Segunda cirurgia tornou a recuperação do candidato do PSL mais demorada; receio é de que longa permanência no hospital consolide imagem de debilidade
Por Constança Rezende, Fabiana Cambricoli, Renata Cafardo, Tânia Monteiro e Leonencio Nossa
O Estado de S.Paulo
Uma segunda cirurgia no intestino tornou a recuperação de
Jair Bolsonaro mais demorada e deixou em suspense a campanha do candidato do PSL à Presidência nas
eleições 2018. A cúpula da campanha bolsonarista está virtualmente paralisada e às cegas, sem a orientação do presidenciável, que lidera as
pesquisas de intenção de voto. O maior receio é de que uma internação mais longa consolide uma imagem de fragilidade do deputado.
Jair Bolsonaro em Juiz de Fora em 6 de setembro, dia do atentado
Foto: FABIO MOTTA/ESTADÃO
A
operação de emergência, realizada na noite de quarta-feira, 12, pode impor limitações que se estenderão até mesmo ao período pós-eleitoral. Segundo médicos especialistas ouvidos pelo Estado, se não houver complicações, ele só estaria plenamente recuperado em um prazo de 4 a 6 meses. Isso porque Bolsonaro terá de passar por uma terceira cirurgia.
Após duas cirurgias, o candidato precisou voltar para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e mal consegue falar. Praticamente só os parentes têm acesso ao presidenciável.
Ao Estado, Antonio Luiz de Vasconcellos Macedo, cirurgião-chefe da equipe médica de Bolsonaro, afirmou que o presidenciável ficará internado por um período de 10 a 15 dias, caso não ocorra nenhuma outra complicação. A estimativa, portanto, foi ampliada em relação à previsão inicial dos especialistas, que, na data do atentado, afirmaram que o tempo médio de internação em casos do tipo é de uma semana a dez dias.
Uma das dificuldades enfrentadas pela campanha é a falta de dinheiro. Ela impossibilita a contratação de pesquisas de opinião pública. Assim, a cúpula da candidatura não sabe qual será o efeito no eleitorado do ataque – e não tem segurança para agir.
Um dos pontos em discussão é a imagem de um Bolsonaro frágil, por causa da internação. Geralmente, o deputado é associado a posições de força e à defesa de bandeiras polêmicas, como a liberação do porte de armas para todos os cidadãos.
Filhos de Bolsonaro dividem agenda
Reuniram-se com policiais federais para saber das investigações do ataque. Depois, voltaram para seus Estados – Eduardo faz campanha por São Paulo e Flávio tenta o Senado pelo Rio. Vereador na capital fluminense, o outro filho do presidenciável, Carlos Bolsonaro, ficou com o pai, no hospital.
O acesso ao deputado no hospital foi restringido. O candidato a vice na chapa de Bolsonaro,
Hamilton Mourão, já tinha se posicionado contra a entrada de aliados no quarto do candidato para fazer vídeos. O general da reserva passou a semana pedindo “cautela”.
Médicos especialistas apontam restrições
As lesões causadas pela facada e a necessidade de duas operações fazem com que haja riscos de novas obstruções intestinais e infecções. O quadro delicado indica que, mesmo após as eleições, Bolsonaro ainda poderá ter restrições alimentares, dificuldades para andar, náuseas e outros desconfortos digestivos. Isso deve atrapalhar agendas públicas, viagens e corpo a corpo com simpatizantes.
A cicatrização interna (das lesões do intestino) dura, em média, 10 dias, mas a externa (da pele) só é considerada completa depois de três meses. “Pode haver rigidez na região da cicatrização. Mesmo que esteja andando, será mais devagar”, disse o professor de cirurgia da Faculdade de Medicina da USP Sergio Mies.
“Com um mês, o paciente já é liberado para as atividades corriqueiras, mas existem restrições da convalescença. Não dá para ser carregado, subir em carro de som”, afirmou o professor de gastroenterologia cirúrgica Alberto Goldenberg, da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Bolsonaro ainda terá de se acostumar a conviver com a bolsa coletora de fezes, colocada após a realização da colostomia. “É preciso esvaziá-la várias vezes ao dia. Muitos evitam viagem de avião, por exemplo”, disse Mies. Mas, segundo os especialistas, há produtos mais modernos que facilitam a vida do paciente na troca da bolsa. “A presença da bolsa em si não impede o paciente de fazer atividade física, trabalhar, namorar”, afirmou o cirurgião do aparelho digestivo Fábio Atuí.
De acordo com os médicos, a retirada da bolsa, em média, ocorre de dois a três meses após a primeira cirurgia, o que seria próximo de uma eventual posse como presidente. Quando há infecções na recuperação, esse prazo é ampliado.
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