Dia do que mesmo?

Hoje é 14 de fevereiro! É Dia dos Namorados nos EUA.
Comprem flores para quem vocês amam

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

Hoje é dia do bom bispo São Valentim, o que significa, em países acima do Equador, Dia dos Namorados. Momento ainda de frio intenso por lá, é dia de trocar cartões com amados e amadas, bem como com todas as pessoas que nos sejam caras. Nada melhor do que ser amado no inverno, quando tudo convida ao contato dos corpos e às juras feitas sob edredom. O inverno é amigo da mais aconchegante posição do sono celeste dos apaixonados: a conchinha.

No Brasil, a moda foi introduzida por uma campanha publicitária levada adiante pelo pai do atual prefeito de São Paulo. Há controvérsias, como sempre, mas parece que a campanha para a loja Exposição Clipper explorou a véspera do dia de Santo Antônio para preencher um mês ruim de datas e de compras. Assim, com o slogan “não é só com beijos que se prova o amor”, começou um movimento crescente que tornaria o dia 12 de junho o “Dia dos Namorados”.

A véspera de Santo Antônio era dia de ações mágicas para descobrir a pessoa ideal para o casamento. Por exemplo, caso você não tenha tentado, basta colocar o nome de todas ou todos os pretendentes possíveis sob o travesseiro, adormecer com uma oração ao santo luso-italiano e, pela manhã, meter a mão e pegar o primeiro papel que surgir. Et voilà, o nome do seu ou da sua futura esposa/marido! Certa feita ouvi algo em estilo Câmara Cascudo (nosso grande folclorista): olhe em um espelho à meia-noite da transição 12 para 13 de junho e, garantem os devotos, aparecerá o rosto da cara-metade. Advertência importante: se você for morrer solteiro ou solteira, aparecerá o rosto de Satanás. Alguém quer tentar? Ideias de um tempo em que não casar era um castigo infernal.

O Dia dos Namorados no Brasil tinha muitas vantagens. Namorar no calor de fevereiro e perto do carnaval? Dia dos Namorados em 14 de fevereiro? Ideia absurda: a festa de Momo não inclina a juras de amor eterno. Tudo deve se acabar na cinérea quarta-feira. Fidelidade não baila no salão. Colombinas e Pierrôs dançam livres por definição. Além de tudo, o calor infernal que levou Machado de Assis a chamar o mês de “fervereiro” na capital do País, é ruim para ficar abraçado por longos períodos. O amor deve crescer no frio e junho é perfeito.

Todas as datas festivas são fruto de invenção histórica. Ninguém comemorou o Natal por séculos no Cristianismo. O Dia das Mães é uma criação dos EUA, em 1908. O Dia dos Pais é comemorado aqui em agosto e em outros países no dia de São José, 19 de março. O Dia do Trabalho nos EUA é em setembro. O Dia do Professor, na Argentina, é o aniversário do falecimento do presidente-professor Domingo Faustino Sarmiento. Aqui coincide com a festa de Santa Teresa D’Ávila, 15 de outubro.

Datas movimentam o comércio. Existem compras, festas e celebrações. O governo japonês criou festividades aleatórias para estimular o poupador japonês médio a comprar coisas e ativar economia. País formal, no qual o presente deve ser bem embalado e bem apresentado e oferecido com as duas mãos e com leve curvatura, os japoneses precisam gastar mais e vão surgindo datas para a cultura do “zoto” (presente) dentro da “giri” nipônica (obrigação social).

O Dia dos Namorados “pegou no Brasil”, assim como o Dia das Mães e dos Pais. O Dia dos Avós (26 de julho) e o Dia do Vizinho (23 de setembro) nunca encontraram igual repercussão. Óbvio que pior destino ainda teve o Dia da Sogra, 28 de abril, que não costuma causar correrias em shoppings nem ofertas especiais nas lojas. Nunca vi estabelecimentos comerciais apinhados de fregueses tensos: preciso de uma oferta para minha sogra!

Existe um simpático Dia Internacional do Amigo (20 de julho) e um brasileiro (18 de abril). Muito? Calma! Tem ainda o Dia do Amigo do Facebook, aquele indivíduo afetuoso que só existe em fótons: 4 de fevereiro. O pior de todas essas datas é que surgem mensagens que circulam, cenas que brilham com música, textos cafonas e de gramática ruim e muitas flores e anjos.

Reconheçamos: o cérebro masculino costuma vir com o defeito de fábrica de colocar datas em lugar inacessível. Pode ser cultural e pode ser até um preconceito, mas as mulheres cobram o aniversário daquela prima segunda em Sorocaba e como você foi esquecer que hoje faz 17 anos que trocamos o primeiro beijo. Homens: usem mão do computador, coloquem aniversários em lembradores automáticos, baixem aplicativos, elaborem cartazes e calendários, construam sistemas auxiliares da memória. Surpreendam pela ousadia: hoje é 14 de fevereiro! É Dia dos Namorados nos Estados Unidos. Comprem flores para as mulheres ou para os homens que vocês amam. Se houver surpresa, enfatizem quase indignados: eu quero te homenagear duas vezes, pois! Querem bônus? Ouçam o conselho: dia 22 de setembro é o Dia do ou da Amante. Presenteiem a esposa ou o marido dizendo que só desejam eles/elas por amantes! Funciona. Dê presentes no Dia da Mulher, 8 de março. Se querem chegar à perfeição, façam cartões. Existe também um Dia Internacional do Homem (19 de novembro) e um Dia brasileiro do Homem em 15 de julho. Se for seu caso, demande presente nas duas datas.

Datas são fundamentais. Comemorações não devem ser esquecidas. Acha a ideia irritante? Detesta essas invenções comerciais e babacas? Sempre haverá o recurso da solidão, benéfica quando é nossa opção e terrível quando é imposta pelos outros. Boa semana para todos nós!

(Foto: Editoria de Arte/G1)

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