Política externa danifica imagem do Brasil e ameaça economia

Por KENNEDY ALENCAR

Bolsonaro e Itamaraty queimam 
capital político de décadas
São Paulo

Uma sequência de erros na política externa causa danos à imagem internacional do Brasil, queimando um capital político construído ao longo de décadas. Essa linha de ação ameaça trazer prejuízos econômicos concretos à nossa população, aumentando o desemprego e desestruturando cadeias produtivas exportadoras, como a de proteína animal.

A viagem do presidente Jair Bolsonaro a Israel é mais um exemplo de como o Brasil erra na política externa. Bolsonaro conseguiu piorar a relação brasileira com o Oriente Médio, uma região do mundo em que há vários conflitos, entre os quais confrontos crônicos entre palestinos e israelenses.

O Brasil tem uma ótima relação com Israel. Comportar-se como cabo eleitoral do primeiro-ministro Binyamin Netannyahu é correr o risco de se indispor com um eventual novo governo. Haverá eleições em Israel no dia 09 de abril, terça-feira que vem. Na recente visita aos EUA, Bolsonaro também agiu como cabo eleitoral de Donald Trump, que concorrerá à reeleição no ano que vem.

Esse comportamento presidencial rebaixa o Brasil, pois é clara interferência nas disputas políticas de outros países. A estratégia bolsonarista abraçada pelo ministro Ernesto Araújo também contraria a tradição do Itamaraty e a nossa Constituição, que não preveem intervenção em assuntos internos de outras nações, mas o respeito à autodeterminação dos povos.

Bolsonaro permitiu que Netanyahu o acompanhasse na visita ao Muro das Lamentações, algo que chefes de Estado evitam fazer. Esses líderes comparecem ao local sagrado em caráter pessoal, pois há uma disputa por Jerusalém travada em fóruns internacionais. O Itamaraty deveria orientar melhor o presidente.

Ao anunciar a abertura de um escritório comercial em Jerusalém, Bolsonaro desagradou a todos os lados. Os israelenses queriam o anúncio de mudança da embaixada de Tel Aviv para Jerusalém. Os palestinos viram a pretensão de instalar um escritório comercial como um primeiro passo nesse sentido, algo dito por Netanyahu e confirmado posteriormente por Bolsonaro, que afirmou que faria a mudança até o fim do seu mandato em 2022.

A ANP (Autoridade Nacional Palestina) e o Hamas se manifestaram duramente contra Bolsonaro. A bancada evangélica no Congresso Nacional ficou decepcionada, porque apoia a transferência da embaixada. A bancada ruralista está apreensiva, pois teme retaliação de países árabes.

Há chance concreta de prejuízo às nossas exportações de carne de boi e frango para países árabes. A cadeia produtiva desses setores em Santa Catarina pode sofrer caso o Brasil perca parte de um mercado externo que construiu a duras penas durante décadas.

Como lembrou Roberto Nonato ontem no “Jornal da CBN – 2ª Edição”, os negócios estão em Tel Aviv não em Jerusalém. Um escritório comercial em Jerusalém é desperdício de dinheiro público.

Bolsonaro está se especializando em criar problemas. Um presidente deveria resolvê-los. Mas é fato que ele não pode ser acusado de estelionato eleitoral. Bolsonaro é isso. É o que é: uma pessoa despreparada para presidir o país.

No entanto, chegou ao cargo eleito democraticamente, o que tem que ser respeitado. Cabe à imprensa fazer suas críticas, apontar eventuais erros e aceitar ser contestada em suas avaliações. É do jogo democrático.

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Caos na ilha

O impasse em relação ao Brexit aumenta a chance de uma saída da União Europeia sem acordo, o chamado “no deal”. Seria desastroso para o Reino Unido, mas também traria problemas para a União Europeia. Há uma forte relação comercial entre a ilha e o continente. Muitos europeus vivem no Reino Unido e seriam afetados por uma saída se acordo.

Ao rejeitar ontem quatro opções para resolver o imbróglio, o parlamento britânico deixou claro que deseja um “soft Brexit”, mas não sabe qual. Manteve a indefinição a 11 onze dias do prazo para sair sem acordo. É preciso que os políticos ajam com responsabilidade e rapidez para evitar o “hard Brexit”.

Como alternativas, poderia haver um pedido de extensão do Brexit, para dar mais tempo para os britânicos bolarem um novo plano, ou convocação de eleições gerais, o que os conservadores não querem por temerem vitória dos trabalhistas.

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Temer em modo de guerra

Em conversas reservadas, o ex-presidente Michel Temer vê risco para a democracia no Brasil. Aponta a incapacidade de Bolsonaro como um fator que joga nesse sentido, pois diz que negociar com o Congresso é fundamental para governar. Mas o ex-presidente destaca que a maior ameaça seria um projeto de poder de setores do Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal para criminalizar a política e interpretar as leis de modo contrário à Constituição.

Temer entende que a sua recente prisão foi uma reação da Lava Jato à decisão do STF que determinou que a Justiça Eleitoral julgue crimes conexos, como corrupção e lavagem de dinheiro.

No primeiro dia de prisão, Temer pensou em acabar com a própria vida, mas, ao ver reações de advogados, jornalistas e políticos contra a prisão preventiva decretada pelo juiz federal Marcelo Bretas, encontrou forças para reagir. Delegados que o prenderam disseram que a decisão de Bretas era inconsistente e que ele sairia logo da prisão, o que, de fato, aconteceu. Bretas fez um papelão.

Temer tem dito que vai lutar do mesmo jeito que enfrentou a delação de Joesley Batista em 2017. Ele considera injusta e inverídica a acusação de chefiar organização criminosa bem como as demais acusações. Vê semelhanças entre o seu caso e o de Lula, com excesso de medidas do Judiciário e do Ministério Público (lawfare) para dificultar suas defesas.

O ex-presidente contou que foi abordado por três policiais com fuzis no meio da rua. Afirma que foi tratado com cordialidade pela Polícia Federal, mas considera que a prisão teve objetivo de espetáculo para a mídia. O ex-presidente tem dito que as adversidades lhe dão energia para lutar. Em resumo, esse é o estado de espírito do ex-presidente.

Ouça abaixo os comentários feitos ontem no “Jornal da CBN – 2ª Edição”:

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