Adversários aceitam vitória de Obrador, que põe esquerda pela primeira vez na presidência mexicana

Partido do esquerdista conquistou também os governos da Cidade do México e dos Estados de Chiapas, Morelos, Tabasco e Veracruz

Cristiano Dias, ENVIADO ESPECIAL / CIDADE DO MÉXICO, O Estado de S.Paulo

Adversários do candidato esquerdista, Andrés Manuel López Obrador, admitiram que ele venceu ontem as eleições no México, antes mesmo de haver um resultado definitivo. A chamada contagem rápida, apuração provisória feita pelo instituto eleitoral do país, dava a Obrador 53% dos votos, uma larga vantagem sobre Ricardo Anaya, do Partido da Ação Nacional (PAN), que ficou com 22%, e José Antonio Meade, do Partido Revolucionário Institucional (PRI), que obtinha 16%. 

“Vamos acabar com a corrupção no México”, disse o presidente eleito, logo após a divulgação dos primeiros resultados. Os mercados reagiram bem. O peso teve uma valorização de 20 centavos frente ao dólar e Juan Pablo Castañón, líder dos empresários mexicanos, adotou um discurso conciliador em um pronunciamento na TV.

Andrés Manuel López Obrador acena após votação Foto: REUTERS/Carlos Jasso

Durante os sete meses de campanha, Obrador liderou com folga as pesquisas. A maior surpresa da noite, no entanto, veio dos rivais. Em apenas 45 minutos, sem qualquer anúncio oficial do Instituto Nacional Eleitoral (INE), Meade e Anaya reconheceram a derrota.

Meade foi o primeiro. “Os mexicanos tomaram a decisão. Reconheço que a tendência de votos favorece Obrador. Desejo êxito ao novo governo, pelo bem do país”, afirmou. Cerca de meia hora depois, foi a vez de Anaya. “Pelas informações que tenho, Obrador venceu. Falei com ele por telefone. Reconheço a derrota e felicito o vencedor”, disse Anaya. “Os mexicanos queriam mudança e votaram em Obrador, que claramente representa essa mudança.”

“Em nossa curta democracia, nunca vi isso acontecer”, afirmou o historiador Héctor Aguilar Camín, emocionado em um debate na rede Televisa. “Eles não só reconheceram a derrota, como felicitaram Obrador e o citaram nominalmente.”

Esta foi a terceira vez que Obrador disputou a presidência. Em 2006, ele perdeu para Felipe Calderón, do PAN, que declarou guerra às drogas e até hoje é responsabilizado pela disparada da violência no país. Em 2012, foi derrotado pelo atual presidente, Enrique Peña Nieto, do PRI, envolvido em escândalos de corrupção e muito criticado por não jogar duro com o americano Donald Trump.

Com a imagem dos partidos tradicionais no chão, Obrador fundou uma nova legenda, o Movimento da Regeneração Nacional (Morena), moderou seu discurso e venceu com facilidade. Mesmo tendo 30 anos de carreira política, ele conseguiu se colocar como um candidato contrário ao establishment, uma posição confortável para surfar na onda global de insatisfação popular que afeta vários países do mundo. A economia mexicana dá sinais evidentes de esgotamento. O peso vem perdendo valor, a inflação está em alta e a desigualdade está cada dia maior. Os índices de violência são alarmantes, o poder dos cartéis está em expansão e a população reclama da corrupção.

Obrador terá de lidar com um presidente americano hostil, que pretende construir um muro na fronteira, deportar o máximo de imigrantes que conseguir e torpedear o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta). O fato de o México ser economicamente dependente dos EUA diminui seu poder de barganha. Trump o felicitou pelo Twitter, dizendo que gostaria de trabalhar com o mexicano. “Há muito a ser feito em benefício dos EUA e do México.”

Aos 64 anos, Obrador é experiente. Começou a militar na política nos anos 70. Foi prefeito da Cidade do México, de 2000 a 2005, com bom índice de aprovação. 

Algumas promessas parecem ter sido feitas para consumo eleitoral, como cortar salários de funcionários, ministros e até o dele próprio. Outras esquisitices são propor um referendo revogatório na metade do seu mandato, vender a frota de aviões e helicópteros do Estado e não viver com a família no palácio presidencial, para economizar uns trocados do contribuinte.

Obrador promete liderar pelo exemplo. Ele acredita que, com isso, acabará com a corrupção. O tom personalista, às vezes messiânico, preocupa muita gente. “Obrador tem duas convicções. A primeira, que ele tem a missão histórica de salvar o México. A segunda, que suas qualidades, principalmente sua honestidade, serão as únicas causas da transformação do país”, disse o analista Guillermo Valdés Castellanos. “Mais adiante, isso pode se voltar contra ele.”

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