Mercadante no BNDES aproxima Lula 3 de Dilma 2. E Ibovespa cai 1,71%

Lula ratifica projeto de distribuir crédito a juros baixos via bancos públicos, num momento em que o BC ainda tem uma inflação a combater – via juros altos. IPCA+ 2026 vai a 6,40%

Por Alexandre Versignassi
VC S/A


Como o pessoal está dizendo nos grupos de zap: ainda bem que o Brasil perdeu nas quartas – evitou um vexame contra a Argentina agora na semi. Mas a Faria Lima teve seu 7 a 1 particular hoje: Mercadante confirmado para o BNDES.

Na entrevista coletiva que marcou o fim dos trabalhos da equipe de transição, Lula dirigiu-se ao colega de partido e disse: "Eu, Aloizio Mercadante, vi algumas críticas sobre boatos de que você será presidente do BNDES. Eu queria dizer para você que não é mais boato: Aloizio Mercadante será presidente do BNDES."

O Ibovespa vinha em alta, acompanhando os EUA (mais sobre isso adiante). Anúncio feito, veio o desabamento. Queda de 1,71%.

Lula já tinha se cansado de dizer que "fortaleceria os bancos públicos". Ou seja: usaria BNDES, Caixa e cia para distribuir crédito farto e barato, à imagem semelhança do que ocorreu no segundo mandato de Dilma Rousseff. E ratificou essa filosofia hoje na coletiva. Disse que, com Mercadante à frente, o banco de desenvolvimento concederia financiamento "ao pequeno, ao grande, ao médio empresário, para que esse país volte a gerar empregos".

Palavras bonitas para uma atitude temerária. A concessão de empréstimos subsidiados, a juro baixo, num momento em que há uma inflação a ser domada com juros altos é aquilo que os economistas chamam de "política parafiscal". A política fiscal "normal" são os gastos diretos do governo, como o pagamento do Bolsa Família. A "parafiscal" é a injeção extra de dinheiro na economia via bancos públicos.

A própria ata do Copom, divulgada hoje mais cedo, alertava para essa questão. Ela dizia: "Mudanças em políticas parafiscais ou reversão de reformas estruturais que levem a alocação menos eficiente de recursos podem reduzir a potência da política monetária".

Tradução: se o governo gastar demais, nem aumentos extras da Selic terão efeito sobre a inflação, e cairemos para o pior dos mundos, com preços em alta e juros idem.

Lógico. Altas na Selic servem para drenar dinheiro da economia. É assim que se combate a inflação. E o anúncio que Lula deu hoje vai na contramão. Mercadante é um defensor clássico de gastos públicos desenfreados como ferramenta para o crescimento econômico. Faz parte da linhagem de economistas que considera a preocupação com a inflação uma "falácia neoliberal".

Falta combinar com a realidade. Décadas de políticas perdulárias destruíram o valor da moeda brasileira diversas vezes. Uma hiperinflação de 19 quatrilhões por cento entre 1953 e o estabelecimento do Plano Real foi a grande geradora de pobreza no país no século passado. Graças a ela, viramos aquilo que o economista Edmar Bacha chamou de "Belíndia" – uma Bélgica de riqueza cercada por uma Índia de miséria.

IPCA+2026 a 6,40%

A ata do Copom, enfim, também diz que o BC retomará as altas na Selic, "caso o processo de desinflação não transcorra como esperado". É o Banco Central deixando claro que, se o governo atrapalhar a luta contra a inflação, terá como resposta mais aumentos na Selic – eventualmente fortes, para compensar a "potência reduzida" do efeito diante de uma política fiscal perdulária.

Resultado: após o anúncio de Mercadante, os juros dos títulos de inflação explodiram. O IPCA+2035 foi a 6,37% – maior patamar desde abril de 2016. Só para constar: a maior taxa para esse título rolou em janeiro de 2016: 7,80%.

Em condições normais de temperatura e pressão o IPCA+2026 paga menos que 2035, já que vence nove anos antes. Mas as condições agora têm rigorosamente nada de normais. E o IPCA+2026 fechou em 6,40% – maior taxa de sua história.

E claro: tem a Lei das Estatais, que veta a indicação de pessoas que trabalharam na "estrutura decisória de partido político" nos últimos 36 meses – para evitar nomeações puramente políticas em empresas do governo, caso do BNDES. Mercadante foi peça-chave da campanha petista. Mas é aquilo: se Lula já confirmou Aloizio é porque pretende costurar o fim da Lei no Congresso.

Inflação americana em baixa

A inflação nos EUA foi de apenas 0,1% em novembro – aqui, só para comparar, foi de 0,4%. Veio abaixo do consenso do mercado, que apontava para 0,3%. Com isso, a inflação americana em 12 meses caiu para 7,1% (ante 7,7% em outubro). É uma bela notícia: mostra que o aperto do Fed nos juros está colocando rédeas na inflação. E não menos importante: indica que tal aperto deve afrouxar mais hora menos hora.

No caso, amanhã mesmo. O Fomc (Copom dos EUA) vai anunciar amanhã o novo aumento na taxa. Desde junho, o banco central americano tinha lascado quatro aumentos seguidos de 0,75 ponto percentual. Com esses números de agora, porém, deve-se confirmar a primeira alta abaixo desse patamar – provavelmente em 0,50 pp, elevando a "Selic" deles para 4,5%.

Não só. Com a inflação freando, começam as apostas pra que as QUEDAS nos juros venham antes do esperado. Isso, claro, deu uma bela força para o mercado. O S&P 500 deu um respiro hoje: alta de 0,73%.

A chave aqui é o "antes do esperado". O mercado já aguardava o início dos cortes para o segundo semestre de 2023. Mas é puro chute. Jerome Powell, o presidente do Fed, já deixou claro por A+B que não vai cogitar um corte caso não veja a inflação cair com força rumo à meta deles, que é de 2%. E ainda estamos em 7%...

O ING, um banco global de origem holandesa, imagina que o Fed queira ver pelo menos três ou quatro meses de inflação abaixo de 0,2% ao mês "para ter certeza de que a luta está sendo vencida". A ver.

Galípolo: o número 2 da Fazenda

O braço direito de Haddad será o ex-banqueiro Gabriel Galípolo, apresentado nesta manhã numa reunião de Haddad com Paulo Guedes como futuro secretário-executivo da Fazenda.

Galípolo, de 39 anos, foi CEO do banco Fator entre 2017 e 2021. Durante a campanha de Lula, ele fez a ponte entre os assessores econômicos do PT e o mercado financeiro em busca de apoio para a candidatura.

O economista é favorável a parcerias público-privadas e à reforma tributária – bem vinda menina dos olhos de Haddad. Em uma entrevista recente à revista Veja, disse que pretende rever a reforma trabalhista, principalmente para acolher profissionais como motoristas de Uber, entregadores de comida e agentes autônomos de investimentos Com um adendo: "não significa desfazer tudo que foi feito, que me parece ser o maior receio do mercado, mas sim olhar para a frente.”

Não é o que rolou no BNDES.

Até amanhã.

Maiores altas
Petz (PETZ3): 2,69%
Braskem (BRKM5): 1,48%
3R (RRRP3): 0,90%
Ambev (ABEV3): 0,26%
PetroRio (PRIO3): 0,72%

Maiores baixas
Suzano (SUZB3): -6,43%
Rumo (RAIL3): -5,22%
Marfrig (MRFG3): -4,82%
Banco do Brasil (BBAS3): -4,74%
Eztec (EZTC3): -4,60%

Ibovespa: 1,71%, aos 103.539 pontos.

Em NY:
S&P 500: 0,74%, aos 4.019 pontos
Nasdaq: 1,01%, aos 11.256 pontos
Dow Jones: 0,31%, aos 34.110 pontos

Dólar: 0,07%, a R$ 5,31

Petróleo
Brent: 3,45%, a US$ 80,68
WTI: 3,03%, a US$ 75,39

Minério de ferro: -0,19%, a US$ 115,79 a tonelada na bolsa de Dalian

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