Após prisão na Bolivia, Battisti é levado para cumprir pena na Itália

Aeronave enviada pelo governo italiano para o traslado deixou a Bolívia no fim da tarde deste domingo

AF Agência France-Presse
Correio Braziliense

Battisti já dentro do avião que o levou para a Itália
(foto: Governo da Itália/Divulgação)

O ex-ativista italiano de extrema esquerda Cesare Battisti, capturado em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, embarcou, no fim da tarde deste domingo (13/1), em um voo com destino à Itália, onde foi condenado por homicídios, durante ações violentas nos anos 1970.

Battisti, de 64 anos, estava foragido desde o mês passado, quando fugiu do Brasil, onde inicialmente encontrou refúgio durante o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Nas próximas horas, este cidadão italiano será entregue pela Interpol Bolívia à Interpol Itália para ser trasladado em um voo enviado pelas autoridades da Itália", anunciou em coletiva de imprensa o ministro do Interior boliviano, Carlos Romero, na sede da Interpol de Santa Cruz, confirmando um anúncio feito em Roma.

O chefe de governo italiano, Giuseppe Conte, havia antecipado a informação pouco antes, depois de uma conversa por telefone com o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro.

O avião com policiais e membros dos serviços secretos que o governo italiano enviou para buscar Battisti pousou em Santa Cruz após as 15h locais (17h de Brasília). Por volta das 17h locais, a aeronave deixou o solo boliviano.

Um quebra-cabeças para Morales

Uma fonte do governo italiano tinha confirmado no domingo sua captura na véspera pela Polícia em uma rua de Santa Cruz. 

Battisti, de 64 anos, foi detido no sábado às 18H50 locais com "hálito de álcool", detalhou a fonte boliviana próxima à investigação. O italiano estava em posse de documentação brasileira, celular e cartão de crédito em seu nome. Desde então, ficou detido na instalação da Interpol em Santa Cruz.

Durante todo o domingo, o caso Battisti foi objeto de um intenso jogo político, judicial e diplomático entre Roma, La Paz e Brasília para definir seu destino.

O ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, tinha assegurado horas antes que, antes de ser enviado para a Itália, Battisti faria uma escala no Brasil. 

Ali, o governo do presidente Bolsonaro havia prometido devolvê-lo como um "presente" à Itália - onde também governam conservadores -, pondo fim a uma era de afinidade entre governos de esquerda e ativistas responsáveis por atos violentos durante os "anos de chumbo" da guerra fria. 

"Acabou o piquenique"

O deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, tuitou neste domingo que "o Brasil não é mais terra de bandidos" e, dirigindo-se, em italiano, ao ministro do Interior da Itália, Matteo Salvini, disse: "o 'presentinho' está chegando". 

"Meu primeiro pensamento é para as vítimas deste assassino (...), protegido pelas esquerdas de metade do planeta. Acabou o piquenique", tuitou Salvini. "Se fará justiça finalmente para as vítimas do terrorismo", reagiu de forma mais sóbria o ex-chefe de governo italiano, Paolo Gentiloni.

O caso deste ex-ativista, que voltou à clandestinidade após viver protegido por governos de esquerda - primeiro na França e depois no Brasil - representou um inesperado e incômodo dilema para o governo do também esquerdista Evo Morales diante da reivindicação italiana, entre lhe dar refúgio ou expulsá-lo.

Em 21 de dezembro, Battisti entregou uma nota ao Conselho Nacional do Refugiado (Conare), na Bolívia, pedindo que lhe fosse concedido "a qualidade de refugiado, garantindo, assim" sua "segurança, liberdade e vida", segundo carta divulgada pelo jornal El Deber de Santa Cruz.

A Bolívia não respondeu à solicitação de Battisti, e decidiu entregá-lo à Itália, o que, segundo a Defensoria do Povo, viola seus direitos.

O presidente Morales - que tentará a reeleição em outubro - optou por resolver o quebra-cabeças, entregando Battisti diretamente aos italianos, sem conceder ao Brasil a chance de exibi-lo como um troféu.

O ministro da Justiça italiano, Alfonso Bonafede, explicou que como o Brasil não prevê prisão perpétua em seu direito penal, a Itália havia aceito reduzir sua pena a 30 anos de prisão com a expectativa de recuperar o fugitivo. Um compromisso jurídico que não existe se for devolvido diretamente a Roma.

Battisti, que fugiu do Brasil em dezembro, foi localizado "com certeza" na Bolívia na semana passada, em Santa Cruz, onde foi preparada uma operação com as autoridades locais, segundo o governo italiano.

Uma saga digna de romance

O italiano estava foragido desde que o Supremo Tribunal Federal emitiu, em 13 de dezembro, uma ordem de captura contra ele. Um dia depois, o então presidente Michel Temer assinou a ordem de extradição, solicitada há anos pela Itália.

Ex-membro do grupo Proletários Armados pelo Comunismo (PAC) durante os "anos de chumbo" na Itália - marcados por atentados de organizações de direita e esquerda, entre elas as Brigadas Vermelhas -, Battisti foi julgado à revelia em 1993 e condenado à prisão perpétua por quatro homicídios e cumplicidade em outros assassinatos no fim dos anos 1970.

Ele viveu 15 anos exilado na França, protegido pelo governo socialista de François Mitterrand, onde se tornou um bem sucedido autor de romances policiais. Após uma estadia no México, voltou para a França, mas em 2004 foi obrigado a partir daquele país e se refugiou clandestinamente no Brasil, antes de ser detido no Rio de Janeiro em 2007.

Em 2010, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva negou sua extradição para a Itália, após um longo processo judicial com uma estadia na prisão. No último dia de seu mandato, Lula lhe concedeu o estatuto de refugiado político.

Durante a etapa brasileira de sua saga digna de um romance, Battisti se casou com uma brasileira, com quem teve um filho em 2013.

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