A vez dos oportunistas


Deputados acham que podem se valorizar com eventual vitória de Bolsonaro

João Domingos, O Estado de S.Paulo

O governo de Michel Temer está cada dia mais parecido com o de José Sarney (1985-1990): baixa credibilidade, suspeitas de corrupção envolvendo o presidente e auxiliares, pressão de empresários e de trabalhadores, ameaça de paralisação do País, e rejeição da figura do chefe do Executivo por parte dos candidatos à Presidência da República. 

Sem falar nos recuos e nas idas e vindas. Sarney, com seus planos econômicos fracassados e suas tablitas de desconto de preços; Temer, com suas tabelas de frete e do preço do diesel. Lá, no governo Sarney, como cá, no de Temer, intervenções econômicas sem risco de dar certo, por desestabilizadoras de cadeias produtivas. Sarney era do MDB. Temer também é. Nos seus inícios, ambos os governos foram vistos como salvadores da Pátria. Nos finais, um deus nos acuda.

Nas condições de fragilidade em que se encontrava, Sarney pôde assistir ao fracasso da chapa Ulysses Guimarães/Waldir Pires na eleição de 1989, a primeira no período pós-redemocratização. Nas condições em que se encontra, Temer teve de desistir do sonho de se candidatar à reeleição. Henrique Meirelles, que herdou a chapa do MDB, segue lá embaixo nas pesquisas sobre intenção de votos, 1%.

Como não existe expectativa de que Meirelles venha a melhorar seus porcentuais, parlamentares do MDB não estão nem aí para o candidato, que largou o Ministério da Fazenda para tentar chegar ao Palácio do Planalto. Começam a sonhar com a vitória de Jair Bolsonaro, do PSL. E o raciocínio é simples: a candidatura de Bolsonaro já se consolidou. Como ele pertence a um partido pequeno que não fará bancada grande, caso venha a ser eleito, precisará do MDB, como todos os outros presidentes precisaram. Portanto, terá de compor com o partido e ceder vagas na Esplanada dos Ministérios a deputados e senadores emedebistas. Assim, continua a dominar setores do governo, como sempre dominou.

O MDB agiu assim na campanha de 1989 ao ignorar a candidatura de Ulysses Guimarães e apoiar a de Fernando Collor, que despontava como o favorito. Não terá dificuldades de agir do mesmo jeito de novo. Henrique Meirelles, que é novo no MDB, precisa aprender um pouco mais sobre o partido que escolheu para disputar a eleição. Isso vale para Bolsonaro ou para qualquer outro. Bolsonaro seduz mais porque, se eleito, ficará mais dependente, pois não há possibilidade de composição com os partidos de centro-esquerda.

Os emedebistas não estão sozinhos nesse plano. Outros partidos agem exatamente como eles. Aguardam o que vai acontecer na campanha, se algum candidato se destacará ou não, para depois declarar seu apoio a esse ou aquele.

Sociedade em demolição. A perda do controle da segurança pública pelo Estado, a formação de milícias com leis próprias, um governo fraco que mal se sustenta, a corrupção e tantos males atuais que tornam viável uma candidatura à Presidência baseada no messianismo evocam sintomas de uma sociedade em demolição. 

O escritor inglês Christopher Isherwood (1904-1986) viveu em Berlim no fim dos anos 1920 e início dos anos 1930. No livro Adeus a Berlim, ele faz um relato o mais imparcial possível da sociedade berlinense da época e com a qual conviveu: residências que serviam de pensões baratas, onde alugava um quarto, as prostitutas, o desemprego em massa, as tensões raciais, os bares decadentes, a riqueza de uma família de judeus dona de uma rede de lojas de departamento, a violência que presenciou e a adesão ao nazismo cada vez maior dos jovens. Havia ali uma sociedade em demolição em busca de uma saída. 

Um dos capítulos do livro, “Sally Bowles”, foi adaptado para o cinema por Bob Fosse no filme Cabaret, com Liza Minelli e Michael York.

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