Falha em linha de Belo Monte causa apagão em 14 Estados do Norte e Nordeste

Panes têm ocorrido com alguma frequência e já eram alvos de questionamentos pela Aneel; sistema conecta todos os Estados do País, com exceção de Roraima

André Borges, O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA - Falhas no linhão de transmissão de Belo Monte provocaram um apagão em 14 Estados das regiões Norte e Nordeste do País na tarde desta quarta-feira, 21. Também houve registro de falta de luz nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Segundo o Operador Nacional do Sistema (ONS), todos os Estados do Nordeste foram afetados e no Norte as exceções foram Roraima e Acre, que não foram impactados com queda de luz.

Em entrevista no Rio de Janeiro, Luiz Eduardo Barata, diretor-geral da ONS, afirmou que às 19h, 100% da energia estava restabelecida no Norte. Por volta das 20h, o Nordeste já contava com 70% de sua carga normalizada.

Segundo o governo, o motivo para o apagão foi uma falha técnica ocorrida na linha de transmissão da concessionária Belo Monte Transmissora de Energia (BMTE), no Estado do Pará. O motivo, apurou o Estado, está relacionado a uma falha técnica em um disjuntor de uma das estruturas de transmissão localizada na subestação Xingu, que recebe a energia da hidrelétrica de Belo Monte, para que esta seja transmitida para a região Sudeste do País.

A concessionária informou que outros locais também registraram blecaute. Foto: Divulgação

A queda ocorreu por conta de erro na calibração do disjuntor, equipamento que faz o controle automático da energia que passa pela linha. O componente estava calibrado para receber até 3.700 megawatts (MW) de potência, em vez de mais de 4 mil MW, como deveria. Nesta quarta-feira, 21, quando a transmissão atingiu esse volume limite, o disjuntor simplesmente caiu, paralisando todo o resto da rede.

Cronograma. A linha de 2,1 mil quilômetros (km), operado pela concessionária Belo Monte Transmissora de Energia (BMTE), controlada pela chinesa State Grid, entrou em operação em 13 de dezembro do ano passado, antecipando o cronograma original em dois meses. Nas últimas semanas, porém, apurou o Estado, a linha apresentou quedas e comprometeu o abastecimento de toda a hidrelétrica em construção no rio Xingu, no Pará. 

A linha de transmissão, que custou cerca de R$ 5 bilhões, tem início no município de Anapu, no Pará, a 17 quilômetros de distância da usina, e corta 65 municípios de quatro Estados - Pará, Tocantins, Goiás e Minas Gerais -, até chegar ao município de Estreito, na divisa de Minas e São Paulo.

Os problemas têm ocorrido com alguma frequência e já eram alvos de questionamentos pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). O efeito dominó na queda de energia ocorre porque a rede de Belo Monte está conectada ao Sistema Interligado Nacional (SIN), o qual conecta todos os Estados do País, com exceção de Roraima, o único que está fora dessa rede. 

A concessionária Norte Energia, dona da hidrelétrica de Belo Monte, descumpriu 23 medidas técnicas de segurança que tinham o propósito de evitar desligamentos de suas operações. O não atendimento às exigências levou a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) a notificar a concessionária há menos de um mês, no dia 23 de fevereiro, conforme apurou o Estadão/Broadcast.

Em ofício enviado ao diretor-presidente da Norte Energia, Paulo Roberto Ribeiro Pinto, a Aneel informava que, a partir de dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), "identificou-se a existência de 23 pendências com prazo vencido" em relação a recomendações feitas à hidrelétrica. Essas pendências, destacou a Aneel, referiam-se a duas medidas preventivas vencidas em 2018 e outras 21 em 2017. Todas as recomendações estão relacionadas, informou a agência "a diversos desligamentos associados ou não a perturbações sistêmicas".

A agência deixou claro que "a não implantação das ações acordadas em tempo combinado poderá ter como consequência a reincidência de novos desligamentos associados às mesmas causas e com transtornos durante as perturbações".Justificativa. 

Estados afetados. Por meio de nota, o ONS, que é o órgão federal responsável por gerenciar a fiscalizar a entrega de energia em todo o Brasil, informou que, às 15h48, “uma perturbação” no Sistema Interligado Nacional (SIN), a rede nacional de distribuição de energia, causou o desligamento de cerca de 18 mil megawatts (MW), majoritariamente localizados nas regiões Norte e Nordeste. Esse volume correspondia a 22,5% da carga total do sistema naquele momento.

Por causa dessa queda, um esquema regional de alívio de carga entrou em operação, atingindo as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, com corte automático de consumidores no montante de 4.200 MW. “Os sistemas Sul, Sudeste e Centro-Oeste ficaram desconectados do Norte e Nordeste”, informou o Operador.

Segundo o ONS, às 16h15 já havia sido realizada a recomposição de praticamente toda a carga no Sul, Sudeste e Centro-Oeste. “As equipes do ONS estão neste momento dedicadas à recomposição dos sistemas Norte e Nordeste, já em curso. As causas de desligamento estão sendo investigadas”, declarou. 

No Maranhão, todas as 217 cidades do Estado registraram o apagão a partir das 15h45, segundo a Companhia Energética do Maranhão (CEMAR). Em Manaus, no Amazonas, diversos bairros da cidade também registraram problemas. 

Na região metropolitana de Salvador, a situação causou problemas no trânsito, já que todos os semáforos da cidade apagaram e o metrô parou de funcionar. Informações preliminares distribuidora Cosern dão conta de que houve queda de energia em todos os municípios do Rio Grande do Norte. A concessionária informou que outros Estados também registraram blecaute. 

No Rio de Janeiro, os usuários relataram falta de energia em suas redes sociais. 

Em Palmas, no Tocantins, todos os semáforos da cidade foram desligados após a queda de energia. Outras cidades do Estado como Gurupi, Araguaína e Porto Nacional também registraram o problema da falta de energia. A prefeitura da capital informou que deslocou agentes de trânsito para facilitarem o deslocamento. 

Improviso. A falha aconteceu justamente no projeto que a BMTE assumiu da espanhola Abengoa, que faliu e não executou nenhuma obra no local. Para evitar que Belo Monte atrasasse a entrega de sua energia, a concessionária BMTE foi chamada para assumir as obras que a Abengoa não fez, além de ter que acelerar seu calendário em dois meses antes do previsto.

Por conta da situação, a BMTE fez ligações provisórias no “barramento” da linha de transmissão na subestação Xingu, dividindo sua conclusão em três etapas.

Por meio de nota, a empresa Norte Energia, dona da usina, informou que “o apagão que atinge as regiões Norte e Nordeste do país não foi originado pela Usina de Belo Monte” e que “a usina também foi afetada pela falha ocorrida”. 

No Rio Grande do Norte, pouco mais de duas horas após o apagão que deixou os 167 municípios às escuras, a energia elétrica voltou a ser restabelecida de forma gradativa. Os problemas, porém, já eram muitos. 

Nas ruas das maiores cidades, semáforos apagados e poucos agentes de trânsito para desafogar o fluxo geraram um cenário caótico. Nos cruzamentos mais movimentados da capital potiguar, alguns motoristas desceram dos carros e passaram eles próprios a organizar o fluxo. Em outros, policiais militares assumiram a tarefa. Uma colisão leve, entre um carro e um ônibus, foi registrada na zona Leste da cidade. Não houve feridos. 

No Hospital Municipal de Natal e no Hospital Estadual Dr. Ruy Pereira, ambos em Natal, as visitas aos pacientes internados nas Unidades de Terapia Intensiva e Enfermarias foi suspensa. Os geradores de energia elétrica das duas unidades foram acionados durante o apagão. Estudantes de escolas públicas e privadas e das maiores universidades acabaram sendo dispensados das aulas em decorrência do apagão. 

Em Pernambuco, trens e metrô tiveram a operação paralisada, instituições de ensino cancelaram as aulas no turno da noite e muitos estabelecimentos comerciais fecharam as portas antes das 17h. Longos engarrafamentos foram registrados em todas as áreas da capital, já que, em muitos bairros, todos os semáforos estavam sem funcionar. Nos pontos de ônibus muita gente esperou por mais de duas horas para conseguir embarcar em coletivos superlotados.

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