Por Andréia Sadi*
G1
Manifestações de Valdemar da Costa Neto – dono do partido de Bolsonaro – e Arthur Lira (PP) ocorrem em meio a articulações de juristas e empresários para divulgar cartas em defesa da democracia e repercussão negativa da reunião do presidente com embaixadores estrangeiros para atacar urnas eletrônicas.
Presidente Jair Bolsonaro, Rodrigo Pacheco e Arthur Lira.
Foto: Antonio Molina/Fotoarena/Estadão Conteúdo
O Centrão tem feito, apesar de tardiamente, acenos públicos de apoio ao sistema eleitoral nos últimos dias. Na prática, o movimento faz parte de um jogo duplo, uma estratégia típica do bloco quando não tem certeza absoluta se apostou no "cavalo certo": apoia Bolsonaro mas, como existe o dayafter – e eles não sabem se será Lula ou Bolsonaro –, melhor fazer movimentos que indiquem que a interlocução com o "outro lado" não estará interditada em caso de derrota do presidente.
Dono do partido pelo qual Bolsonaro vai concorrer à reeleição, Valdemar disse a Fachin – alvo de reiterados ataques do presidente – que confia na Justiça Eleitoral. E mais: que é totalmente contra o voto impresso, uma das bandeiras do presidente.
O objetivo do PL, repete Valdemar a integrantes do Judiciário, é fazer bancada no Congresso. Traduzindo: a prioridade do Centrão é ter poder, como sempre, no Congresso Nacional.
Na quarta, Lula mudou o tom e, pela primeira vez, também acenou a Arthur Lira. Em entrevista ao UOL, disse que quem precisa do presidente da Câmara é o presidente da República – e que o presidente da República não deve interferir na escolha pelo comando da Mesa Diretora.
Lira, nos bastidores, não acredita nessa fala de Lula. Mas, por uma coincidência, também na quarta – após nove dias em silêncio – disse que
confia no sistema eletrônico. Lira fez o discurso ao lado de Bolsonaro e dias depois de participar da convenção que
oficializou Bolsonaro candidato. No evento do domingo, Lira vestiu a camisa de Bolsonaro. Na quarta, assoprou: fez o discurso de defesa das urnas ao lado de Bolsonaro, que permaneceu olhando para a mesa.
Mas por que esses movimentos acontecem agora?
É consenso na campanha de Bolsonaro que o presidente é o responsável pela "onda errada" que domina o noticiário há semanas:
a reunião com embaixadores. A partir dali, as reações de diferentes autoridades, incluindo base do presidente como militar, Abin, PF – reagiram com contundência aos ataques do presidente.
Mais recentemente, aumentou a pressão sobre os que ainda não haviam se posicionado – pois uma articulação por parte de empresários, juristas, artistas e outras personalidades públicas, em torno de
cartas de apoio à democracia, conseguiu a adesão de 230 mil assinaturas e conta com nomes de peso do mercado como Walter Schalka, Roberto Setúbal, Pérsio Árida, entre outros.
Uma segunda é pilotada pela
Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) – que, na gestão Paulo Skaf, apoiou o impeachment de Dilma Rousseff (PT) – e que conta com o apoio da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). O comitê de campanha de Bolsonaro sentiu tanto o manifesto que prepara, como resposta, outros documentos de apoio ao combate a corrupção e contra a inflação.
O Centrão, como gosta de lembrar um de seus principais caciques, apoia o mandatário – mas desde que haja reciprocidade. Na política, isso significa conseguir acesso ao poder ilimitado por meio de verbas, cargos, espaços e pautas.
"Se o presidente da República adotar um voo solo, numa agenda que coloque em risco o projeto de poder conjunto com Centrão, o Centrão pode até ver o barco afundar, mas ele sabe nadar", ironiza esse líder do bloco. Ou seja, o Centrão pode não desembarcar do apoio antes – mas, durante o processo eleitoral, pode construir pontes e amarrar acessos para pular do barco no dia seguinte do pleito.
Militares
Há, ainda, o impacto negativo do evento promovido por Bolsonaro para atacar o sistema eleitoral brasileiro diante de uma plateia de embaixadores estrangeiros, realizado apesar da orientação em contrário do Centrão.
Também na quarta, o presidente do Superior Tribunal Militar (STM), que estava no encontro – para o qual os comandantes das Forças Armadas recusaram os convites do Planalto –, declarou na quarta-feira que os
militares não têm que se envolver nas eleições.
Nos bastidores, integrantes da cúpula do Exército reafirmam que não há endosso nem apoio a qualquer aventura de Bolsonaro – mas sabem que o presidente continuará a tentar arrastá-los para o tumulto.
Por isso, nas análises de praxe feitas por esses militares sobre as eleições, eles consideram todos os cenários, desde tranquilidade até falência dos sistemas de segurança pública estaduais – o que bolsonaristas gostariam que acontecesse.
Em tom de brincadeira, esses militares dizem que nunca torceram tanto para chegar o Halloween, em referência ao dia 31 de outubro, o primeiro pós eleição – o 2º turno, caso necessário, ocorre um dia antes.
*Apresentadora do Estúdio I, na Globonews, comentarista de política da CBN e escrevo sobre os bastidores da política no g1
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