Lula e a luta contra as injustiças

Por EMIR SADER*


A vida do Lula é a vida da luta contra as injustiças. E agora ele é vítima da maior das injustiças cometidas contra um líder político no Brasil.

Desde que nasceu, Lula lutou contra as injustiças que o vitimaram como nordestino e como criança nordestina. Lutou contra essa injustiça e contra as injustiças que recaíam sobre sua mãe, mulher nordestina.

Depois Lula seguiu sendo vítima das injustiças, sendo engraxate, office boy, entre outros empregos, como criança nordestina discriminada em São Paulo.

Fez curso e se graduou em torneiro mecânico, passando a ser vítima das injustiças da exploração dos trabalhadores, situação que o fez perder um dedo na máquina.

A passagem para se tornar líder sindical foi aquela de deixar de lutar só contra as injustiças de que ele é vítima, para lutar contra as injustiças que afetam a todos os trabalhadores.

Quando fundou o PT e se candidatou a presidente do Brasil, Lula se comprometeu a lutar contra as injustiças que afetam a todos os brasileiros. E quando se tornou presidente do Brasil, passou a combater as injustiças que afetam a todos os brasileiros e lançou as ideias para lutar contra as injustiças em todo o mundo.

Agora Lula se tornou vítima da maior injustiça contra um líder político no Brasil. Vítima de um processo fajuto, sem crimes e sem provas, baseado na convicção de um juiz partidário, espelhado em um power point ridículo, condenado por juízes que atuam, no seu conjunto, para forjar uma perseguição com claro caráter político contra ele.

As pessoas foram entrando nas minúcias, pensando na Cármen Lúcia, na Rosa Weber, no Barroso, olhando para as árvores, deixando de lado a floresta – a imensa injustiça que se comete contra o Lula, resultado da mais gigantesca perseguição política.

Tudo em contraste com nisso tudo é a grandeza moral e política do Lula, além do apoio de massas, do seu caso de amor correspondido com o povo brasileiro. A forma como ele encara as injustiças de que é vítima, as mentiras contadas sobre ele, as campanhas de difamação, revelam o caráter do Lula de corpo inteiro. Em nenhum momento, nem nos dias entre a decisão negativa do seu habeas corpus no STF até o próprio dia em que teve que se apresentar, seu estado de ânimo mudou. Foi sempre ele quem animou as pessoas, difundindo a confiança de que vai superar também esse obstáculo, para que o desânimo e a desesperança não se abatesse sobre os outros.

Lula não queria se apresentar. A extraordinária mobilização popular no sindicato dos metalúrgicos no ABC fortaleceu essa sua disposição. O fator decisivo para que os planos se alterassem foi a possibilidade de que o Moro decretasse uma prisão preventiva do Lula, a partir da quinta-feira, às 17 horas. Nesse caso, Lula perderia as possibilidades de pedir habeas corpus, o STF perderia qualquer possibilidade de intervir e ele ficaria totalmente nas mãos do Moro.

Foi a partir disso que começaram a se desenvolver as negociações para a apresentação do Lula. Já não se tinha respondido ao decreto do Moro, com a não apresentação no dia e na hora fixados, apelando para a grande mobilização em torno do Lula no sindicato. Além disso, os efeitos da decisão arbitrária do STF fortaleceram a versão de que Lula efetivamente é vítima de uma perseguição política, de que as acusações contra ele não tem fundamento, de que ele se tornará um preso político. Além de que, com a decisão apressada do Moro, fica plenamente configurado de que os riscos de prisão alegados no pedido de HC eram plenamente justificados, aumentando as possibilidades de que Lula consiga um habeas corpus. Além da possibilidade de uma decisão favorável ao restabelecimento do direito constitucional de presunção da inocência, na próxima semana no STF.

Há a confiança assim de que Lula possa recuperar a liberdade em pouco tempo. Nesse caso, sua imagem, que já catalisa hoje o desgaste de um sistema podre, sem legitimidade. Além de que, no tempo em que estiver preso, haverá mobilizações de apoio, visitas de grande quantidade de personalidades brasileiras e internacionais, fazendo da detenção do Lula um problema muito maior para os que o detém, do que para o próprio Lula.

Nenhum líder político que galgou os espaços nacionais e internacionais mais importantes, como Lula, pode voltar para o seu sindicato de origem e ser acolhido de maneira tão extraordinária, revelando como continuou sempre fiel às suas origens. Nunca como nestes tempos a imagem do Lula se projetou de maneira tão formidável. Nunca o brilho de um líder político foi tão alto como a luz que projeta o Lula. No seu discurso de despedida, antes de se apresentar, retomou seu histórico político de vida, recordou como foi ali, naquele sindicato que ele se iniciou na política e se construiu como dirigente. E concluiu recordando que "as ideias não podem ser presas".

O destino do Brasil continua dependendo do Lula, que aceita mais um difícil desafio na sua vida, da qual dependerá' o futuro do país e, em parte, da própria América Latina. Agora o desafio de superar a monstruosa injustiça que se faz contra ele, para voltar a combater as injustiças que se fazem contra todos os brasileiros.

*Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

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