Defensor de ex-presidente insistiu em controlar estratégia jurídica enquanto tentava resgatar relógio nos Estados Unidos
Por Rafael Moraes Moura — Brasília
O Globo
O advogado Frederick Wassef, durante entrevista coletiva no Palácio do Planalto
Foto: Cristiano Mariz/Agência O Globo
Bessa é homem de confiança do presidente nacional do
PL,
Valdemar Costa Neto, enquanto Wassef, considerado agressivo e temperamental, por integrantes do partido, sempre foi do círculo íntimo do ex-presidente.
Logo após a visita de Bessa à sede do PL, Wassef se apressou em soltar uma nota em defesa de Bolsonaro para marcar posição como responsável pela estratégia jurídica do ex-presidente.
Insistiu, ainda, que ficasse expresso nas reportagens a respeito do caso que era ele o advogado do presidente e não nenhum outro.
Hoje se sabe que pouco depois, o próprio advogado se envolveria de corpo e alma na ofensiva para salvar o cliente, conforme revelou a Polícia Federal em seu relatório que sustentou os pedidos de busca e apreensão e subsidiou a decisão do ministro
Alexandre de Moraes.
Segundo a PF, foi Wassef quem se encarregou de ir aos Estados Unidos para recomprar o relógio Rolex de platina cravejado de diamantes que havia sido vendido para uma joalheria local, quando o Tribunal de Contas da União ordenou que as joias fossem devolvidas.
Antes disso, Wassef já tinha tentado emplacar a tese de que as joias eram itens pessoais e não parte do patrimônio público.
Na nota pública divulgada logo após a descoberta das joias, o advogado afirmou que Bolsonaro agira dentro da lei e que “declarou oficialmente os bens de caráter personalíssimo recebidos em viagens, não existindo qualquer irregularidade em suas condutas.”
Pela lei, os itens de caráter personalíssimo são os únicos que os ex-presidentes podem levar consigo depois de deixar o posto.
Para tentar resolver o caso, o ministro do
TCU Augusto Nardes chegou a decidir que Bolsonaro deveria manter intacto o kit de joias, mas o Ministério Público junto ao tribunal recorreu pedindo que Nardes determinasse a devolução dos itens.
Àquela altura, já estava claro que a maior parte dos ministros votaria pela devolução das joias – o que só seria confirmado pelo plenário no dia 15.
E foi assim que, no dia 11 de março, Wassef embarcou num voo de Campinas para a Flórida. Ele só voltou ao Brasil no dia 29, trazendo o relógio na bagagem.
De acordo com a PF, os investigados dividiram a “operação de resgate” em duas etapas.
Em um primeiro momento, o relógio Rolex Day-Date foi recuperado no dia 14 de março pelo próprio Wassef, que retornou com ele ao Brasil em 29 de março.
Em 2 de abril,
Mauro Cid e Wassef se encontraram na cidade de São Paulo. Ali, o relógio mudou de mãos, passando para o ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, que por sua vez retornou no mesmo dia para
Brasília e o entregou para Osmar Crivelatti, assessor do ex-presidente
Jair Bolsonaro.
“Toda a operação foi realizada de forma escamoteada, fato que permitiu aos investigados devolverem os bens sem revelar que todo o material estava fora do país, ao contrário das afirmações prestadas”, aponta o relatório da Polícia Federal.
Diante das descobertas da Polícia Federal, fica mais fácil entender por que Wassef insistiu tanto em se manter no controle da estratégia jurídica de Bolsonaro. A equipe da coluna tentou entrar em contato com Wassef, mas ainda não obteve resposta.
Comentários
Postar um comentário