A duas semanas das prévias, PSDB paulista não tem conciliação no horizonte

Carta Capital

Com pleito fragmentado em quatro nomes e desfiliação de Covas Neto, o “rolo compressor” de Doria aprofundou o racha da sigla
Prefeitura de São Paulo
O prefeito de São Paulo, João Doria Jr., em reunião com dirigentes de hospitais na semana passada

Às vésperas das prévias que definirão o candidato do PSDB ao governo de São Paulo, o racha que se estende desde 2016 no partido não dá sinais de melhora. Os tucanos seguem divididos entre os apoiadores da candidatura do prefeito da capital, João Doria Jr., e a ala mais tradicional, que prefere alguém com um histórico de militância na sigla.

A própria realização de prévias foi motivo de desavenças. Os apoiadores de Doria se opõem a um pleito interno, e chegaram a tentar emplacar o nome do prefeito como proposta de consenso. Não funcionou.

O grupo conseguiu, no entanto, uma vitória ao marcar a data das prévias para 18 de março. Trata-se de uma data amigável a Doria, que tem até 7 de abril para deixar o cargo se quiser ver seu nome nas urnas. Com as prévias em março, Doria pode deixar a prefeitura com a certeza de que será o candidato do partido. Se elas ocorressem depois de 7 de abril, ele teria de participar da disputa interna fora da prefeitura, arriscando perder o comando da cidade e ficar sem a chance de concorrer ao governo.

A marcação da data foi vista pelos chamados cabeças-brancas, o setor mais tradicional do partido, como uma tentativa de impedir o debate. “Não faz sentido fazer prévias em março. Estamos a cinco meses das convenções”, criticou o ex-senador José Aníbal, veterano do partido e candidato às prévias estaduais.

Presidente do Instituto Teotônio Vilela, fundação ligada ao PSDB, Aníbal trabalha com a possibilidade de postergar as prévias para prorrogar o debate interno. A decisão final quanto a isso cabe à Executiva Nacional do PSDB. Contatada, a assessoria de imprensa do diretório paulista da sigla confirmou que essa data “sempre pode mudar, já que estamos em uma democracia”, ainda que não seja provável que isso aconteça.

“Acho que o prefeito deveria ficar onde está, saldar os compromissos que prometeu”, afirmou Aníbal. “A candidatura vai na contramão da expectativa do eleitor sobre ele. Noto muita atitude dele de uso da máquina do município para favorecer a candidatura”, disse.

Decisiva na resolução do PSDB deve ser a posição de Geraldo Alckmin. Padrinho político de Doria, o governador apoiou o atual prefeito nas prévias de 2016, quando o empresário foi acusado, por tucanos insatisfeitos, de comprar votos naquele pleito interno. Em 2017, Doria flertou com uma candidatura presidencial, o que incomodou Alckmin, mas após sua popularidade despencar o governador voltou a ser o principal nome do PSDB.

Pessoas próximas a Alckmin acreditam que ele é mais favorável à candidatura de Márcio França (PSB), o atual vice-governador, do que à de Doria. Gostaria, assim, que o PSDB abrisse mão do governo que controla há duas décadas para apoiar o PSB. A ideia sofre resistência dentro do PSDB, e Alckmin não parece decidido quanto ao nome que irá apoiar perante os correligionários. Outra possibilidade é Alckmin ter dois palanques em sua campanha presidencial, o de França e o do PSDB.

Além de Doria, os outros pré-candidatos da legenda são o deputado federal Floriano Pesaro (SP), e Luiz Felipe d’Avila, um cientista político que nunca ocupou nenhum cargo público e, devido a isso, enfrenta descrença dos tucanos mais experientes.

“Partido de donos”

Para além do racha, o PSDB teve uma baixa simbólica na semana passada, com a saída do vereador Mário Covas Neto do partido. Ele é filho do ex-governador Mário Covas, líder histórico e co-fundador da sigla. Seu sobrinho, Bruno Covas, é o vice-prefeito de São Paulo e assumirá a cidade caso Doria dispute o governo.

No discurso em que anunciou a sua desfiliação, Covas Neto não citou Doria pessoalmente, mas elencou como motivos os “projetos individuais de mando, deslealdade entre companheiros, desprezo e incompreensão” do propósito do partido. Também condenou a “fisiologia” e a transição de “um partido de líderes” para “um partido de donos”.

“Não vejo mais o PSDB como via. O partido que está aí não me representa”, leu de uma folha, cercado de jornalistas e colegas da ex-sigla em um evento dedicado inteiramente ao anúncio. Estava à frente de um banner com uma citação de seu pai.

“Você tem a atuação do Aécio, que dominou o partido ao seu gosto, postergou convenções porque era conveniente, queria ficar na presidência [do PSDB] até meados de julho”, disse o vereador a CartaCapital. Covas Neto se opôs à permanência de Aécio na sigla, e à ausência de atitude do PSDB na ocasião. Reiterou, no entanto, que não se dirige a ninguém em especial, e sim à atuação do partido.

Mesmo tendo participado ativamente da campanha de Doria, Covas Neto lamentou a pré-candidatura do prefeito. “Talvez seja esse tipo de atitude o que a população mais condena hoje. É um político que não é capaz de cumprir com os seus compromissos.” Em 2016, Doria prometeu diversas vezes que cumpriria o mandato até o fim.

A forma como a sigla tratou sua saída incomodou alguns tucanos. “É absurdo não ter havido um movimento partidário intenso para que se impedisse a perda do Zuzinha [apelido de Covas]”, afirmou o deputado estadual Carlos Bezerra Jr., que recentemente comparou a candidatura de Doria a um “rolo compressor”.

A saída de Covas Neto pode colocá-lo em oposição a Doria. O vereador já se reuniu com membros de outras siglas e um de seus destinos poderia ser a candidatura a vice-governador, justamente na chapa liderada por Márcio França.

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