O papel da mídia no acirramento da violência

A defesa de milícias privadas, linchadores de aluguel e grupos de extermínio revela o atraso civilizatório de quem aposta na “justiça” pelas próprias mãos.


Hamilton Octavio de Souza


De tempos em tempos a posição mais extremada de alguém da mídia cria desconforto até mesmo aos setores conservadores e de direita – da mídia e da sociedade. É o que aconteceu na última semana, quando uma notória comentarista do SBT, a TV de Sílvio Santos, defendeu em rede nacional o apoio aos atos de violência praticados por uma gangue de motoqueiros, que atacou, espancou e prendeu em um poste, covardemente, no Rio de Janeiro, um adolescente de 15 anos.

Não é de hoje que jornalistas e privilegiados cidadãos com amplo acesso aos meios de comunicação usam e abusam de discursos a favor da truculência de vigilantes, milicianos e esquadrões da morte. É sintoma persistente num país que não se livrou das heranças coloniais e escravocratas, em que a brutal desigualdade ainda separa o mundo em casa grande e senzala, ricos e pobres e acintosamente divide a sociedade entre os portadores e os desprovidos de direitos.

A característica mais evidente deste tipo de postura – que tem porta-vozes na mídia, no Congresso Nacional, nas Forças Armadas e nos mais diferentes espaços públicos e privados – é que seus autores não apenas se colocam acima das regras mais elementares do pacto de vida em sociedade, mas deliberadamente confrontam as leis, a Constituição Federal e a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pela ONU em 1948.

Já tivemos em horário nobre da televisão brasileira inúmeros apresentadores de programas regionais e/ou nacionais, que defendiam abertamente o massacre de cidadãos acusados ou suspeitos da prática dos mais simples delitos, como o roubo de alimentos ou de qualquer bem de uso pessoal. Tais jornalistas e comunicadores sempre se valeram de bordões como “bandido bom é bandido morto” ou “lugar de bandido é na cadeia”, tudo para sensacionalizar os casos muitas vezes baseados apenas na versão da polícia.

É inaceitável verificar que as grandes redes de TV – Globo, Record, SBT, Band – ainda abrigam programas nos quais o babão ou a babona de plantão, verdadeiros pitbulls da selvageria, continuam destilando ódio de classe ou étnico ou de gênero ou de sexo contra pessoas indefesas e fragilizadas, utilizando assim o poder da comunicação de massa para atiçar contra elas toda a ira do sistema, inclusive a dos indivíduos que são pagos para matar.

Da mesma forma ainda temos no Congresso Nacional e nos vários níveis do Legislativo, parlamentares eleitos pelo voto popular que defendem as mais medievais formas de violência, seja contra os povos indígenas e os trabalhadores rurais sem terra ou seja contra as mulheres, os gays ou os jovens negros e pobres das periferias do Brasil, que são – em todas as estatísticas, as maiores vítimas fatais da intolerância econômica, social e cultural.

Todo mundo deve se lembrar de uma frase de um deputado federal de São Paulo, quando defendeu um estuprador que havia assassinado a sua vítima. Ele disse:“quer estuprar, estupra, mas não mata”, como se tal interpretação pudesse amenizar a barbárie contida na ação criminosa. Todo mundo também deve se lembrar de que na Câmara Municipal e na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro já tivemos, até recentemente, diversos aliados das milícias formadas nos bairros da Baixada Fluminense.

Existem, em São Paulo, inúmeras denúncias sobre a atuação dos grupos de extermínio formados nos quartéis da Polícia Militar do Estado de São Paulo, integrados por PMs, e que são responsáveis por inúmeros assassinatos nos últimos anos. Seus crimes são acobertados pelas autoridades e fazem parte não apenas da política de intimidação das populações periféricas, mas também, muitas vezes, esses policiais estão envolvidos nas organizações do tráfico de drogas, roubo de cargas e desmanches de veículos furtados.

Nada disso é novidade no Brasil: nos anos de 1960 e 1970 atuaram em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Espírito Santo e outros estados, os famigerados “esquadrões da morte”, todos comandados por policiais. Durante anos esses esquadrões assassinaram centenas de pessoas sem passagem policial, suspeitos de crimes e presos (muitas vezes retirados de delegacias e cadeias) como se seus integrantes fossem “juízes” e “tribunais” da sociedade acima da lei e do respeito aos direitos dos cidadãos – entre os quais os de ter presumida a sua inocência, ter ampla defesa e, se condenado, por Justiça idônea, cumprir a pena sem a violação de sua integridade física.

O que parece chocar muita gente, atualmente, é verificar que na imprensa e nos mais influentes meios de comunicação, ainda existem profissionais – jornalistas ou não – adeptos e propagandistas das práticas do “justiçamento” de pessoas por grupos que se consideram acima das leis e da sociedade. Infelizmente, os concessionários das emissoras de rádio e TV adoram os programas que babam violência e defendem a barbárie, porque aumentam a audiência pelo sensacionalismo, mas eles lavam as mãos quando o conteúdo exige a sua responsabilidade.

Se a ausência de segurança pública é um problema sério no Brasil, e se os cidadãos comuns estão cansados da inoperância do Estado, a saída evidentemente não é acirrar uma guerra sem fim no seio da sociedade, que só vai favorecer ainda mais os ricos e poderosos (que podem comprar e dispor de todos os esquemas para garantir a sua segurança), mas está em exigir dos políticos e das autoridades medidas que reduzam as desigualdades e melhorem as condições de vida para todos. Fora disso será apostar na barbárie generalizada.

Hamilton Octavio de Souza é jornalista e professor.

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