Ex-assessor foi preso na manhã desta quinta, 18 de junho, na casa de seu advogado em Atibaia/SP
Redação, O Estado de S.Paulo
Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, foi preso na manhã desta quinta, 18, em Atibaia, em São Paulo. Ex-funcionário do filho do presidente Jair Bolsonaro integra um
suposto esquema de corrupção na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e teve movimentações bancárias atípicas apontadas em relatório do antigo Conselho de Atividades Financeiras (Coaf), como revelou o Estado em dezembro de 2018. Veja a cronologia do caso abaixo.
O ex-assessor de Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz Foto: SBT Notícias
Como começou?
No início de dezembro de 2018, o Estado revelou que um relatório do Coaf apontava uma movimentação atípica de R$ 1,2 milhão na conta bancária de Queiroz. O valor é referente ao período entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017.
Ex-policial militar, Queiroz é amigo de longa data da família Bolsonaro e, oficialmente, trabalhava como motorista de Flávio Bolsonaro. O relatório também apontava um repasse de um cheque de R$ 24 mil da conta de Queiroz destinado à primeira-dama Michelle Bolsonaro. O relatório foi anexado à investigação que, em novembro, levou à Operação Furna da Onça, que prendeu dez deputados estaduais envolvidos no esquema.
MP abre investigação
Onze dias após a publicação da primeira reportagem sobre o caso, o Ministério Público do Rio abriu 22 procedimentos de investigação criminal com base no relatório do Coaf, com Queiroz entre os investigados. Com isso, são marcados os primeiros depoimentos para esclarecer o caso.
Outras informações foram sendo reveladas: o mesmo relatório apontava movimentações entre contas de Queiroz e de sua filha, Nathalia Melo de Queiroz, que até novembro de 2018 era assessora lotada no gabinete de Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados.
Uma análise na movimentação financeira de Fabrício Queiroz também mostrou que funcionários lotados no gabinete de Flávio repassavam valores equivalentes até 99% do salário que recebiam. Foi esse o caso de Nathalia, filha de Queiroz. Cerca de 57% dos depósitos feitos na conta de Queiroz ocorreram no dia do pagamento dos salários na Alerj no período investigado, ou até três dias úteis depois.
Ausência nos depoimentos
Alegando motivos de saúde e falta de tempo para analisar as acusações, o ex-assessor Fabrício Queiroz
faltou a dois depoimentos – nos dias 19 e 21 de dezembro – marcados pelo Ministério Público do Rio de Janeiro para explicar suas movimentações financeiras.
Dias depois, ele
apareceu em público pela primeira vez para prestar esclarecimento sobre o caso, em uma entrevista entrevista ao SBT, na qual alegou que a movimentação de R$ 1,2 milhão ao longo de um ano dizia respeito a negócios com venda de carros. No entanto, não explicou os depósitos feitos em sua conta por funcionários do gabinete e familiares empregados por Flávio e Jair Bolsonaro.
Internação no Einstein
No dia 30 de dezembro, Queiroz foi internado no hospital Albert Einstein e submetido a uma cirurgia para retirada de um tumor maligno no intestino. Ele disse que pagou a conta dos serviços médicos com recursos próprios e declarou ter recibo para comprovar, mas não quis dizer quanto custou. No dia seguinte após receber alta, Queiroz disse ao Estado que esclareceria “em breve” as movimentações atípicas em sua conta, mas não especificou quando faria isso.
Vídeo dançando
Três dias depois, um vídeo no qual ele aparece dançando no hospital, enquanto toma soro, viralizou nas redes sociais. A defesa de Queiroz divulgou uma nota oficial afirmando que o vídeo foi feito em um “raro momento de descontração". Segundo seu advogado, o vídeo teria sido feito no dia 31 de dezembro, à meia noite. Em um novo vídeo, ele afirmou estar revoltado com a circulação do vídeo e que estava apenas comemorando a virada do ano com a sua família.
Suspensão do STF
No dia 17 de janeiro, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux,
determinou a suspensão do procedimento investigatório criminal sobre o caso a pedido da defesa de Flávio. A decisão suspendia a investigação até que relator da Reclamação, ministro Marco Aurélio Mello, se pronunciasse. Marco Aurélio
rejeitou a reclamação e devolveu para a primeira instância a investigação. Na decisão, o ministro não analisou o outro pedido da defesa de Flávio Bolsonaro que queria a anulação das provas.
R$ 96 mil em depósitos
Trechos de um relatório do Coaf revelados pelo Jornal Nacional, da TV Globo, mostraram que Flávio Bolsonaro recebeu 48 depósitos de R$ 2 mil feitos entre junho e julho de 2017 em um caixa eletrônico da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), totalizando R$ 96 mil. Uma outra reportagem mostrou que o filho do presidente Bolsonaro também pagou um título bancário da Caixa Econômica Federal no valor de R$ 1.016.839. Em entrevista, Flávio afirmou que as movimentações se referem à
compra e venda de um imóvel na zona sul do Rio.
O senador Flávio Bolsonaro Foto: Dida Sampaio/Estadão
Além disso, o jornal O Globo informou que as movimentações financeiras nas contas de Fabrício Queiroz atingiram R$ 7 milhões entre os anos de 2014 e 2017. Até ali, se sabia que Queiroz havia movimentado R$ 1,2 milhão em transações suspeitas entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017.
Quebra de sigilo
Suspensão das investigações
Em junho, o presidente do STF, ministro Dias Toffoli suspendeu, a pedido da defesa de Flávio, todos os processos judiciais que tramitam no País onde houve compartilhamento de dados da
Receita Federal, do
Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e do
Banco Central com o Ministério Público sem uma prévia autorização judicial, ou que foram instaurados sem a supervisão da Justiça. Com a determinação do ministro, todos os casos que tratam sobre a controvérsia ficam suspensos até que o STF decida sobre a questão, incluindo o processo contra Flávio.
Mudanças no Coaf
A MP sofreu críticas por
abrir brechas para indicações políticas no seu Conselho Deliberativo. Antes restrito a funcionários de carreira do Banco Central e da Receita Federal, o grupo passou a ser composto por no máximo 14 conselheiros "escolhidos dentre cidadãos brasileiros com reputação ilibada e reconhecidos conhecimentos em matéria de prevenção e combate à lavagem de dinheiro, ao financiamento do terrorismo ou ao financiamento da proliferação de armas de destruição em massa".
Decisão de Gilmar
Gilmar Mendes destacou em sua decisão um e-mail enviado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ), de 14 de dezembro de 2018, no qual o MP-RJ solicita ao Coaf mais informações – sem prévia autorização judicial.
Por determinação do presidente do STF, ministro Dias Toffoli (dois tópicos acima),
as investigações já deveriam estar suspensas. No entanto, a defesa do senador alega que processos que miram Flávio não foram devidamente suspensos, desrespeitando, portanto, a decisão de Toffoli. Gilmar é o relator da reclamação do senador.
Paulo Marinho diz que PF avisou Flávio de operação
Suplente do senador
Flávio, o empresário
Paulo Marinho ouviu do filho mais velho do presidente Jair Bolsonaro que ele teria recebido informações sigilosas da
Polícia Federal (PF) sobre investigações envolvendo seu ex-assessor
Fabrício Queiroz. Marinho afirmou que, segundo relato do próprio Flávio Bolsonaro feito em dezembro de 2018, um delegado da PF avisou das investigações pouco após o primeiro turno das eleições gerais daquele ano e informou que membros da Superintendência da PF no Rio adiariam a
Operação Furna da Onça para não prejudicar a disputa de
Jair Bolsonaro contra
Fernando Haddad (
PT), no segundo turno de 2018.
Prisão
Queiroz foi preso na manhã desta quinta, 18, em Atibaia, em São Paulo. De acordo com o Ministério Público de São Paulo, ele estava num imóvel do advogado Fred Wassef e deve ser levado para o Rio de Janeiro ainda nesta quinta. A TV Globo noticiou a prisão e a informação foi confirmada pelo Estadão.
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