Flávio Bolsonaro e Marco Rubio. A aproximação política entre integrantes da família Bolsonaro e autoridades americanas ganhou novo capítulo após a divulgação da carta em que Rubio menciona a oferta de uma futura equipe de transição "à disposição" do governo dos Estados Unidos
Durante anos, o bolsonarismo fez do patriotismo sua principal bandeira. Vestiu verde e amarelo, cantou o Hino Nacional em manifestações, ergueu a bandeira do Brasil como símbolo de uma suposta defesa incondicional da pátria e passou a tratar qualquer crítica como falta de amor ao país.
Mas o verdadeiro patriotismo não se mede pelo número de bandeiras desfraldadas, nem pelo volume dos discursos inflamados. Patriotismo se revela quando os interesses nacionais entram em rota de colisão com interesses estrangeiros. É nesse momento que se descobre quem está disposto a defender o Brasil e quem prefere dobrar a cabeça.
A carta de Marco Rubio, agradecendo a Flávio Bolsonaro por colocar uma futura equipe de transição "à disposição" do governo americano, não pode ser analisada isoladamente. Ela se soma às declarações de Donald Trump sobre as eleições brasileiras, às sucessivas viagens e encontros de integrantes da família Bolsonaro com autoridades dos Estados Unidos e ao contexto de tensões comerciais entre os dois países.
Enquanto o Brasil enfrenta medidas que considera prejudiciais à sua economia e à sua soberania, um candidato à Presidência sinaliza disposição para estreitar relações com o mesmo governo responsável por essas pressões. É natural que isso desperte questionamentos.
Não se trata de condenar o diálogo internacional. Quem almeja ser presidente deve conversar com governos estrangeiros, negociar acordos e buscar oportunidades para o país. A questão está na postura adotada. Há uma diferença significativa entre defender os interesses do Brasil em uma mesa de negociação e transmitir a imagem de disponibilidade política a uma potência estrangeira.
É justamente aí que surge uma palavra incômoda: vassalagem. A história registra esse termo para definir a relação em que um poder menor se submete aos interesses de outro. Evidentemente, não se pode afirmar que esse seja o caso sem provas de compromissos assumidos. Mas a linguagem empregada, somada ao contexto político, abre espaço para um debate legítimo sobre até onde vai a cooperação e onde começa a submissão.
Outra palavra inevitável é entreguismo. Quando um discurso nacionalista convive com gestos que podem ser interpretados como excessivamente complacentes diante de um governo estrangeiro, a coerência passa a ser colocada à prova. Quem construiu sua identidade política afirmando defender a soberania nacional precisa explicar por que escolheu essa forma de interlocução justamente em um momento de atritos entre Brasil e Estados Unidos.
Também é impossível ignorar o debate sobre submissão. Em política internacional, as palavras têm peso. A diplomacia vive de símbolos. Por isso, expressões como "colocar minha equipe de transição à disposição" não são neutras. Elas comunicam uma postura que naturalmente será interpretada por aliados, adversários e, principalmente, pela sociedade brasileira.
Há ainda uma contradição que merece reflexão. Durante anos, opositores foram acusados de "entregar o Brasil" sempre que buscavam aproximação com governos estrangeiros. Agora, diante desse episódio, os mesmos critérios deveriam valer para todos. Se a régua muda conforme o personagem político, deixa de ser patriotismo e passa a ser conveniência.
É por isso que a palavra antipatriotismo entrou no debate público. Não porque exista uma sentença jurídica sobre o caso, mas porque muitos brasileiros se perguntam se atitudes dessa natureza correspondem ao comportamento esperado de alguém que pretende governar o país em nome de todos os brasileiros.
Questionar esses fatos não é perseguir adversários. Tampouco significa condenar previamente quem quer que seja. É exercer um dos pilares da democracia: fiscalizar aqueles que aspiram ao poder.
No fim das contas, a pergunta permanece de pé e talvez seja a mais importante de todas: quando os interesses do Brasil entram em conflito com os interesses de uma potência estrangeira, de que lado deve estar um verdadeiro patriota?
Cada leitor responderá à sua maneira. Mas essa resposta dirá muito sobre o significado que atribuímos à palavra "patriotismo".
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