"Não sou escravo de nenhum senhor": Tuiuti desfila contra retrocesso

por Ana Luiza Basilio
Carta Capital

Escola de samba faz críticas à Reforma Trabalhista e a perda de direitos sociais dos trabalhadores no governo Temer

Mauro PIMENTEL / AFP
Último carro da escola faz crítica ao presidente Michel Temer e a Reforma Trabalhista

Quarta escola a cruzar a Sapucaí no primeiro dia de desfile do grupo especial no Rio de Janeiro, a Paraíso do Tuiuti investiu em um tom político, carregado de críticas sociais. Com o enredo, “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”, dos compositores Claudio Russo, Moacyr Luz, Dona Zezé, Jurandir e Aníbal, a escola recontou a história da escravidão no Brasil, nos 130 anos da Lei Áurea, propondo uma reflexão sobre a exploração do trabalho humano.

Ao som do refrão “Meu Deus! Meu Deus!, se eu chorar não leve a mal, pela luz do candeeiro, liberte o cativeiro social”, a escola surpreendeu já na comissão de frente, chamada “O Grito da Liberdade”. Os passistas representaram escravos negros amordaçados, com grilhões nos pulsos e corpos ensanguentados de tanto apanhar do senhor do engenho, também negro.

Com 29 alas, a escola explorou o tema das mais diversas formas, representando o trabalho escravo rural, o tráfico de escravos, o trabalho informal e relembrando a publicação do primeiro jornal da imprensa negra no Brasil, “o Mulato”, em 1833.

Também não faltou um olhar contemporâneo ao tema, que buscou mostrar a perda de direitos sociais no atual cenário político. Na ala “Manifestoches”, a Tuiuti ironizou os manifestantes que pediram o impeachment da presidenta Dilma. Os passistas vieram à avenida segurando panelas e envoltos em patos que faziam menção à campanha da Fiesp “Não vou pagar o pato”. As mãos que pendiam sobre as cabeças de cada um, os colocavam como manipulados.

Na ala “Os Guerreiros da CLT”, a escola explorou a sobrecarga dos trabalhadores. Os passistas vieram segurando carteiras de trabalho e artefatos em vários de seus braços.

O último carro da escola representou um novo navio negreiro com a ala dominante se impondo sobre os trabalhadores. Destaque para a representação de um vampiro neoliberalista que trajava uma faixa presidencial, com clara alusão à figura de Michel Temer que, com o apoio do Congresso, colocou em prática a Reforma Trabalhista e perda de direitos dos trabalhadores.

Ponto alto da passagem da escola, o carro Neo-Tumbeiro foi bem recebido pela arquibancada e bastante comentado durante o desfile, a não ser pelos comentaristas da Globo que, entre risos incômodos, se limitaram a chamar o destaque de vampirão e ignorar a crítica feita ao governo Temer.

Sem problemas de ordem técnica, a escola encerrou “o melhor Carnaval de sua história”, como afirmou o presidente Renato Thor à reportagem do jornal O Globo. A escola falou em superação após o acidente com um carro alegórico durante o desfile de 2017, que causou a morte de uma componente.

O desfile foi bastante comentado e elogiado nas redes sociais. A escola chegou a ser trending topics no Twitter e não faltaram posts criticando o silêncio da Globo e comemorando o desfile “histórico”.


No aquário da TV Globo, depois do desfile da #Tuiuti, nenhuma palavra sobre o vampiro Temer, os patos da FIESP, os batedores de panelas e os retrocessos na CLT, tudo isso presente no enredo. Discordar, criticar é do jogo. Mas omitir é um despropósito.


Tuiuti desmoralizou o golpe, a Globo, os coxinhas, a FIESP, o judiciário, a lava jato, a PF, o MPF, não sobrou nenhum fascista para ser desmoralizado. Desfile da Tuiuti foi o mais importante desfile de uma escola de samba em toda história do carnaval! Nota 10 para a Tuiuti!





Um outro detalhe que teve no desfile da Tuiuti, mas que a TV não deu destaque, foram as fantasias com tucanos presos...


O mínimo estudo de história do samba já é suficiente para entender que não é só carnaval. Respeitem o carnaval. Respeitem a cultura de massa. O que vimos de Paraíso do Tuiuti é digno de lágrimas e felicitações. Não é só carnaval. Ou melhor, é sim carnaval. Isso é carnaval.

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