O senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) e o deputado federal Hugo Motta (Republicanos-PB) Gabriela Biló e Rafaela Araújo/Folhapress
Congresso sedimenta fortalecimento iniciado há dez anos; Alcolumbre e Motta encontram cenário de duplo favoritismo que não ocorre desde 2003
Folha de São Paulo
Brasília
O aparente céu de brigadeiro no trajeto dos dois candidatos à sucessão de
Rodrigo Pacheco (
PSD-MG) no Senado e
Arthur Lira (
PP-AL) na Câmara demonstra o poder dos partidos de centro-direita e de direita na Câmara, que conseguiram unir em torno de si um amplo leque de apoio, do PT de
Lula ao PL de
Jair Bolsonaro.
Mostra também, com o papel de coadjuvante do Executivo, a sedimentação do fortalecimento do Congresso iniciada em 2015.
A eleição para o comando do Senado começará pela manhã, às 10h. Alcolumbre —que já presidiu a Casa de 2019 a 2021—,
terá como concorrentes, caso nenhum deles desista, os senadores Astronauta Marcos Pontes (PL-SP),
Soraya Thronicke (Podemos-MS),
Marcos do Val (Podemos-ES) e Eduardo Girão (Novo-CE).
A eleição na Câmara está marcada para começar à tarde, às 16h, com Hugo Motta enfrentando os azarões Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ) e
Marcel van Hattem (Novo-RS). O mandato é de dois anos.
Caso o favoritismo se confirme, será mais uma vitória do centrão e das demais legendas de centro e de direita, grupo por ora hegemônico e que tem deixado tanto a esquerda como a oposição bolsonarista restrita às franjas do Legislativo.
A última vez em que as eleições no Congresso transcorreram com favoritismo amplo foi em 2003, primeiro ano do primeiro governo de Lula, com João Paulo Cunha (PT) na Câmara e José Sarney (PMDB) no Senado.

O deputado federal Ulysses Guimarães, em 1985, durante sua segunda passagem pela presidência da Câmara Avani Stein - 31.dez.1985/Folhapress
As eleições no Senado sempre foram vencidas por políticos centro-direitistas, desde a redemocratização. Na Câmara, as duas primeiras gestões de Lula (2003-2010) e a primeira de
Dilma Rousseff (2011-2014) conseguiram emplacar quatro presidentes de esquerda, sendo três do PT.
A última vez que a esquerda comandou a Casa, porém, foi no biênio 2011-2013, com Marco Maia (PT-RS). Em 2015, já no início de seu segundo mandato, Dilma trabalhou para colocar o petista Arlindo Chinaglia (SP) novamente na presidência da Câmara, mas aí aconteceu o marco que encerrou as gestões de esquerda e que impulsionou o até aquele momento incipiente empoderamento do Congresso.
A principal mudança que levou ao empoderamento do Congresso nesse período foi a aprovação da execução obrigatória da maior parte das
emendas parlamentares, além da multiplicação de seu valor.
Antes, governos montavam suas bases e garantiam a fidelidade de deputados e senadores muito em função da gestão das emendas ao Orçamento —represando a liberação das verbas de infiéis e oposicionistas, por exemplo.
A fragilidade política do Executivo no segundo mandato de Dilma e nos de
Michel Temer (2016-2018) e Bolsonaro (2019-2022) possibilitou ao Congresso obrigar a execução das emendas e vitaminar em valores nunca antes vistos o que é hoje seu principal mecanismo político.
Em 2015, cada deputado e senador tinha sob seu controle R$ 16 milhões em emendas, e o governo tinha o poder de não pagar nenhum centavo, se quisesse.
Após essa data e ano a ano, a impositividade das emendas foi crescendo,
assim como o valor.
Em 2024, cada deputado teve ao menos R$ 38 milhões e cada senador, R$ 70 milhões. Além desse montante, há as emendas coletivas, gerenciadas pela cúpula das bancadas e do Congresso. No total, o Congresso manda em mais de R$ 50 bilhões ao ano —mais de R$ 135 milhões por dia, em média.
As emendas também têm um longo histórico de corrupção e são atualmente alvo de investigações da
Polícia Federal —o que tem deixado parlamentares apreensivos, em mais um ingrediente de tensionamento do Congresso com o Judiciário e com o Executivo, a quem a PF está subordinada.
As eleições para trocar o comando da Câmara e do Senado acontecem a cada dois anos, em votação secreta entre os 513 deputados federais e 81 Gabriela Biló- 11.jul.24/Folhapress
Do ponto de vista de projetos, há um buraco negro sobre o que deve ser a prioridade de deputados e senadores, já que as campanhas dos dois candidatos se resumiram a encontros de bastidor e a negociações para divisão de poder interno nas mesas diretoras e nas comissões.
O próprio perfil de Alcolumbre e Hugo Motta contribui para isso, já que não são formuladores políticos ou afeitos a entrevistas e discursos, priorizando a atuação de bastidores e as negociações envolvendo as emendas.
Alcolumbre tem 47 anos e foi por muitos anos integrante do baixo clero da Câmara. Já no Senado, conseguiu derrotar em 2019 o até então favorito
Renan Calheiros (MDB-AL) e presidiu a Casa até 2021. Fez Pacheco seu sucessor e manteve nos últimos quatro anos amplo poder político, incluindo o de distribuição das emendas parlamentares.
Hugo Motta deverá ser o mais jovem presidente da Câmara da história. Aos 35 anos, foi alçado à candidatura por Lira, que o escolheu em detrimento de outros concorrentes, em especial
Elmar Nascimento (União Brasil-BA) e
Antonio Brito (PSD-BA).
Há uma expectativa entre governistas de que a relação do Executivo com a Casa possa melhorar com a chegada de Hugo, sobretudo na articulação política. Isso porque
Lira rompeu com Alexandre Padilha (Secretario de Relações Institucionais). Além disso, o deputado da Paraíba é descrito como conciliador e mais aberto ao diálogo.
Apelidado de "Senhor Diretas", Ulysses Guimarães (PMDB) presidiu a Câmara de 1985 a 1989. Após deixar o comando da casa, ficou em 7º lugar n Ailton de Freitas/Folhapress - 21.set.1992Mais
Veja a cronologia das emendas parlamentares, o principal instrumento político hoje do Congresso
Antes de 2014
A execução das emendas parlamentares era uma decisão política do governo, que poderia ignorar a destinação apresentada pelos congressistas.
2014 (Governo Dilma Rousseff 1)
Em novembro de 2013, o
Congresso Nacional introduziu na LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias, que estabelece as balizas para o orçamento do ano seguinte) para 2014 a obrigatoriedade da execução, pelo Executivo, das emendas parlamentares
2015 (Governo Dilma Rousseff 2)
A emenda constitucional 86/2015 colocou na Constituição a regra de execução obrigatória das emendas individuais, o chamado orçamento impositivo, com algumas regras.
Naquele ano cada senador e deputado tinha R$ 16,3 milhões em emendas individuais
2019 (Governo Jair Bolsonaro)
- O Congresso ampliou o orçamento impositivo ao aprovar a emenda constitucional 100, que tornou obrigatória também as emendas de bancadas estaduais.
- O Congresso emplacou um valor expressivo para as emendas feitas pelo relator-geral do Orçamento, R$ 30 bilhões para o ano seguinte.
- Jair Bolsonaro vetou a medida e o Congresso só não derrubou o veto mediante acordo que manteve R$ 20 bilhões nas mãos do relator-geral.
- Bolsonaro também deu uma autonomia completa para a cúpula do Congresso decidir para onde todo esse montante seria destinado.
2020 (Governo Jair Bolsonaro)
- Com o acordo de 2019, feito por Bolsonaro para manter uma base de apoio no Congresso, o valor destinado às emendas deu um salto e chegou a R$ 44 bilhões.
2022 (Governo Jair Bolsonaro)
- Durante a campanha eleitoral, Lula criticou o modelo de negociação com o Congresso e prometeu sepultá-lo, mas, na prática, acabou não fazendo isso.
- O STF declarou inconstitucional a emenda de relator, que eram usadas pela cúpula do Congresso para distribuição aos parlamentares de acordo com suas conveniências políticas. O Congresso, então, tirou essa verba da mão do relator e passou para as comissões, mantendo o modelo de distribuição
2023 (Governo Lula)
Cada deputado teve R$ 32 milhões em emendas individuais (senadores, R$ 59 milhões), valores que têm execução obrigatória e que em alguns casos podem mais que dobrar em decorrência das emendas de bancadas e das "emendas extras".
2024 (Governo Lula)
Cada deputado passou a ter direito a emendas individuais no valor de R$ 37,9 milhões. Cada senador, R$ 69,6 milhões, o que não inclui as de bancada e de comissão. O valor total das emendas superou a casa dos R$ 50 bilhões.
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