Bolsonaro diz que jornalistas são ‘raça em extinção’ e que ler jornal ‘envenena’

Presidente lembrou que mandou cancelar a compra de jornais e revistas impressas no Planalto

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA – Em novo ataque à imprensa, o presidente Jair Bolsonaro disse nesta segunda-feira, 6, que jornalistas são uma “raça em extinção” e que ler a imprensa “envenena”. Bolsonaro afirmou que vincularia os repórteres ao Ibama, órgão que, entre outras atribuições, defende animais ameaçados. “Vocês são uma espécie em extinção. Eu acho que vou botar os jornalistas do Brasil vinculados ao Ibama. Vocês são uma raça em extinção”. 


A declaração foi feita em frente ao Palácio da Alvorada, onde o presidente costuma falar com a imprensa e tirar selfies com apoiadores. Bolsonaro disse que a imprensa “não sabe nem mentir mais”, mas que não iria estender as críticas a todos os jornalistas. “Para não ser processado pela ANJ (Associação Nacional de Jornais) e não sei o quê”, justificou.

O presidente disse que “cada vez mais gente não confia” na imprensa. E lembrou que mandou cancelar a compra de jornais e revistas impressas ao Planalto. 

O presidente Jair Bolsonaro em frente ao Palácio da Alvorada 
 Foto: Gabriela Biló/Estadão

A Presidência não renovou contrato para compra deste periódicos – nacionais e internacionais –, que se encerrou no final de 2019. Firmada em 2017, a compra era de R$ 582.911,40 anuais e abastecia o Palácio do Planalto e o escritório regional da Presidência em São Paulo, além de fornecer assinaturas digitais.

“Todos, todos (foram cancelados). Não recebo mais papel de jornal ou revista. Quem quiser que vá comprar. Porque envenena a gente ler jornal. Chega envenenado”, disse ele. O novo ataque de Bolsonaro à imprensa começou após ele ser questionado se enviaria antes ao Congresso Nacional a proposta de reforma administrativa ou a tributária.

Na mesma entrevista, o presidente disse, ainda, que tem uma vida difícil. E afirmou, sem provas, que jornalistas “ensaboavam” ex-presidentes por causa de pagamentos mais altos de publicidade às empresas de comunicação. 

“A vida do presidente que quer fazer pelo Brasil não é fácil. Nunca vocês tiveram um presidente que conversasse tanto com vocês. Nunca. E, quando conversavam, era só ensaboar, e vocês aceitavam por quê? Porque recebiam mais de R$ 1 bilhão por ano a título de propaganda. Aí, pô, fica quieto, vai dizer que papai e mamãe está tudo bem, mas não estava. O Brasil estava afundando”, declarou. 

Ataques à imprensa

Em 20 de dezembro, o presidente se irritou com repórteres ao ser questionado sobre a operação de busca e apreensão que teve como alvo seu filho mais velho, senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ). Na ocasião, ele disse que um repórter tinha “uma cara de homossexual terrível”.

No dia seguinte, Bolsonaro recebeu jornalistas no Palácio da Alvorada, quando não elevou o tom de voz ao responder sobre o mesmo tema. Naquela entrevista, o presidente disse que se controlava ao falar com jornalistas. Observou, ainda, que a mídia o “provoca” para ter manchete. 

Bolsonaro afirmou, à época, que reflete sobre algumas declarações e se arrepende em alguns casos. Ele comparou a relação com a imprensa a um jogo de futebol. “É igual futebol: ali na frente, de vez em quando, você manda seu colega para a ponta da praia (base da Marinha que teria sido usada como local de tortura na ditadura militar)”, disse o presidente, em tom irônico. “Depois vai tomar uma tubaína com ele.”

Em nota, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) classificou como “estapafúrdias” as declarações de Bolsonaro. “O presidente não deve confundir o que talvez seja um desejo oculto seu com a realidade. Enquanto a informação for uma necessidade vital nas sociedades modernas, e ela será sempre, o jornalismo vai continuar a existir”, afirma o texto assinado pelo presidente da entidade, Paulo Jerônimo de Sousa

Procuradas, a ANJ e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) afirmaram que não iriam se pronunciar sobre as declarações do presidente.

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