REFIS PRORROGADO
Quando o assunto é Correios, costuma aparecer no debate brasileiro uma comparação recorrente: a ideia de que os Estados Unidos seriam um exemplo de eficiência e que uma empresa pública que apresenta prejuízo deveria necessariamente ser privatizada.
Mas há um detalhe que costuma ficar fora dessa discussão: os Estados Unidos também possuem um serviço postal público e ele apresenta prejuízos bilionários.
Trata-se do United States Postal Service (USPS), responsável pelo serviço postal americano.
Segundo o relatório oficial da própria organização, o USPS encerrou o ano fiscal de 2025 com US$ 9 bilhões de prejuízo líquido, embora tenha registrado US$ 80,5 bilhões em receita operacional. O resultado representou uma melhora em relação ao prejuízo de US$ 9,5 bilhões registrado no ano anterior.
E o problema não ficou em 2025.
No segundo trimestre do ano fiscal de 2026, o USPS registrou novamente prejuízo líquido de US$ 2 bilhões. No primeiro trimestre, o resultado negativo havia sido de aproximadamente US$ 1,3 bilhão.
A própria previsão financeira da organização aponta para um prejuízo líquido de US$ 8,1 bilhões no ano fiscal de 2026.
O caso americano chama ainda mais atenção por uma característica do modelo de financiamento.
O USPS informa oficialmente que não recebe, em regra, recursos de impostos para bancar suas despesas operacionais. A instituição se financia principalmente por meio da venda de selos, produtos e serviços postais.
Ou seja: é uma estrutura pública, possui uma obrigação de atender toda a população e precisa buscar sua própria receita para manter a operação.
O serviço postal americano é obrigado a atender cidades, áreas rurais, pequenas comunidades e localidades espalhadas por todo o território dos Estados Unidos. Essa obrigação de serviço universal envolve, entre outros pontos, alcance geográfico, frequência de entrega, preços acessíveis e uniformes e acesso aos serviços postais.
Atualmente, o USPS entrega correspondências e encomendas para mais de 170 milhões de endereços, e, em muitos casos, sete dias por semana.
No Brasil, os Correios também enfrentam uma situação financeira difícil.
As demonstrações contábeis oficiais referentes a 2025 registram prejuízo de aproximadamente R$ 8,46 bilhões, segundo documento de auditoria interna da própria empresa, além de patrimônio líquido negativo acumulado.
As demonstrações financeiras mostram ainda que a receita líquida de vendas e serviços caiu de R$ 18,9 bilhões em 2024 para R$ 16,65 bilhões em 2025.
Portanto, não há razão para esconder ou minimizar os problemas dos Correios brasileiros.
A empresa precisa melhorar sua gestão, aumentar receitas, reduzir desperdícios, modernizar sua estrutura e encontrar um modelo sustentável para enfrentar a queda no volume de correspondências tradicionais e a transformação do mercado de encomendas.
Mas uma coisa é reconhecer um problema financeiro. Outra é concluir automaticamente que a única solução é privatizar.
É justamente aqui que o exemplo americano desmonta uma argumentação simplista.
O USPS é público, apresenta prejuízos bilionários, enfrenta dificuldades financeiras e, ainda assim, continua sendo responsável por uma obrigação considerada estratégica: levar correspondências e encomendas a todos os americanos, inclusive onde a operação não necessariamente seria a mais rentável.
A própria organização está implementando um amplo programa de modernização para tentar recuperar sua sustentabilidade financeira.
Em outras palavras, os Estados Unidos não tratam o prejuízo postal simplesmente como uma equação de “deu prejuízo = privatiza”.
Há uma discussão maior envolvendo serviço público, universalização, eficiência, gestão, preços e interesse nacional.
O debate brasileiro pode — e deve — ser feito com seriedade.
É legítimo perguntar por que os Correios acumulam bilhões em prejuízos. É legítimo cobrar eficiência, transparência e responsabilidade dos gestores. Também é legítimo discutir privatização.
O que não parece razoável é usar os Estados Unidos como exemplo de que “empresa pública não funciona”, ignorando que o país mantém um gigantesco serviço postal público que também enfrenta prejuízos bilionários.
E há uma ironia interessante nessa história:
Se prejuízo fosse, por si só, prova de que uma empresa pública não funciona e que a solução obrigatória fosse privatizar, os Estados Unidos teriam uma boa oportunidade para começar pelos próprios Correios.
Mas não é isso que está acontecendo.
O caso americano mostra que a discussão é mais complexa do que simplesmente colocar na mesma balança as palavras “público”, “privado”, “lucro” e “prejuízo”.
No fim das contas, talvez a verdadeira pergunta não seja apenas “os Correios dão lucro?”, mas:
“Qual é o custo para a sociedade de garantir que qualquer cidadão, esteja ele em uma grande cidade ou em uma pequena comunidade distante, tenha acesso ao serviço postal?”
Essa é uma discussão que vale a pena fazer — sem paixão ideológica e com os números sobre a mesa.
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