outros Estados. Do lado da produção, frigoríficos estimam que os prejuízos superam os 200 milhões de reais com as exportações de carne suína e de frango, que deixaram de ser feitas.

Os Correios informaram que suspenderam alguns tipos de entregas rápidas (como algumas modalidades do serviço Sedex). Já os aeroportos de Brasília, Congonhas, Recife, Palmas, Maceió e Aracaju informaram que a partir de hoje ficam sem querosene para reabastecer os aviões. No Nordeste, avões tem feito escala no aeroporto de Salvador para reabastecer, por falta de combustível em outras capitais.

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